Mobilidade individualizada e a renovação do transporte motorizado
Segurança, custo e falhas estruturais do transporte coletivo impulsionam a preferência pelo deslocamento individual nas cidades brasileiras
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 06/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Adquirir um veículo zero quilômetro tornou-se cada vez mais difícil no período pós-pandemia. Por outro lado, os veículos usados passaram da marca de 18,5 milhões de unidades comercializadas em 2025, segundo dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto). Além disso, no ano passado, pela primeira vez, as motocicletas superaram os automóveis em número de emplacamentos, quando excluídos os veículos comerciais leves, reforçando a lógica da mobilidade individualizada no Brasil.
Diante desse conjunto de acontecimentos, a mobilidade baseada no transporte individual motorizado ganha força em relação ao transporte coletivo. São diversos os fatores que explicam esse movimento, mas um deles merece destaque: os modelos tradicionais de previsão de demanda, amplamente utilizados no planejamento urbano e viário, subestimam uma variável essencial no processo decisório da população — a percepção de segurança no deslocamento.
Precisamos de segurança ao nos deslocarmos

Dependendo de onde se vive, a variável segurança pode ter peso maior ou menor na escolha do modo de transporte. Regiões metropolitanas tendem a apresentar não apenas uma percepção elevada de insegurança, mas também dados concretos relacionados a assaltos, furtos e sequestros relâmpagos. Esse cenário leva parte da população a buscar formas de se “blindar” no cotidiano, e a mobilidade individualizada passa a integrar esse contexto de autoproteção.
O transporte público, quando percebido como inseguro — seja nos pontos de parada, nos terminais ou dentro dos veículos — perde competitividade, mesmo quando é mais barato ou ambientalmente mais eficiente. A decisão modal, portanto, deixa de ser apenas racional e passa a ser fortemente emocional e preventiva.
Mobilidade Individualizada: Políticas públicas ao avesso
Em dezembro de 2025, os motociclistas foram beneficiados com a isenção do IPVA para motocicletas de até 180 cc no Estado de São Paulo. Em contrapartida, o mês de janeiro foi marcado por uma avalanche de reajustes nas tarifas do transporte público em diversos municípios da Região Metropolitana.
Além disso, a isenção de IPVA para todos os veículos com mais de 20 anos de fabricação, embora tenha caráter social e histórico, também estimula indiretamente a permanência e o uso de uma frota antiga, majoritariamente menos segura e mais poluente, reforçando o uso do transporte individual em detrimento do coletivo.
O resultado é um conjunto de sinais contraditórios: enquanto se incentiva o uso do veículo particular, onera-se o transporte coletivo, justamente o modo que deveria ser priorizado em áreas densamente urbanizadas.
Outros pontos de vista que agravam o cenário

Há ainda fatores estruturais que ajudam a explicar o avanço do transporte individual, como a perda de confiabilidade do transporte público, marcada por intervalos irregulares, viagens imprevisíveis e baixa integração entre os diferentes modais.
Somam-se a isso as mudanças no mercado de trabalho, com o aumento da informalidade e a adoção de jornadas mais flexíveis, que reduzem a aderência da população aos sistemas de transporte coletivo, rígidos e pouco adaptáveis.
O crescimento dos aplicativos de transporte também exerce papel relevante nesse cenário, ao oferecer maior previsibilidade, conforto e sensação de controle sobre o deslocamento, ainda que a um custo mais elevado.
Paralelamente, a expansão urbana dispersa dificulta a operação eficiente do transporte público e acaba por favorecer o uso do automóvel e da motocicleta. Esses elementos atuam de forma combinada, criando um ambiente no qual o transporte individual deixa de ser apenas uma escolha e passa, em muitos casos, a representar a única alternativa funcional de deslocamento.
Qual o caminho a seguir?
Estratégias voltadas à promoção efetiva do transporte público são o ponto-chave para qualquer tentativa de reversão desse quadro, ainda que os ajustes ocorram de forma gradual.
Utilizar o veículo próprio não é errado, nem deve ser tratado como vilão. O desafio está em oferecer alternativas atrativas que induzam a migração para o transporte coletivo. Isso passa por melhorias na segurança pública, no conforto, na previsibilidade, na confiabilidade e na economia do deslocamento.
Enquanto essas mudanças não se materializam, os aplicativos de transporte de duas e quatro rodas seguem ampliando sua participação, oferecendo um serviço mais alinhado às expectativas da população urbana.
Horizonte nebuloso para o transporte público e riscos crescentes

Caso não haja mudanças estruturais — como aumento dos subsídios ao transporte público, infraestrutura segregada para a mobilidade ativa e autopropelida eletrificada, além de instrumentos de gestão da demanda, como restrições veiculares ou o controverso pedágio urbano —, a tendência é a manutenção do uso massivo do transporte individual motorizado.
O resultado é um ciclo difícil de romper: mais veículos nas ruas, mais congestionamentos, maior exposição a riscos viários e um ambiente urbano cada vez menos seguro, inclusivo e eficiente para todos.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.