Maio Amarelo: o corpo do motociclista não foi feito para absorver impactos

Discussão sobre segurança de motociclistas vai além da imprudência e expõe limites físicos do corpo humano no trânsito

Crédito: (Divulgação)

Em continuidade aos artigos publicados neste mês de Maio Amarelo, vamos abordar os principais pontos de lesão sofridos pelos motociclistas em uma queda e como parte desses danos pode ser mitigada. O Maio Amarelo costuma concentrar campanhas voltadas à conscientização no trânsito, muitas delas centradas exclusivamente no comportamento humano.

Entretanto, quando o assunto é motocicleta, limitar a discussão apenas à imprudência do condutor significa ignorar um aspecto fundamental da segurança viária: a vulnerabilidade do corpo humano diante das leis da física.

Diferentemente do ocupante de um automóvel, o motociclista não possui habitáculo, zonas de deformação programada, airbags estruturais ou barras de proteção. Em uma colisão, é o próprio corpo que absorve diretamente a energia do impacto.

Há décadas existe um programa voltado à redução de mortes no trânsito chamado Visão Zero. Esse conceito, amplamente difundido em diversos países, parte da premissa de que o ser humano é falível e vulnerável. Portanto, o sistema de mobilidade deve ser concebido para evitar mortes e lesões graves, e não apenas acidentes. Isso muda completamente a lógica da discussão sobre motocicletas no Brasil.

Mito dos acidentes de duas rodas

Maio Amarelo - Motociclistas
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Existe um mito bastante difundido de que o principal culpado dos acidentes envolvendo motocicletas é sempre o motociclista. Entretanto, estudos internacionais como o MAIDS (Motorcycle Accidents In-Depth Study) mostram um cenário muito mais complexo.

Em apenas 37,4% dos acidentes analisados, a causa primária foi erro do motociclista, enquanto aproximadamente metade dos casos teve como principal causa o erro do condutor do outro veículo. Mais impactante ainda é o dado de que cerca de 70% dos motoristas envolvidos sequer visualizaram a motocicleta antes da colisão.

O estudo MAIDS aponta ainda que os ferimentos mais graves concentram-se na coluna, no tórax e na cabeça. Isso demonstra que a discussão sobre motocicletas não pode ficar restrita apenas à prevenção do acidente. É preciso discutir também a mitigação da severidade, isto é, como reduzir os danos quando o acidente ocorre.

Capacete rígido, lesões graves

Nesse aspecto, o capacete ganha papel central. E é justamente aqui que existe uma diferença importante entre o que é praticado no Brasil e o padrão europeu. Na Europa, os capacetes seguem normas internacionais extremamente rigorosas, como a UN ECE R22.05 e, principalmente, a nova R22.06, que ampliou significativamente os testes de impacto, rotação e absorção de energia.

Na prática, o capacete precisa absorver parte da energia do impacto por meio da deformação controlada de sua estrutura interna, preservando a integridade da cabeça dentro de determinados limites físicos. Além disso, programas independentes como o SHARP, do Reino Unido, realizam avaliações complementares que classificam os capacetes conforme o nível real de proteção oferecido.

No Brasil, embora exista certificação compulsória do Inmetro, o mercado ainda convive com equipamentos de proteção de baixo desempenho, riscos de falsificações e uso inadequado. O problema se agrava quando observamos a popularização de capacetes abertos ou modelos extremamente simplificados, conhecidos popularmente como “coquinho”, que oferecem proteção significativamente inferior em impactos frontais e laterais. Muitos desses modelos vêm sendo utilizados em veículos autopropelidos e motos elétricas leves, criando uma falsa sensação de segurança.

Já parou para pensar que o mesmo certificado do INMETRO estampado no casco pode estar presentes em capacetes no mercado brasileiro com valores de varejo abaixo de R$100,00 e outros acima de R$10.000,00?

Maio Amarelo - Capacetes - Segurança Viária - Motociclistas
(Reprodução/Internet)

Contraste Brasil x Europa

O contraste entre Brasil e Europa vai além do capacete. Na União Europeia, a segurança do motociclista é tratada de forma sistêmica. Existe exigência de ABS para motocicletas acima de 125 cm³ desde a norma EURO 4, além de exames de habilitação mais rigorosos, certificação de vestuário técnico e fiscalização mais intensa.

Já no Brasil, ainda é comum encontrar motociclistas utilizando apenas o capacete como equipamento de proteção, muitas vezes sem jaquetas apropriadas, proteções de coluna, luvas ou vestuário certificado. Seja pelo clima, pelo custo ou pela falta de informação, a vestimenta de proteção ainda não é encarada como parte cotidiana da condução.

Outro ponto pouco debatido é que o corpo humano possui limites biomecânicos. Não existe treinamento capaz de vencer sozinho a energia cinética de uma colisão. Em velocidades urbanas relativamente comuns, a desaceleração sofrida pelo motociclista pode produzir lesões cervicais, traumatismo craniano, ruptura de órgãos internos e lesões medulares permanentes.

Maio Amarelo: vestimenta adequada salva vidas

Maio Amarelo - Motociclistas
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Por isso, insistir apenas em campanhas educativas sem discutir a qualidade dos equipamentos de proteção acaba sendo uma visão incompleta da segurança viária.

O Maio Amarelo precisa amadurecer essa discussão. Não basta repetir que o motociclista deve “ter cuidado”. É necessário discutir a qualidade dos capacetes vendidos no mercado brasileiro, a evolução das normas técnicas, a fiscalização de equipamentos falsificados, o incentivo ao uso de capacetes fechados e a aproximação dos padrões nacionais dos modelos europeus de proteção.

Afinal, as leis de trânsito podem até ser desrespeitadas, mas as leis da física jamais deixam de atuar.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 08/05/2026 15:07
  • Alterado: 08/05/2026 15:07
  • Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
  • Fonte: ABCdoABC

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