"Minions & Monstros" subverte o cinema e acerta em cheio na diversão
Illumination transforma caça-níqueis corporativo em homenagem ao cinema e ao público adulto
- Publicado: 03/07/2026 16:15
- Alterado: 04/07/2026 02:19
- Autor: João Pedro Mello
- Fonte: ABC do ABC
Abertura
Quando Minions & Monstros” anunciou o desejo de fundir o sagrado legado do terror clássico da Universal com a histeria patenteada dos capangas de Gru parecia a receita exata para o maior desastre criativo do ano, ao menos é assim que a premissa que se anunciava. Assim, com receio e incômodo da possibilidade de um mero movimento corporativo desesperado, desenhado unicamente para esvaziar carteiras nas lojas de brinquedos. Desse modo, o instinto de sobrevivência de qualquer adulto ranzinza e sem filhos que acompanha a saturação dessa indústria era prever uma tortura estridente, aguardando noventa minutos de pura poluição visual sem qualquer propósito narrativo.
Contudo, a grande e deliciosa surpresa que emerge da tela é que o diretor Pierre Coffin conseguiu a proeza de desarmar completamente o nosso mau humor logo nos primeiros atos. O filme abre com essas coisinhas amarelas, invadindo acidentalmente as catacumbas do Conde Drácula, ativando armadilhas seculares com a mesma naturalidade de quem tropeça numa casca de banana. Assim, já nesse primeiro gesto, fica claro que a produção abraça o seu próprio absurdo com uma energia tão contagiante que fica impossível manter a postura carrancuda diante desse espetáculo familiar.
O estúdio prova que entendeu perfeitamente que há exaustão no formato e por isso não sentiu vergonha ao decidir apostar suas fichas em uma abordagem que respeita a inteligência de quem pagou a inteira do ingresso. Em vez do humor rasteiro e repetitivo, o roteiro apresenta o choque de mundos como um conflito geracional entre a pompa gótica dos monstros dos anos trinta e a hiperatividade digital dos dias de hoje. A direção conduz esse choque de universos com uma leveza que desarma a crítica mais pedante.

O que mais impressiona logo de cara é a honestidade na direção de Coffin, que se revela no rápido entendimento de que o castelo mal-assombrado deixou de ser um antro de puro pavor e virou um palco de farsa teatral. Os enquadramentos reforçam esse contraste, deixando os monstros clássicos imponentes e dramáticos, enquanto a horda amarela quebra todas as regras de solenidade da cena. A montagem, por sua vez, tem coragem de dar pausas para a comédia física respirar.
A escolha de não diminuir o legado dos monstros de forma rasa é o que dá densidade à comédia. O Drácula não é um vilão desfigurado, mas sim um aristocrata frustrado que só queria um pouco de paz, oferecendo ao espectador adulto exatamente o espelho do próprio cansaço diário. Esse é o golpe mais certeiro de um texto que não exige muito do roteiro e nem precisa, porque transforma as lendas do terror em figuras profundamente relacionáveis. E desse modo, o caos deixa de ser externo e passa a refletir a loucura imagética do nosso próprio cotidiano.
Para quem chegou esperando um filme infantil leve e genérico, fica o aviso de que sim, é mais ou menos isso mesmo, mas sem pedir desculpa, o raso aqui também abriu espaço para um humor afiado. A comédia existe e funciona em sucessivos acertos de roteiro que não se constrangem para rir de si mesmos. A Illumination aposta que o público mais velho vai captar as referências, e ela acerta em cheio. É bem verdade que vi com meu filho o que amplificou e muito a experiencia, e não há problema nisso. Na dúvida, faça você isso também e assista com a sua família, até porque a premissa desses carinhas com tons de fandangos, nunca foi ser intelectualmente um Godard. Por aqui, o contraste entre a melancolia atenuada de Frankenstein e a alegria histérica de um Minion com uma lanterna, diverte mais do que qualquer aventura solo recente da franquia.
O cinema velho vira piada de salão
Se os Minions estampam os pôsteres publicitários para garantir a venda de ingressos de Minions & Monstros”, a verdadeira alma desta mistura cinematográfica atende pelos monstros clássicos e pelas referências cirúrgicas ao cinema. A trama, que poderia facilmente se apoiar no pastelão barato, assume as rédeas de uma verdadeira carta de amor à sétima arte. Uma jogada de mestre do roteiro é deslocar parte do foco para recriar cenas icônicas. Enquanto os personagens secundários correm de um lado para o outro, o olho treinado do espectador adulto captura quadros desenhados à perfeição.
O espelho que o filme constrói entre o horror antigo e a comédia contemporânea é de uma perspicácia narrativa fascinante. Coffin acerta em cheio ao usar o ambiente macabro da Universal, aqui sendo utilizado como um playground metalinguístico, transformando o choque estético em uma piada refinada que flui com extrema naturalidade durante os noventa minutos.

A recusa obstinada do diretor em aceitar passivamente um roteiro de piloto automático é o que movimenta o coração da trama e impede que o filme vire um longo comercial de pelúcias. Suas tentativas de inserir história do cinema no meio da anarquia amarela entregam momentos de puro brilhantismo. O ponto alto dessa ousadia criativa é a espetacular homenagem à icônica chegada do trem à estação dos irmãos Lumière. Ela se joga na tela com um requinte visual inesperado, provando que não existem limites para a comédia quando há reverência pela arte.
Para a horda amarela, a ameaça constante de lobisomens e múmias não é um pesadelo de terror, mas um convite ininterrupto para a bagunça, o que reabre velhas fórmulas do estúdio, mas agora com uma roupagem esteticamente deslumbrante e cheia de frescor.
É preciso aplaudir a forma como a animação digital e a estrutura do roteiro trabalham em absoluta simbiose para traduzir a graça indescritível desses contrastes. A narrativa não subestima o seu público, enchendo os corredores sombrios de acenos espertos que passam despercebidos pelas crianças, mas que arrancam risadas largas dos mais velhos. Por aqui, cada encontro inusitado entre o sagrado do cinema e o profano pop, parece soar como um autêntico respiro de originalidade, mesmo que na anarquia do riso com o absurdo, ainda pode ser a melhor arma da comédia.
Ao final de sua louca jornada pelos porões da Universal, o filme não se propõe a ser a maior comédia de animação do ano, mas empolga justamente por assumir esse parque de diversões colorido em uma espécie de gincana metalinguística despretensiosa, que atropela o cinismo do adulto e entrega um entretenimento rápido e deliciosamente satírico. O arco narrativo que a Illumination construiu justifica, por si só ao menos pra mim, a existência desse inusitado crossover nos cinemas.
As sombras clássicas engolidas pelo amarelo
A narrativa de Minions & Monstros”, foi desenvolvida para fisgar o adulto pelo humor, e eleger a arquitetura gótica como antagonista visual jogando o peso do contraste direto na tela. A atmosfera soturna dos clássicos de 1930 é o coração do cenário: grandes escadarias, laboratórios com raios elétricos e pântanos cobertos por névoa densa. Quando a produção injeta o amarelo vibrante e as traquitanas neon no meio dessa escuridão, um gesto de design arrojado vira a maior força visual da película. É aí que a direção de arte mostra a que veio.
A trama opera numa frequência de absurdos que dá para sentir no ritmo das perseguições, e a sisudez dos monstros é tratada com a gravidade de uma peça de Shakespeare que deu errado. Coffin arma um teatro silencioso nas sombras, onde Drácula, Múmia, o Monstro da Lagoa Negra e até uma hilária aparição de Cthulhu tentam manter a pose intimidadora que o público moderno já não compra mais. É um retrato divertidíssimo do que acontece quando o mito insondável precisa lidar com o ridículo.

Pelo caminho, surgem laboratórios sendo transformados em pistas de dança improvisadas, sarcófagos servindo de tobogã e o temível Necronomicon que já deu as caras em A Morte do Demônio (1982), de Sam Raimi, sendo folheado e profanado como um mero livro de colorir, decretando o fim da “era do terror clássico” com um humor físico que arranca riso solto. O detalhe genial é que o filme entende perfeitamente a importância de cada um desses ícones. Eles enxergam no próprio reflexo a quebra de sua pompa, e a forma como tentam desesperadamente recuperar o controle da situação é o motor da comédia.
Dividir a história entre o respeito aos cenários majestosos e a anarquia incontrolável dos Minions foi um risco de direção, e quase sempre as pontas se costuram incrivelmente bem. A ousadia de cutucar a própria herança de monstros do estúdio merece reverência. Não é comum um estúdio bilionário admitir, num blockbuster descompromissado, que seus maiores ícones do medo funcionam maravilhosamente bem como escadas cômicas brilhantes, e isso é uma tremenda notícia.
“Não é comum um estúdio bilionário admitir, num blockbuster de férias descompromissado, que o humor pode sim ser uma carta de amor ao cinema clássico”
Assim, o bloco de ação se encerra com um ritmo frenético e uma sucessão de gags visuais que funciona como um passeio de montanha-russa muito bem projetado. O filme dissecou diante da plateia o modo como o entretenimento se transforma ao longo das décadas. E mostra, com uma malícia adorável, que a gargalhada é a única força capaz de desarmar qualquer monstro — ou divindade cósmica — debaixo da cama.
O talento no gogó contra a gritaria
Se o filme entrega essa colisão toda sem afundar na repetição barata, o mérito absoluto é da dublagem nacional, que mata logo no primeiro diálogo o medo de ouvir um texto genérico. O talento brasileiro injeta sangue quente na frieza calculada da computação gráfica, e a sintonia do elenco convence pela vibração palpável. O ápice vem num momento de total colapso nervoso do Drácula, com um timing cômico que engrandece a cena na hora exata. É o tipo de entrega que só funciona porque foi executada por quem entende profundamente a arte da voz.
O trabalho de cabine é o contrapeso vital de um roteiro tão frenético, inserindo humanidade em berros curtos, pausas exasperadas e pequenas indignações que dizem muito mais que o texto original. Ter a presença monumental do genial Guilherme Briggs encabeçando o elenco de vozes é sempre um atestado prévio e seguro de altíssima qualidade técnica. O talento inegável do ator injeta um peso cômico maravilhoso à figura do vampiro exausto.

A interpretação nacional não é artifício barato para faturar em cima de gírias da moda, mas uma ponte direta entre a farsa da tela e a cultura do espectador brasileiro. A direção de dublagem acerta milimetricamente no compasso das piadas, garantindo que o sarcasmo natural e a ironia sobrevivam ilesos. O resultado é uma camada extra de humor que um trabalho mecânico dificilmente entregaria com a mesma força.
Cada tentativa frustrada das criaturas de impor medo, cada esforço de competir com a ingenuidade caótica dos invasores, vira puro ouro cômico traduzido na voz. É essa entrega magistral que impede a trama de virar apenas um festival de ruídos amarelos. Os dubladores sustentam o peso da comédia verbal em cada cena. Quando o monstro hesita antes de um grito, a indignação é audível, e isso faz toda a diferença no impacto do riso na poltrona.
A energia desses atores traduz a exaustão de quem perdeu o controle do próprio castelo. Não há preguiça na interpretação, apenas serviço impecável ao que a história precisa entregar para divertir o público. É um trabalho que, mesmo no meio do barulho, sustenta o filme nos momentos mais histriônicos. Se a gente sai da sala sorrindo de orelha a orelha, boa parte da honra pertence a eles.
O choque de frente entre o monstro e a banana
Em Minions & Monstros”, Coffin entrega o banquete visual mais rico do estúdio em anos, embrulhando uma comédia de erros dentro de um design de produção que enche os olhos. A fotografia trabalha o contraste violento entre a estética de filme noir — cheia de sombras duras e fumaça — e a paleta supersaturada e amarela que consagrou a Illumination. O ponto alto são os planos das masmorras sendo iluminadas unicamente pelo brilho dos gadgets tecnológicos desastrados. É uma imagem hilária e primorosa, que aponta o holofote para o absurdo da situação sem precisar de texto.
O design dos ambientes é grandioso e desenhado para apequenar os Minions, com cada coluna de pedra ampliando a sensação de que eles estão pisando em solo sagrado. A própria animação encontrou um equilíbrio excelente: mantendo as reações emborrachadas das pílulas amarelas junto aos movimentos mais pesados, teatrais e clássicos das feras. A textura dos tecidos puídos e da pedra úmida está esfregada na nossa cara o tempo todo. Tudo conspira para lembrar a colisão maravilhosa de duas eras do cinema.

A iluminação ainda se dá ao luxo de brincar com o expressionismo alemão, criando uma ilusão de perigo que logo é quebrada pela mais pura palhaçada. Não é firula técnica despropositada, e sim escolha narrativa usar a luz para preparar o palco de uma piada no tempo certo. Cada detalhe do quadro empurra o espectador para a imersão no riso. A beleza da imagem trabalha a serviço da diversão o tempo inteiro.
O grande mérito da montagem é saber exatamente a hora de calar a boca de suas criaturas para armar a piada. O filme sabota brilhantemente a atmosfera gótica ao criar falsos momentos de gravidade, que são prontamente implodidos pela estupidez amarela. Esse compasso de espera, onde a escuridão ameaçadora é atropelada sem cerimônia por uma bobagem colorida, escancara o domínio absoluto do estúdio sobre o tempo do humor pastelão.
