Morre Luiz Carlos Barreto, produtor do cinema brasileiro

Luiz Carlos Barreto construiu uma trajetória marcada por grandes produções, influência no Cinema Novo e mais de 70 filmes realizados

Crédito: Reprodução/YouTube

Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Luiz Carlos Barreto cresceu em uma época em que poucas crianças conseguiam sobreviver aos primeiros anos de vida. O próprio cineasta costumava dizer que fazia parte do grupo dos três em cada dez que chegavam a completar um ano. A resistência que marcou sua infância também definiu sua trajetória profissional: ele se tornou produtor de cinema e permaneceu, desde a década de 1960, como um dos nomes mais importantes e longevos da produção cinematográfica brasileira.

Conhecido como Barretão por amigos e até por antigos adversários, Luiz Carlos Barreto morreu na madrugada desta quarta-feira (22), no Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, deixou uma contribuição considerada monumental para o cinema nacional, com participação em obras como “Vidas Secas”, “Terra em Transe” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, entre muitos outros clássicos.

A morte foi confirmada por sua filha, Paula Barreto. O produtor estava internado no Hospital Copa Star e enfrentava as consequências de um acidente ocorrido há dois anos e quatro meses, que o deixou paraplégico.

Luiz Carlos Barreto iniciou carreira no jornalismo antes do cinema

Ainda adolescente, Luiz Carlos Barreto deu os primeiros passos profissionais no jornalismo, trabalhando em “O Democrata”, periódico ligado ao Partido Comunista cearense. A publicação encerrou suas atividades em 1947, após a extinção legal do partido. Sem desistir da carreira, ele mudou-se para o Rio de Janeiro e conseguiu uma vaga na revista “O Cruzeiro”, então uma das principais publicações do país.

Na revista, atuou como repórter e fotojornalista ao lado de profissionais reconhecidos, como José Medeiros e Indalécio Vanderley. Barreto considerava Medeiros seu principal mestre, admirando sua simplicidade e sua busca pela realidade nas imagens, em contraste com Jean Manzon, conhecido por fotografias mais elaboradas artisticamente.

A experiência em “O Cruzeiro” levou Luiz Carlos Barreto à França, onde trabalhou como correspondente internacional. Ele chegou a estudar no Idhec, escola francesa de cinema, mas abandonou o curso poucos dias depois por discordar da valorização excessiva da teoria. Preferia acompanhar as produções nos estúdios e observar diretamente o processo das filmagens.

Luiz Carlos Barreto transformou a fotografia do cinema brasileiro

A aproximação definitiva com o cinema aconteceu após seu retorno ao Brasil, quando acompanhou as filmagens de “Barravento” e conheceu Glauber Rocha. Por uma coincidência, Glauber montava o filme em uma moviola instalada na casa de Barreto, com montagem realizada por Nelson Pereira dos Santos. A partir daquele momento, sua ligação com a sétima arte tornou-se permanente.

Glauber Rocha indicou Barreto como corroteirista de “Assalto ao Trem Pagador”, projeto dirigido por Roberto Farias, e posteriormente insistiu para que ele fotografasse “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos. Inicialmente, Barreto argumentava que era fotógrafo de imagens jornalísticas, não de cinema, mas acabou aceitando o desafio.

Para Glauber, aquela era uma oportunidade de renovar a estética da fotografia cinematográfica e revelar a luz característica do Nordeste. Barreto eliminou filtros tradicionalmente utilizados para suavizar a iluminação intensa da região e criou imagens com fortes contrastes, revolucionando a fotografia do cinema brasileiro.

Em 1963, fundou a L.C. Barreto ao lado da esposa, Lucy Barreto, que se tornaria sua parceira na produção cinematográfica durante toda a vida. Ele ainda voltou a trabalhar com Glauber Rocha em “Terra em Transe”, mantendo a proposta de utilizar pouca luz artificial e explorando cuidadosamente os cenários para preservar a identidade do país fictício Eldorado, uma clara referência ao Brasil.

A estreia como produtor principal ocorreu em 1965, com “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, dirigido por Roberto Santos. A produção também simbolizava uma conexão entre importantes nomes do cinema brasileiro, já que Santos era próximo de Nelson Pereira dos Santos, diretor de “Vidas Secas”, filme fotografado por Barreto por indicação de Glauber.

