Mais uma pessoa morre em novo tiroteio na favela da Rocinha

De acordo com a PM, um traficante armado morreu em confronto com policiais; no sábado, oito já tinham morrido no local. Intervenção não muda clima de insegurança

Crédito: PMERJ

Uma pessoa foi morta a tiros na Favela da Rocinha, zona sul do Rio, na manhã desta segunda-feira, 26. De acordo com informações da Polícia Militar, era um traficante armado que estava em confronto com policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Um fuzil que estaria com ele foi apreendido. A favela vive dias violentos. No sábado, oito pessoas morreram em tiroteios. Três dias antes, um PM e um morador também haviam sido vitimados.

Desde a quinta-feira, 22, as crianças estão sem aulas, por conta das trocas de tiros sucessivas. “A situação está muito tensa. Todo mundo preso dentro de casa. Muito tiro, muito. Ninguém pode sair para canto nenhum. Nem sair para trabalhar dá. Tem patrão que entende, mas não é todo mundo. Tem muita polícia na rua, mas isso não garante nada”, disse uma moradora ao Estado no sábado.

Na Favela Bateau Mouche, na região da Praça Seca, zona oeste do Rio, moradores acordaram assustados com intenso tiroteio. O helicóptero da TV Globo flagrou a ação de homens armados de fuzis e pistolas disparando contra outro grupo. As imagens mostram pelo menos quatro carros dos bandidos, de onde saíram homens com mais armas. O Bope também está na comunidade, que é alvo de disputa entre traficantes de drogas e um grupo de paramilitares.

INTERVENÇÃO NÃO MUDA CLIMA DE INSEGURANÇA
Em vigor há pouco mais de um mês, a intervenção federal na segurança do Rio, cujo objetivo oficial é reverter “o comprometimento da ordem pública no Estado”, não mudou o sentimento de insegurança na população. A rotina de tiroteios e mortes se manteve em algumas regiões cariocas, principalmente nas zonas norte e oeste.

Isso é o que mostra levantamento feito a pedido do jornal O Estado de S. Paulo pelo aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT). O Instituto de Segurança Pública do Rio, órgão oficial, ainda não divulgou dados.

Na zona oeste, entre as favelas com mais tiroteios nos 27 primeiros dias da intervenção, estão Cidade de Deus (20) e Vila Kennedy (19), considerada pelos militares um “laboratório” para ações futuras. Na zona norte, um exemplo é o Complexo do Alemão (10), onde morreu há dez dias o bebê Benjamin por bala perdida. No mesmo dia, mais dois moradores também.

A criança, de um ano e sete meses, foi atingida na cabeça enquanto a mãe comprava algodão-doce. “A intervenção não está funcionando. Essa estratégia precisa ser revista”, reclama o pai Fábio Antônio da Silva, de 38 anos. “Não adianta a polícia entrar na favela e trocar tiros com os vagabundos. Quem paga é o inocente. É preciso ter uma outra forma que não deixe a população no meio dos tiros.”

O caso de mais repercussão foi o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. A violência ainda voltou a locais que tiveram dias mais calmos, como a Rocinha, zona sul. Na quarta-feira, morreram um PM e um morador, durante troca de tiros.

Anteontem, operação policial na favela acabou com oito mortos. Em Maricá, Grande Rio, cinco jovens foram assassinados nesse fim de semana.

Segundo o aplicativo mais usado, o OTT, nos primeiros 27 dias da ação federal, foram registrados 354 tiroteios. Nos 27 dias anteriores, foram 404 ocorrências (redução de 12,4%).

Já outro app, o Fogo Cruzado registrou 672 disparos nos 27 dias depois da intervenção, ante 620 no período anterior (alta de 8 3%). Na mesma comparação pelo app, o total de mortos foi de 114 para 149 (30,7% mais).

O Gabinete da Intervenção diz que muitas ações estão sendo postas em prática e que os primeiros resultados devem ser sentidos nos próximos meses.

CRÍTICAS
Para especialistas ouvidos pela reportagem, frequentes mudanças de rota da ação federal indicam falta de planejamento. Foi cogitado, por exemplo, o uso de mandados coletivos em favelas e fichamento de moradores – abandonado após críticas. Na última semana, foi iniciada nova fase da intervenção, com ações em rodovias federais e em Angra dos Reis. Já a Vila Kennedy será desocupada pelas tropas em até três semanas.

“É atropelo em cima de atropelo”, critica o antropólogo e coronel da reserva da PM Robson Rodrigues, ex-coordenador geral das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). “E o R$ 1 bilhão (prometido pelo governo federal), sem estratégia, não adianta nada.” Outras operações com militares, segundo ele, não tiveram efeito significativo.

Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Candido Mendes, crê que ainda haverá uma sensação de “alívio” momentâneo. “Existia um problema de vácuo de comando. Isso pode melhorar, mas mesmo uma pequena melhora não é sustentável. Estamos dando um passo para o abismo.”(Colaborou Roberta Jansen)

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 26/03/2018
  • Fonte: FERVER