ABCdoABC e mais de 60 portais se posicionam contra propaganda de bets
Portal apoia iniciativa contra propaganda em bets lançada na última terça-feira (21), que conta com adesões de veículos de todo o Brasil
- Publicado: 23/07/2026 17:28
- Alterado: 23/07/2026 17:34
- Autor: Thiago Quirino
- Fonte: Agência Pública
Lançado na última terça-feira, 21 de julho, um editorial que refuta propaganda de bets em veículos de jornalismo profissional segue conseguindo adesões de sites de todo o Brasil. Desde o lançamento, assinado por 15 veículos premiados, outras marcas do jornalismo aderiram à iniciativa, incluindo o portal ABCdoABC.
No total, 60 sites, de notícias nacionais a sites locais, de sites investigativos a sites que cobrem start-ups, TI e o mercado financeiro, assinaram o editorial conjunto e o publicaram nos seus sites e redes sociais.
Ação visa debater epidemia provocada pelas bets

A iniciativa é inédita na imprensa brasileira e busca levantar um debate sobre o posicionamento do jornalismo profissional diante de uma epidemia de ludopatia que tem acossado a sociedade. A onipresença de anúncios de bets em veículos de notícias é prejudicial ao próprio jornalismo, afirma o editorial.
“Repudiamos publicamente essa influência, sobretudo sobre o jornalismo, que deve ser, antes de tudo, comprometido com o interesse público. Nosso papel é o da defesa da sociedade e, portanto, o de investigar, denunciar com independência o poder indevido do setor e exigir das autoridades regras mais estritas às propagandas e à atuação das bets”, diz o texto.
O que dizem alguns dos veículos
Alguns fundadores de veículos afirmam que a iniciativa veio em boa hora.
Alex Faria, publisher e fundador do portal ABCdoABC destaca: “Dentre tantos males que há no mundo, o vício em bets é um dos que mais afetam a saúde mental e financeira das pessoas, especialmente daqueles que já vivem em condições desfavorecidas, por isso apoiamos a iniciativa“.
“Esperamos contribuir para a conscientização em nossa sociedade de que a publicidade de bets deveria ser proibida ou severamente limitada, tal como acontece com outros produtos extremamente prejudiciais à saúde, como bebidas alcóolicas e cigarros”, diz Fernando Paiva, diretor geral do Mobile Time.
Segundo Pedro Dória, fundador do Canal Meio, uma pesquisa Meio/Ideia detectou que 44% dos brasileiros querem que as bets sejam proibidas de operar, e quase 60% as culpa pelo endividamento da população. “Não é uma decisão fácil para nós. Este 2026 tem sido um ano muito difícil para a imprensa. O dinheiro tá curto para todo mundo. Mas sentimos que não dá pra ser diferente”, diz.
Ralphe Manzoni, sócio do site Neofeed, diz que o NeoFeed sempre teve como política não aceitar publicidade de bets. “Quando fomos convidados para participar da iniciativa, foi fácil aceitar. Assim, deixamos clara a nossa posição. A expansão das apostas online exige transparência, debate público e regulação séria. Não estímulo comercial. Nosso compromisso é com informação de qualidade, não com a promoção de práticas que podem gerar dependência, endividamento e impactos sociais relevantes”.
Para Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública, a resposta ao chamado tem sido surpreendente. “Esta já é uma mobilização histórica. Em um dia, chegamos a 60 assinantes, e seguimos recebendo contatos. Isso significa que tem muitos veículos em todo o Brasil tem lidado com esse dilema, e decidido pela integridade na informação que transmitem ao público. Espero que a discussão chegue aos veículos que cobrem propaganda e marketing, ao CONAR e às autoridades, pois existe um problema que tem que ser encarado de frente”.

Confira o editorial completo a seguir:
EDITORIAL: Aqui não tem propaganda de bets
Quando a saúde, o bem estar e o orçamento das famílias brasileiras estão em risco, é dever do jornalismo profissional se posicionar.
Quando um setor econômico traz mais malefícios do que benefícios à população, é com o jornalismo que a sociedade conta para investigar os atores envolvidos e cobrar providências das autoridades.
É esse o caso das casas de apostas online, ou bets.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo indica que as bets são hoje o principal fator de endividamento dos brasileiros, cinco vezes mais que os cartões de crédito e empréstimos.
Os recursos oriundos do Bolsa Família gastos em bets chegaram a R$ 3 bilhões em agosto de 2024, segundo o Banco Central1. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) aponta que 1,8 milhão de assistidos usaram o cartão do programa Bolsa Família em casas de apostas2.
Dados econômicos apontam para uma epidemia. Segundo o Instituto Locomotiva, um terço dos apostadores já estavam endividados em 20243 e 45% afirmaram que as apostas já causaram prejuízo4, ao mesmo tempo em que os números de afastamentos no INSS por ludopatia – compulsão por jogos – deu um salto estratosférico, de mais de 2000%5.
Liberado em 2018 e apenas regulamentado em 2023, o setor de apostas online reuniu neste ínterim poder econômico e político, arregimentando grande influência no Congresso que impede o avanço de matérias regulatórias.
