Metanol: Governo intensifica ações contra bebidas adulteradas
Após 30 dias de casos de intoxicação por metanol, ações governamentais intensificam combate a bebidas adulteradas, com 58 intoxicações e 15 mortes confirmadas
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 28/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
Trinta dias após a divulgação dos primeiros nove casos suspeitos de intoxicação por metanol em bebidas, ocorrida em 26 de setembro, diversas iniciativas foram implementadas pelos órgãos governamentais. A agilidade nas testagens aumentou significativamente, permitindo a confirmação ou descarte de casos suspeitos em um ritmo acelerado.
Hospitais centrais foram organizados, mesmo em áreas que não apresentavam contaminação confirmada, como nos estados das regiões Norte e Centro-Oeste. Os Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), que compõem a primeira rede de alerta, lideraram os esforços de detecção, enquanto as vigilâncias sanitárias e as polícias intensificaram suas atuações nos pontos de venda e consumo.
Ainda que não tenha sido possível evitar todos os novos casos, foi identificada uma provável origem para o problema: a falsificação de bebidas. O uso de álcool combustível adulterado, que continha metanol, foi apontado como uma das causas principais da contaminação.
Após o alerta inicial emitido pelo Ciatox de Campinas (SP) e a divulgação pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, vinte dias se passaram até que fossem descobertos os postos no ABC paulista responsáveis pela venda do combustível adulterado. Este intervalo foi suficiente para que 58 casos de intoxicação fossem registrados, resultando em 15 mortes, com a maioria das vítimas localizadas no estado de São Paulo.

Ainda não há confirmação sobre a relação dos casos em outros estados, especialmente no Paraná e Pernambuco, com produtos falsificados oriundos da região metropolitana de São Paulo.
No mesmo dia em que o primeiro alerta foi emitido, o Ciatox já associava os casos à ingestão de bebidas alcoólicas adulteradas, englobando mais de um tipo de destilado. Os casos foram considerados atípicos tanto pelo curto espaço de tempo quanto pela divergência em relação às notificações anteriores sobre intoxicação por metanol.
Apesar do alerta inicial, o consumo das bebidas não apresentou queda imediata. A situação ganhou destaque na mídia na semana seguinte, quando as vigilâncias sanitárias estaduais, Procons e polícias começaram a intensificar suas atividades.
Em 7 de outubro, o governo federal formou um comitê para abordar o problema e anunciou a segunda remessa de etanol farmacêutico destinada aos hospitais centrais. Também foi adquirida outra medicação antídoto, o fomepizol, visando reverter o aumento dos casos e permitir respostas rápidas das equipes de emergência.
No dia seguinte, 8 de outubro, o Instituto de Criminalística da Polícia Científica de São Paulo confirmou que o metanol encontrado nas garrafas analisadas foi adicionado intencionalmente devido à sua concentração anormalmente elevada. Em 9 de outubro, a Polícia Técnico-Científica iniciou um novo protocolo para identificar bebidas adulteradas, encurtando o tempo necessário para análise enquanto as equipes fiscalizadoras continuavam apreendendo vasilhames.
O estado conta com dois centros especializados: o Ciatox em Campinas e o Laboratório de Toxicologia Analítica Forense (Latof) da Universidade de São Paulo (USP), localizado em Ribeirão Preto.
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A colaboração entre as instituições possibilitou respostas mais ágeis dos laboratórios estaduais e minimizou os impactos no comércio, que registrou uma redução estimada em até 5% no consumo apenas em setembro, conforme informações da Abrasel, associação representativa do setor gastronômico.
Vinte e um dias após o primeiro alerta, em 17 de outubro, uma operação da Polícia Civil paulista localizou os dois postos responsáveis pela distribuição do combustível contaminado. Essa investigação acompanhou um caso grave envolvendo um homem internado após consumir a bebida adulterada no bairro da Saúde, zona sul da capital paulista. Anteriormente, os policiais haviam identificado uma distribuidora onde as bebidas falsas eram envasadas.
“O primeiro ciclo foi encerrado. Continuaremos as diligências para rastrear todas as bebidas adulteradas no estado“, declarou Artur Dian, delegado-geral da Polícia Civil.
As investigações permanecem ativas. Universidades também contribuíram com soluções inovadoras; por exemplo, pesquisadores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolveram um “nariz eletrônico” capaz de detectar a presença de metanol em bebidas alcoólicas com apenas uma gota para identificar odores anômalos.
“O nariz eletrônico converte aromas em dados que alimentam inteligência artificial capacitada para reconhecer assinaturas olfativas específicas“, explicou Leandro Almeida, professor do Centro de Informática.
Casos de intoxicação por Metanol
No boletim mais recente divulgado na sexta-feira (24), foram confirmados 58 casos e 50 estavam sob investigação. Até então haviam sido descartadas 635 notificações. O número total de óbitos chegou a 15: nove ocorrências registradas em São Paulo e seis em Pernambuco; além disso, mais nove mortes seguem sob investigação nos estados do Paraná (quatro), Minas Gerais (um), Mato Grosso do Sul (um) e São Paulo (um). Trinta e duas notificações sobre óbitos já foram descartadas.

A situação também tem provocado ações no âmbito legislativo. Na capital paulista, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) iniciará suas atividades amanhã para ouvir autoridades estaduais sobre os esforços para combater a falsificação de bebidas. Na Câmara dos Deputados, está prevista para votação esta semana o Projeto de Lei 2307/07, que propõe classificar a adulteração de alimentos e bebidas como crime hediondo.