Megaoperação no Rio de Janeiro deixa 64 mortos
Rio de Janeiro se torna palco da maior operação de segurança pública, com 64 vítimas e 81 prisões; chefes do tráfico do Comando Vermelho são alvo da ofensiva que mobilizou 2,5 mil agentes.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 28/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O Rio de Janeiro vivenciou, nesta terça-feira (28/10), o dia mais violento de sua história recente em termos de confrontos policiais. Uma megaoperação de segurança, deflagrada nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, resultou na morte de 64 pessoas, sendo 60 suspeitos e quatro agentes de segurança, e se consolidou como a ação policial mais letal já registrada no estado. A ofensiva, que mobilizou mais de 2,5 mil policiais, tinha como principal objetivo desarticular o projeto de expansão territorial do Comando Vermelho (CV).
Com um aparato de 2,5 mil agentes das Polícias Civil e Militar, a chamada Operação Contenção visava cumprir dezenas de mandados de prisão contra membros da facção. O ataque da polícia encontrou uma resposta organizada e violenta por parte do tráfico: barricadas, intensas trocas de tiros, uso de drones carregados com bombas e um arsenal de guerra. Até o balanço mais recente, as forças de segurança haviam apreendido pelo menos 75 fuzis, além de confirmar 81 prisões.
O luto na polícia do Rio de Janeiro e a perda de ‘Máskara’ e Cabral
A contagem de vítimas incluiu quatro agentes de segurança pública no Rio de Janeiro. Entre os policiais civis que perderam a vida, estavam Marcos Vinicius Cardoso Carvalho, de 51 anos, carinhosamente conhecido como “Máskara”, que chefiava a 53ª Delegacia de Polícia (Mesquita). Máskara estava entre os 2,5 mil mobilizados na megaoperação. A segunda baixa na Polícia Civil foi Rodrigo Velloso Cabral, de 34 anos, lotado na 39ª DP (Pavuna). Dois policiais militares, pertencentes ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), também foram mortos no confronto.
Os ataques dos criminosos ao Bope foram notadamente estratégicos. Autoridades confirmaram que, em um ato de retaliação e tática de guerra, traficantes do CV lançaram bombas acopladas a drones contra os policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a tropa de elite da Polícia Civil.
O impasse político no Rio de Janeiro e a falta de apoio federal

Durante uma coletiva de imprensa realizada no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), o governador Cláudio Castro (PL) não hesitou em abordar a questão da falta de apoio federal para a operação. O governador afirmou que o estado não chegou a solicitar suporte para a ação, devido a três pedidos anteriores para o uso de blindados terem sido negados.
“Tivemos pedidos negados três vezes. Para emprestar o blindado, tinha que ter GLO (Garantia da Lei e da Ordem), e o presidente (Lula) é contra a GLO. Cada dia é uma razão para não colaborar”, desabafou Castro. Ele completou criticando a ausência de uma integração mais ampla: “O estado está fazendo a sua parte, sim, mas, quando se fala em exceder — exceder inclusive as nossas competências — , já era para haver um trabalho de integração muito maior com as forças federais, o que, neste momento, não está acontecendo.”
Lideranças do Comando Vermelho no Rio de Janeiro e o objetivo da Operação Contenção
A Operação Contenção, liderada pela Polícia Civil com apoio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ) e do Bope (PMERJ), foi deflagrada para cumprir 51 mandados de prisão. O foco da ação era o Complexo da Penha, considerado pelo Ministério Público (MPRJ) uma das principais bases do projeto expansionista da facção criminosa no Rio de Janeiro. Sua localização estratégica, próxima a vias expressas, facilita o escoamento de drogas e armamentos, permitindo ao CV avançar para regiões como Jacarepaguá.
A importância do objetivo foi sublinhada com a prisão de uma importante liderança enquanto a coletiva de imprensa estava em curso: Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quintungo”, foi detido na ação. Ele é apontado como braço direito de Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, considerado uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Complexo da Penha e em comunidades da Zona Oeste, como Gardênia Azul e Juramento.
