Memorial da Resistência de São Paulo celebra 16 anos
Arte e memória se unem em homenagem aos perseguidos políticos da ditadura no Brasil.
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 25/01/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
Nesta sexta-feira, 24, o Memorial da Resistência de São Paulo celebrou seu 16º aniversário, destacando-se como a única instituição no Brasil dedicada a preservar a memória dos atos de resistência contra a repressão. Localizado no histórico edifício que abrigou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops/SP) por quase quarenta anos, o memorial preparou um mural provocador para estimular reflexões sobre temas ainda pertinentes na sociedade atual.
Intitulada “Este capítulo não foi Concluído (2024)“, a obra do artista Rafael Pagatini será exposta no mural externo do museu. A instalação homenageia os perseguidos políticos durante a ditadura civil-militar que se instaurou em 1964, após o golpe que destituiu o presidente João Goulart. O painel, medindo 14,2m por 4,5m, é composto por 72 páginas extraídas dos processos do Superior Tribunal Militar (STM), que documentam as violências cometidas contra esses indivíduos em retaliação às suas oposições.
Pagatini optou por representar as vítimas da ditadura com cópias de documentos que incluem itens pessoais como roupas e acessórios. As páginas foram coletadas do projeto “Brasil: Nunca Mais“, uma iniciativa que envolveu militantes e membros das igrejas católica e presbiteriana, resultando na preservação de mais de um milhão de documentos provenientes de 707 processos do STM entre 1979 e 1985.
A obra também provoca uma análise comparativa com o romance “O Processo“, escrito por Franz Kafka em 1914. A narrativa kafkiana aborda a angústia do protagonista, Josef K., que enfrenta um julgamento sem saber exatamente quais são as acusações contra ele. Essa incerteza sobre o desfecho do processo ecoa experiências vividas durante regimes autoritários, como o brasileiro.
A instalação faz parte da exposição temporária intitulada “Uma Vertigem Visionária – Brasil: Nunca Mais“, com curadoria de Diego Matos, ocupando uma área de 400 m². Uma das seções da mostra oferece aos visitantes a oportunidade de apreciar obras criadas por ex-presos políticos, como Artur Scavone, Ângela Rocha e Rita Sipahi, durante suas detenções nos anos de repressão.
A diretora do Memorial da Resistência, Ana Mattos Pato, ressalta a importância dos documentos utilizados na exposição. Segundo ela, esses materiais foram elaborados pelos próprios agentes da repressão e têm um valor irrefutável. Ela compara essa situação com a da Argentina, que também está sendo abordada em outra exposição no museu.
A diretora nota que muitos visitantes chegam ao memorial sem conhecimento prévio sobre o projeto “Brasil: Nunca Mais“. Muitos reconhecem apenas superficialmente sua existência até se depararem com as informações detalhadas apresentadas na exposição. Ana destaca a surpresa e o impacto emocional que essa revelação provoca nas pessoas, que frequentemente relatam ter visto referências ao projeto em casa sem compreender totalmente sua importância histórica.
Além disso, Ana enfatiza a necessidade urgente de contar essas histórias através de documentários ou estudos mais aprofundados. Para ela, trata-se não apenas de coragem individual, mas também da criação de um relato coletivo sobre a brutalidade do Estado durante a ditadura.
Uma das missões centrais do memorial é coletar depoimentos de pessoas que viveram durante esse período sombrio da história brasileira. A nova exposição intensifica essa coleta, permitindo que muitos desses relatos sejam compartilhados publicamente pela primeira vez.
A diretora reflete sobre o silêncio prolongado que cercou esses testemunhos ao longo dos anos. Segundo ela, isso se deve tanto a um pacto social formado para proteger os envolvidos quanto ao medo persistente entre os ex-militantes e suas famílias. O receio da vigilância continuou mesmo após a redemocratização.
A exposição “Uma Vertigem Visionária – Brasil: Nunca Mais” ficará aberta até 27 de julho no Memorial da Resistência em São Paulo. A entrada é gratuita e o espaço está disponível para visitação diariamente, exceto às terças-feiras, das 10h às 18h.