Em consequência, os lucros deste setor são hoje exorbitantes. E permitem influenciar, através de patrocínios e apoios, variados setores da sociedade, como é o caso dos influenciadores digitais e celebridades do mundo do entretenimento e dos esportes.
As empresas de bet investiram só em 2024, segundo a Kantar Ibope Media, R$ 2,3 bilhões em compra de mídia no Brasil — 58% disso pra TV e 42% pro digital6. Já a receita bruta dessas empresas chegou a R$ 37 bilhões no ano passado7.
Anúncios de bets incentivando apostas estão por todos os lados: em jogos e programas de TV, sites da internet, jornais, revistas, shows, festas populares. Empresas de apostas online batem cotidianamente à porta de empresas jornalísticas e até de organizações sem fins de lucro oferecendo anúncios e parcerias.
Repudiamos publicamente essa influência, sobretudo sobre o jornalismo, que deve ser, antes de tudo, comprometido com o interesse público. Nosso papel é o da defesa da sociedade e, portanto, o de investigar, denunciar com independência o poder indevido do setor e exigir das autoridades regras mais estritas às propagandas e à atuação das bets.
Ao aceitar propagandear os jogos online, consideramos que estaríamos contradizendo informações apuradas com rigor pelas nossas equipes.
A seriedade da atual epidemia que tem vulnerabilizado, sobretudo, os mais pobres, não pode ser relativizada por conta de interesses comerciais, sob pena de minar a credibilidade do jornalismo.
Mais do que isso: entendemos que os veículos de jornalismo precisam se posicionar institucionalmente contra a influência crescente das bets no debate público – seja pelo lobby, seja pela compra de espaços publicitários. Deve, ainda, cobrar das autoridades ações para proteger a população da propaganda e da influência pública das Bets, assim como regular sua atuação e trabalhar para mitigar os danos já causados.
Para combater essa epidemia, os setores público e privado e a sociedade organizada têm de atuar conjuntamente e com a urgência que a questão social exige.
Mais veículos de imprensa são convidados a ingressar no movimento
O chamado segue aberto para outras organizações jornalísticas, desde que não veiculem anúncios de bets. Basta preencher este formulário para receber o texto do editorial.
Veículos que fazem parte desta iniciativa: Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal IMPRENSA e Reset.
Também assinam: #Colabora – Jornalismo Sustentável, 100fronteiras.com, A Seguir Niterói, A Vida no Centro, ABC do ABC, Agência Carta Amazônia, Agência Nossa, Agência Primaz de Comunicação, Agência Tatu, Agora RS, AIoT Brasil, Amazonas Atual, Amazônia Vox, As Cunhãs Podcast, Atual7, Coar Notícias, Conexão Planeta, Desinformante, Eficientes, Eh Fonte, Escotilha, Fast Company Brasil, Finsiders Brasil, Guarulhos Todo Dia, ICL Notícias, Jornal GGN e TV GGN, Jornalistas&Cia, Juicy Santos, Lunetas, MANGUE JORNALISMO, Meus Sertões, MigraMundo, Nonada Jornalismo, Outras Palavras, Periferia em Movimento, Plataforma 12, Plataforma Ocorre Diário, Podcast Ciência Suja, Ponte Jornalismo, Portal Cansei De Ser Pop, Portal Convergência Digital, Portal Neo Mondo, Portal Ùnico, Porto+ Notícias, Porvir, Rádio Escafandro, Revista O Grito!, Revista Piloto Ribeirão, Startups, The AgriBiz, The Conversation Brasil, The Gaming Era e TI Inside.
- Estudo Especial nº 119/2024. Link: https://www.bcb.gov.br/conteudo/relatorioinflacao/EstudosEspeciais/EE119_Analise_tecnica_sobre_o_mercado_de_apostas_online_no_Brasil_e_o_perfil_dos_apostadores.pdf ↩︎
- Bets: Entre 1,8 e 3 milhões apostaram Bolsa Família, e não têm previsão de reaver dinheiro. Link: https://apublica.org/nota/bets-entre-18-e-3-milhoes-apostaram-bolsa-familia-e-nao-tem-previsao-de-reaver-dinheiro/ ↩︎
- Um terço dos apostadores de bets está endividado e com nome sujo, diz pesquisa. Link: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2024/08/um-terco-dos-apostadores-de-bets-estao-endividados-e-com-nome-sujo-diz-pesquisa.shtml ↩︎
- Pesquisa de Opinião, agosto de 2204. Link: https://static.poder360.com.br/2024/08/Locomotiva-pesquisa-apostas-e-saude-mental-ago-2024.pdf ↩︎
- Do Tigrinho ao INSS. LInk: https://www.intercept.com.br/2025/06/25/bets-auxilios-doenca-vicio-em-jogos-brasil/ ↩︎
- Bets já investiram R$ 2,3 bilhões em compra de mídia em 2024. Link: https://www.meioemensagem.com.br/marketing/bets-ja-investiram-r-23-bilhoes-em-compra-de-midia-em-2024 ↩︎
- Bets registram receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025. Link: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/01/21/bets-registram-receita-bruta-de-r-37-bilhoes-em-2025.ghtml ↩︎