O Ministério Público (MPRJ) denunciou 67 pessoas por associação para o tráfico. Segundo a denúncia, Doca, ao lado de Pedro Paulo Guedes (“Pedro Bala”), Carlos Costa Neves (“Gadernal”) e Washington Cesar Braga da Silva (“Grandão”), emite ordens para a comercialização de drogas, define escalas nas bocas de fumo e monitoramento, e determina a execução de rivais. Além dos líderes, a ação penal mirou 15 gerentes do tráfico, responsáveis pela contabilidade e abastecimento, e os “soldados”, que atuam na segurança armada no Rio de Janeiro. A repressão ao tráfico continua sendo uma prioridade no Rio de Janeiro.
Alerj se pronuncia sobre a megaoperação no Rio de Janeiro

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) protocolou ofícios urgentes junto ao Ministério Público (MP) e às Polícias Civil e Militar, cobrando explicações detalhadas e imediatas sobre as circunstâncias da “Operação Contenção”. Deflagrada no início da manhã da última terça-feira, 28 de outubro de 2025, a megaoperação se tornou a mais letal da história do estado, reacendendo o debate sobre a política de segurança pública e o papel das forças de segurança em áreas de vulnerabilidade.
A presidente da comissão, a deputada estadual Dani Monteiro (PSOL), utilizou termos incisivos para descrever o cenário nas comunidades, afirmando que a ação transformou as favelas do Rio “em cenário de guerra e barbárie”. A parlamentar destaca que o Poder Legislativo fluminense acompanha “com extrema preocupação” a escalada de violência que marcou a intervenção policial, que resultou em 64 mortes — incluindo quatro agentes de segurança — e deixou diversos outros policiais baleados.
Dani Monteiro: “Nenhuma política de segurança pode se sustentar sobre esse banho de sangue”
Em nota oficial divulgada à imprensa, a deputada Dani Monteiro reiterou sua posição crítica à letalidade da ação, sublinhando que “nenhuma política de segurança pode se sustentar sobre esse banho de sangue”. A declaração coloca em xeque o modelo operacional adotado pelas forças estaduais e a insistência em megaoperações que resultam em altíssimo número de óbitos.
“Estamos diante de uma operação letal jamais vista. O Estado não pode continuar agindo como se houvesse pena de morte, nem permitir que as favelas sejam território inimigo ou palco de espetáculo”, afirmou a presidente da comissão.
O número de vítimas no eleva o patamar de letalidade policial no estado, superando as marcas históricas recentes. A alta cifra de óbitos na Operação Contenção exige não apenas investigações internas, mas um profundo questionamento sobre os protocolos de atuação e o planejamento estratégico por trás da ofensiva.
Disputa Política e a Operação Contenção no Rio de Janeiro
Outro ponto levantado pela Alerj e que exige esclarecimentos é a aparente falta de coordenação ou a disputa política entre as esferas de governo. A parlamentar criticou duramente a postura do governador Cláudio Castro (PL), alegando que ele “insiste em atuar isoladamente”.
Essa afirmação ganha relevância no contexto de que o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em nota posterior à declaração do governador, defendeu-se, afirmando ter atendido prontamente a todos os pedidos do governo do estado para o emprego da Força Nacional e outras formas de cooperação. A divergência de versões entre o governo estadual e o federal sobre a colaboração mútua mostra que a crise de segurança pública no Rio de Janeiro está profundamente inserida em um ambiente de disputas políticas.
A deputada Dani Monteiro insistiu que o estado necessita urgentemente de cooperação entre as esferas de governo, e não de “disputas políticas” em um momento de tragédia social. Ela concluiu seu posicionamento com uma máxima que resume a visão da comissão: “Segurança pública se faz com planejamento, inteligência e respeito à vida, não espetacularização de chacinas”.
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj reafirmou, por fim, seu compromisso intransigente com a vida e com os direitos humanos, exigindo transparência, responsabilização e investigação rigorosa de todos os fatos que culminaram na Operação Contenção, a mais sangrenta da história recente do Rio de Janeiro. A pressão por respostas se intensifica à medida que a sociedade cobra medidas que efetivamente reduzam a violência sem violar direitos fundamentais.