Maioria em capitais faz bico para renda extra, diz pesquisa

56% dos brasileiros buscam bicos para complementar renda, revela pesquisa sobre desigualdade nas capitais. O que está por trás desse cenário?

Crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil

Uma nova pesquisa realizada em dez capitais brasileiras aponta que 56% dos entrevistados precisam recorrer a atividades complementares para aumentar sua renda. Este estudo, intitulado “Viver nas Cidades: Desigualdades“, foi lançado nesta quinta-feira (28) pelo Instituto Cidades Sustentáveis em colaboração com a Ipsos-Ipec e a Fundação Volkswagen.

Entre as principais atividades citadas pelos participantes estão os serviços gerais, como limpeza, manutenção, reformas e jardinagem, totalizando 17%. Outras formas de complementar a renda incluem a venda de roupas e artigos usados (12%), a produção e comercialização de alimentos caseiros (9%), revenda de cosméticos (8%) e trabalho como motorista ou entregador por aplicativos (7%).

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A pesquisa foi conduzida online com uma amostra de indivíduos com 16 anos ou mais, residentes nas capitais selecionadas há pelo menos dois anos e pertencentes a diversas classes sociais (A, B, C, D e E). A margem de erro é de 2 pontos percentuais no total e varia entre 4 a 6 pontos para resultados específicos por capital.

Os dados mostram que 37% dos participantes não se sentiram obrigados a buscar trabalhos extras nos últimos 12 meses. As entrevistas ocorreram entre 1º e 20 de julho de 2025, e 7% dos entrevistados não souberam informar sobre sua situação.

O estudo revela ainda que aqueles que buscaram formas adicionais de renda estão predominantemente nas classes de menor renda. Por exemplo, 68% dos entrevistados com rendimento familiar abaixo de dois salários mínimos relataram ter feito bicos. Grupos como pessoas com deficiência (68%) e indivíduos das classes D e E (65%) também apresentaram altos índices.

Na análise por raça e religião, notou-se que 63% dos negros e pardos, bem como evangélicos e protestantes, buscaram trabalhos extras, assim como 62% dos entrevistados com ensino médio completo. As capitais com os maiores índices de pessoas que necessitaram complementar suas rendas foram Belém (70%), Manaus (69%) e Fortaleza (65%). Em contraste, Porto Alegre apresentou o menor percentual com apenas 47%, sendo a única capital com menos da metade da população nesta situação; São Paulo registrou 53%.

Estabilidade na Renda: Uma Luz no Cenário Atual

A pesquisa também revelou que 40% dos participantes consideraram sua renda pessoal estável nos últimos doze meses, enquanto 17% indicaram um aumento. Juntas, essas porcentagens somam 57%, refletindo uma certa estabilização econômica. No entanto, Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis, observa que a situação ainda é preocupante: “Embora haja um alívio em relação à estabilidade da renda para quase seis em cada dez brasileiros, muitos ainda enfrentam dificuldades para manter um padrão de vida digno”.

Os dados também indicam uma mudança nos hábitos de consumo: 41% dos entrevistados reduziram o consumo de carnes nos últimos meses devido à pressão inflacionária sobre os preços dos alimentos. Por outro lado, 29% afirmaram ter aumentado a compra de ovos. A inflação alimentar no início de 2025 foi exacerbada por condições climáticas adversas e pela alta do dólar, fatores que contribuíram para a queda na popularidade do presidente Lula durante esse período.

No entanto, o cenário parece ter melhorado no segundo semestre, quando dados do IBGE apontaram uma diminuição na inflação alimentícia devido a melhores safras e um controle mais eficaz das flutuações cambiais.

Adicionalmente, o levantamento abordou as percepções sobre fome e pobreza nas capitais analisadas. Surpreendentemente, dois terços dos entrevistados acreditam que a situação se agravou nos últimos doze meses. Essa percepção contrasta com informações recentes da ONU que afirmam que o Brasil saiu do Mapa da Fome. Abrahão enfatiza que essa percepção negativa se deve à realidade visível nas grandes cidades brasileiras: “É impossível ignorar o problema ao andar pelo centro dessas metrópoles”.

A pesquisa abrangeu as capitais: Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Além disso, aspectos sobre mobilidade social foram investigados entre dezembro de 2024. Os resultados mostraram que sete em cada dez entrevistados (72%) alcançaram um nível educacional superior ao de seus pais; quase metade (47%) melhorou sua condição habitacional em comparação aos pais na mesma idade; e 45% indicaram uma renda atual maior do que a dos pais quando tinham a mesma faixa etária.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 28/08/2025
  • Fonte: Fever