Luiz Carlos Barreto consolidou uma das maiores produtoras do país

A trajetória de Luiz Carlos Barreto ganhou força com a chegada de Joaquim Pedro de Andrade ao Brasil após uma temporada em Paris. Naquele período, o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, do Banco Nacional de Minas Gerais, buscava projetos cinematográficos para investimento.

Joaquim Pedro trabalhava na adaptação de “O Padre e a Moça”, poema de Carlos Drummond de Andrade, e sua ligação com Barreto tornou-se fundamental para a realização do projeto. O diretor também já fazia parte da história do produtor, tendo comandado “Garrincha, Alegria do Povo”, um dos primeiros momentos de sua aproximação com o cinema.

Naquele período, Barreto já era reconhecido como um dos produtores de destaque do cinema brasileiro, apesar das dificuldades políticas da época. Ligado ao Cinema Novo, acompanhou o exílio de Glauber Rocha após “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, filme do qual foi coprodutor, assim como havia ocorrido em “Terra em Transe”.

Foi durante os anos 1970 que sua carreira atingiu maior projeção. O apelido Barretão ganhou força, embora ele afirmasse que o nome não surgiu nos bastidores do cinema, mas da convivência com Nelson Rodrigues durante partidas de futebol no Maracanã.

Após o fim do Instituto Nacional de Cinema e a consolidação da Embrafilme como principal órgão de distribuição e incentivo ao setor, a L.C. Barreto passou a ocupar posição de destaque como uma das maiores produtoras brasileiras.

Barretão sempre reconheceu a importância da esposa Lucy Barreto para esse sucesso. Enquanto ela esteve à frente de diversos projetos, ele utilizou sua influência política para defender o cinema brasileiro e a própria Embrafilme, embora também tenha recebido críticas de opositores sobre sua atuação.

Luiz Carlos Barreto deixou legado com filmes de grande alcance popular

Ao longo da carreira, Luiz Carlos Barreto defendeu uma visão de cinema como uma arte capaz de unir qualidade e grande alcance de público. Para ele, o cinema não deveria deixar para a televisão o papel exclusivo de comunicação de massa e não deveria ser restrito a pequenos grupos.

Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória estão “Bye Bye Brasil”, de Carlos Diegues; “Inocência” e “Ele, o Boto”, de Walter Lima Jr.; “Como Era Gostoso o Meu Francês” e “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos; além de “Menino do Rio”, de Antônio Calmon.

Nenhuma produção, porém, representou tanto sua visão quanto “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por seu filho Bruno Barreto em 1976. A adaptação da obra de Jorge Amado tornou-se um fenômeno de público, com quase 11 milhões de espectadores no Brasil, indicação ao Bafta, ao Globo de Ouro e a consolidação de Sonia Braga como estrela internacional.

Após o encerramento da Embrafilme, Barreto enfrentou os desafios da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990 e participou de dois filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional: “O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto.

No século 21, sua ligação com a política esteve presente na produção de “Lula, o Filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto. O longa recebeu críticas por sua aparência considerada oficial e pela associação com empresas ligadas a grandes obras públicas. O filme, que custou mais de R$ 17 milhões na época, levou cerca de 850 mil espectadores aos cinemas, resultado considerado abaixo das expectativas.

Apesar das críticas, a produção também revelou aspectos pessoais da trajetória de Barreto. A história destacava a figura de dona Lindu, mãe de Lula, interpretada por Gloria Pires, e apresentava a superação das dificuldades como elemento central da narrativa.

A relação com o filme também dialogava com a própria história do produtor: um nordestino que enfrentou obstáculos, venceu adversidades e dedicou a vida a combater as dificuldades enfrentadas pelo cinema brasileiro.

Com mais de 70 filmes produzidos, Luiz Carlos Barreto marcou profundamente a história do cinema nacional. Sua atuação durante sete décadas ajudou a construir uma das fases mais importantes da produção audiovisual brasileira.

  • Publicado: 22/07/2026 11:31
  • Alterado: 22/07/2026 11:31
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: FOLHAPRESS