Há um plano específico que sintetiza a coragem visual do longa, na silhueta clássica do Nosferatu subindo a escada, interrompida por uma sombra gordinha e de óculos oferecendo uma banana. Ele arranca gargalhadas justamente por brincar com a linguagem imagética estabelecida. A estrutura de montagem acerta em cheio nessa cadência de contraste, revelando de onde vem a força cômica da obra. Sem a menor pretensão de exigir um lugar no panteão da sétima arte, o filme triunfa pela audácia de pichar o mural sagrado do expressionismo com uma lata de tinta amarela e, num golpe de mestre, nos fazer aplaudir o vandalismo com gosto.
Fechamento
Quando os letreiros sobem, a sensação é de ter ganhado um alívio disfarçado de filme pipoca. O estúdio transformou um licenciamento improvável numa surpresa genuína que estilhaça nossa expectativa cínica, e recusa de cara a missão de entregar apenas mais do mesmo. Em vez disso, resgata o que a comédia de animação faz de melhor: deixar a audiência esquecer dos problemas de fora da sala com uma honestidade festiva brutal. É um filme que arranca o espectador do ceticismo e o obriga a se render à brincadeira na tela sem depender de “Meu Malvado Favorito” e de maneira orgânica, rende uma homenagem belíssima ao cinema mundial.
Nem tudo é perfeito, é justo dizer. A subtrama da Criatura da Lagoa Negra acaba ficando perdida, demorando a entrar no fio principal e às vezes parece sobrar no roteiro. E a estrutura de correrias pelos corredores cai algumas vezes na repetição que virou padrão do gênero. Mesmo assim, esses pequenos deslizes soam minúsculos diante do charme inegável que sustenta o conjunto de uma obra que eu duvido muito que você poderia esperar tanto.

Encarar o cruzamento dessas franquias sem suavizar o contraste irônico é o maior atestado de sagacidade que a Universal podia dar a esta altura. O cinema de entretenimento comercial deveria ser exatamente esse lugar onde conceitos absurdos são desenhados sem medo do ridículo. Apostar na galhofa consciente vale muito mais que entregar um produto asséptico e sem alma. O humor pulsa forte num texto avesso à seriedade excessiva.
No fim, a audácia da obra sacia uma fome de riso leve que muitos já davam por extinta na franquia, forçando o espectador a gargalhar e aplaudir a engenhosidade de certas sacadas visuais sem peso na consciência. O ceticismo com que entrei na sala de cinema foi desintegrado ao longo de noventa e poucos minutos, dando lugar à certeza absoluta de que o cinema não precisa ser hermético para ter imenso valor. O orçamento milionário do estúdio, perfeitamente alinhado a uma direção despretensiosa, provou ser capaz de superar qualquer ranço adulto.
A inevitável verdade é que a névoa dos velhos estúdios já se dissipou, mas a malícia de transformar o panteão do medo num grande circo é o que garante a imortalidade desses ícones. O choque entre a solenidade do terror e o absurdo colorido consagra ‘Minions & Monstros’ como a animação de comédia, mais redonda da temporada familiar. Com reverência de cinéfilo e uma dublagem nacional caprichada, a obra prova que até a premissa mais mercadológica pode render ouro. O estúdio não precisou fincar uma estaca de madeira no peito dos clássicos, ele apenas puxou a velha cortina de veludo e os forçou a entrar na dança, decretando que a melhor maneira de homenagear um monstro hoje é não ter o menor medo de rir da cara dele.
FICHA TÉCNICA
Título: Minions & Monstros (2026)
Gênero: Animação, Comédia, Aventura
Direção: Pierre Coffin
Roteiro: Brian Lynch
Elenco (Vozes Nacionais): Guilherme Briggs e elenco
Produção: Chris Meledandri, Janet Healy
Distribuição: Universal Pictures / Illumination
Duração: 92 min
🎧 A discussão continua no CineABC Metrópole
Quer mergulhar ainda mais fundo nas entrelinhas de Minions & Monstros? O debate não termina quando sobem os letreiros.
No episódio desta semana do podcast CineABC Metrópole, nós destrinchamos a nova obra da Illumination com uma participação mais do que especial: a estreia oficial do aguardado quadro “A Locadora do Josh”. E por aqui também vai rolar conversa e uma análise afiada que complementa perfeitamente a leitura dessa crítica.
Então descanse a mente das preocupações, coloque os fones de ouvido e venha debater com a gente.
Ouça agora o episódio completo no Spotify