Mais de 300 pessoas seguem em abrigos no Rio Grande do Sul

Um ano após a enchente em Canoas, vítimas ainda enfrentam desafios; abrigos oferecem esperança e apoio, mas a luta por moradia persiste

Crédito: Pedro Piegas/PMPA

Um ano após a devastadora enchente que assolou o bairro Rio Branco em Canoas, Almerinda Veiga da Silva, de 57 anos, ainda enfrenta os desafios impostos pela maior catástrofe climática da história do Rio Grande do Sul. Desde que deixou sua residência, a mulher tem vivido em diferentes abrigos, totalizando cinco até o momento.

Forçada a se separar de seu marido, que foi encaminhado a um abrigo masculino, Almerinda permaneceu com sua filha, portadora da Síndrome de Down, em um local dedicado a mães de crianças com necessidades especiais. Apesar de ter recebido acolhimento imediato após o desastre, os meses seguintes revelaram-se extremamente difíceis, culminando em perdas irreparáveis.

Em uma entrevista à reportagem durante uma visita ao Centro Humanitário de Acolhimento (CHA) Esperança, localizado no Centro Olímpico de Canoas, Almerinda compartilhou sua dor: “Recentemente pedi minha filha especial de volta devido ao trauma da enchente. Isso acarretou sérios danos emocionais. Além disso, perdi meu marido; ele ficou muito traumatizado e acabou falecendo no Natal. Não está sendo fácil”, lamentou.

Atualmente, o CHA Esperança é o único abrigo operacional na cidade, abrigando 216 pessoas conforme dados da prefeitura. Este centro foi inaugurado em julho do ano passado através de uma colaboração entre o governo estadual, a Fecomércio-RS e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), entidade intergovernamental que atua no campo da migração.

Além dos serviços básicos de alimentação e saúde, o abrigo oferece assistência social, apoio na busca por emprego e facilitação para inscrição em programas habitacionais e creches. O local também disponibiliza abrigo para animais de estimação dos moradores do centro.

Outro abrigo que ainda opera na região metropolitana é resultado da mesma parceria e está situado em Porto Alegre, onde cerca de 120 pessoas estão hospedadas. Ambos os centros são os maiores entre os nove abrigos restantes no estado e juntos concentram 93% dos atendidos na região. Durante o pico da emergência climática, mais de 80 mil pessoas buscaram refúgio nos abrigos; atualmente esse número é de 383.

Ainda que não haja um levantamento socioeconômico detalhado sobre os abrigados, é evidente que muitos se encontram em condições de vulnerabilidade social acentuada. Claudio Joel Bello, um dos residentes do CHA Esperança, compartilha sua experiência. Aos 43 anos e desempregado, ele foi severamente afetado pelas inundações no bairro Mathias Velho.

Bello teve a oportunidade de participar do programa Compra Assistida do governo federal, que oferece apoio financeiro para aquisição de imóveis. No entanto, expressou frustração com a morosidade do processo: “Se o governo me concedeu uma casa, por que não posso ir para lá imediatamente? Estou há quase um ano em um abrigo”.

Esse programa permite que contemplados recebam até R$ 200 mil para comprarem residências existentes em qualquer cidade do estado. Até agora, foram assinados cerca de 1.500 contratos.

Enquanto isso, Almerinda relatou à equipe jornalística que optou pelo aluguel social após visitar um bairro provisório e considerá-lo inseguro. Contudo, ela se vê sem móveis para habitar o imóvel alugado: “A casa já está alugada e o contrato assinado. Mas como vou morar sem nada?” questiona angustiada.

No abrigo onde reside, Almerinda busca apoio para conseguir doações de eletrodomésticos através de uma parceria da ONU Migrações com empresas privadas. Entretanto, as respostas têm sido escassas: “Só sairei do abrigo quando tiver meus móveis”.

Josebete da Silva, por sua vez, está prestes a deixar o abrigo e se mudar para um contêiner habitacional na Estância Velha com sua esposa e duas filhas. Ele acredita que essa nova moradia será benéfica: “Para mim que pago aluguel será melhor”, afirmou.

A Prefeitura de Canoas anunciou a construção de 58 casas temporárias como parte de um convênio com o governo estadual. As obras devem ser finalizadas até meados de maio deste ano. O custo para cada unidade é estimado em R$ 133 mil e incluirá móveis e eletrodomésticos.

A administração municipal também informou sobre dois empreendimentos habitacionais em desenvolvimento nos bairros Niterói e Fátima, totalizando 400 unidades financiadas pela Caixa Econômica Federal com previsão de conclusão em até 18 meses.

Das três mil unidades habitacionais autorizadas pelo Ministério das Cidades para Canoas, mais de 1.500 foram contratadas especificamente para famílias afetadas pelas enchentes. Existe ainda um plano adicional para autorizar mais três mil novas unidades.

Por fim, a prefeitura destacou outro programa que visa reconstruir até 210 casas com investimento total estimado em R$ 31 milhões provenientes do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 30/04/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo