Maio Amarelo? Nada para se comemorar
O movimento que deveria salvar vidas ainda não surtiu o efeito necessário para mudar a realidade do trânsito no Brasil
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 15/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O Maio Amarelo foi criado em 2014, por iniciativa do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), com o objetivo de mobilizar governos, empresas, entidades e cidadãos diante da urgente necessidade de reduzir os índices de mortos e feridos no trânsito.
A escolha do mês de maio não foi aleatória: ele marca o lançamento da Década de Ação pela Segurança no Trânsito (2011–2020), decretada pela Organização das Nações Unidas (ONU), reconhecendo os sinistros de trânsito como uma epidemia silenciosa. Como os objetivos da primeira década não foram atingidos, a meta foi prorrogada para a atual década (2021–2030), que, infelizmente, também está longe de apresentar os resultados esperados.
Por que amarelo?
O amarelo é a cor da atenção e advertência. Nos semáforos, sinaliza o momento de parar, refletir e agir com cuidado. No contexto do movimento, representa o alerta urgente pela mudança de comportamento no trânsito, seja como pedestre, ciclista, motociclista, motorista ou passageiro. Mas será que essa cor ainda tem provocado reflexão?
O que mudou recentemente?
A conectividade constante. Vivemos conectados o tempo todo, bombardeados por informações, notificações, mensagens e conteúdos. Essa hiperconectividade reduz nossa capacidade de atenção, inclusive durante deslocamentos, quando deveríamos estar 100% atentos ao ambiente e às outras pessoas.
O amarelo, que deveria nos lembrar de cuidar do próximo, foi substituído pela ansiedade da próxima notificação digital. E isso tem consequências. Se antes os atropelamentos ocupavam o topo da vulnerabilidade no trânsito, hoje essa triste estatística é liderada por motociclistas, como mostram os dados da cidade de São Paulo.

Figura 1 – Evolução anual de mortes na cidade de São Paulo por modalidade de transporte
Desde 2018, os motociclistas passaram a liderar o número de mortes no trânsito na capital paulista.
Mesmo com a redução no número de acidentes, a letalidade persiste, com vidas interrompidas de forma abrupta, muitas vezes de pessoas que sustentavam suas famílias.
E o poder público?
O papel do poder público no Maio Amarelo não pode se limitar a ações pontuais durante um único mês. Cabe aos governos liderar uma agenda permanente de segurança viária, promovendo políticas públicas consistentes, ações educativas contínuas, fiscalização efetiva e melhoria da infraestrutura urbana.
O movimento deve ser um catalisador para ações estruturantes que tenham como foco a preservação da vida no trânsito, e não apenas uma campanha de comunicação simbólica.
Se não mudarmos, o Maio Amarelo vira só mais um mês no calendário
Maio chegou. As faixas amarelas voltaram às ruas, os monumentos foram iluminados e os slogans de conscientização estão em alguns lugares. Mas é inevitável perguntar: de que serve tudo isso se continuarmos ignorando as regras básicas de convivência no trânsito?

O Maio Amarelo foi criado para salvar vidas, mas perde sua essência se a mudança não vier de cada um de nós. Seguimos acelerando no sinal amarelo, estacionando sobre calçadas, usando o celular ao volante, desrespeitando o pedestre na faixa. E enquanto não reconhecermos que a transformação começa no comportamento individual, nenhuma campanha será suficiente.
É hora de fazer valer o que o movimento representa. Caso contrário, estaremos apenas pintando a cidade de amarelo para depois vê-la manchada de vermelho nos boletins de acidentes e nos prontuários de hospitais. Precisamos de ação. Precisamos de consciência. Precisamos de mudança.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.