Metanol: Visão perdida pode ser irreversível, diz estudo
Entenda os efeitos devastadores da substância no nervo óptico e por que a recuperação é tão rara.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 15/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro Liberdade
A recente onda de casos de intoxicação por metanol em São Paulo, causada pelo consumo de bebidas adulteradas, acendeu um alerta para as graves e, muitas vezes, permanentes sequelas visuais. Pacientes afetados relataram desde uma perda parcial da visão até a cegueira completa, com chances de recuperação consideradas mínimas por especialistas.
O grande perigo reside na forma como o corpo processa a substância. Ao ser metabolizado, o metanol se transforma em formaldeído e ácido fórmico, compostos altamente tóxicos. O ácido fórmico, em particular, ataca o sistema celular, impedindo a correta utilização do oxigênio e causando uma espécie de asfixia nas células.
Segundo Marcus Gaz, cardiologista e gerente médico do Hospital Israelita Albert Einstein, “os nervos, especialmente o nervo óptico, são particularmente vulneráveis a esses efeitos. Consequentemente, essas células podem sofrer danos irreversíveis, resultando em comprometimento visual“.
LEIA MAIS: Saúde adquire antídoto contra intoxicação por metanol
Danos persistentes ao longo dos anos
A comunidade científica tem investigado a fundo a durabilidade das sequelas provocadas pela intoxicação por metanol. Um estudo marcante, que acompanhou 27 sobreviventes de um surto na Estônia por seis anos, concluiu que os danos visuais não apenas persistiram, como se mostraram permanentes, reforçando a gravidade do quadro.
Outra pesquisa relevante analisou o afinamento da retina em 83 indivíduos, dos quais 42 tinham histórico de ingestão da substância. Os resultados indicaram que os efeitos neurológicos da intoxicação por metanol continuam a degradar a retina por anos, podendo agravar a perda visual com o tempo.
Flavio Mac Cord, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), valida a seriedade dessas descobertas. Ele afirma que “os achados corroboram que os danos causados pelo metanol frequentemente se mostram estruturais e irreversíveis”.

A corrida contra o tempo para evitar a cegueira
A prevenção das complicações visuais é uma verdadeira corrida contra o relógio. O tratamento imediato com etanol farmacêutico ou fomepizol é a única forma eficaz de bloquear a conversão do metanol em ácido fórmico. A agilidade é o fator decisivo para o sucesso.
Fábio Ejzenbaum, chefe do Departamento de Neuroftalmologia da Santa Casa de São Paulo, é enfático: “é crucial remover o metanol do organismo o mais rápido possível”. Somente assim é possível minimizar os danos ao nervo óptico, que, uma vez lesionado, tem uma capacidade de regeneração extremamente baixa.
O oftalmologista Emerson Castro, do Hospital Sírio-Libanês, traça um paralelo direto para explicar a dificuldade da recuperação após a intoxicação por metanol: “É comparável a uma lesão cerebral; recuperar-se é extremamente difícil“. Fatores como a quantidade ingerida e a rapidez no atendimento médico determinam as chances, ainda que raras, de uma possível reversão.
Tratamentos experimentais para as sequelas
Apesar do cenário desafiador, pesquisadores buscam alternativas para tratar as sequelas da intoxicação por metanol. Castro menciona o uso de corticoides intravenosos na fase aguda para reduzir a inflamação, embora seus benefícios a longo prazo ainda sejam incertos.
Outras abordagens, como o uso de antioxidantes e vitaminas do complexo B, são consideradas para auxiliar na função celular, mas carecem de comprovação científica robusta que valide sua eficácia. A prevenção e a conscientização sobre os riscos do consumo de bebidas de procedência duvidosa continuam sendo a melhor defesa contra a intoxicação por metanol.