Lula e a arte da negociação tropical
Brasil tenta parecer independente enquanto pede Wi-Fi emprestado das Big Techs
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 16/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Abertura
O Brasil chegou à mesa como quem tenta parecer convidado, mesmo tendo vindo de penetra. É uma tradição nacional: arrumar o terno, disfarçar a dívida e falar em soberania com sotaque de dependência. Em tempos de cabos submarinos e nuvens estrangeiras, a independência virou conceito de marketing — e o presidente Lula, experiente, sabe vendê-la com um sorriso. Enquanto Trump negocia com tarifa e ameaça, o brasileiro responde com abraço e metáfora. Um tenta dominar o mundo pelo dólar, o outro pela conversa fiada. No fim, ambos sabem que o Wi-Fi é o mesmo, e o modem, claro, não é nosso.
Lula no palco oval
Lula entrou na Casa Branca como quem sabe que a história também gosta de um show. Trump, do outro lado, ajeitava o topete e o ego — ambos resistentes a qualquer embargo. A mesa oval era só o cenário de um velho número de ilusionismo, quase um pacto de hipocrisia: o Brasil tenta provar que é soberano, e os Estados Unidos fingem acreditar.
De um lado, o americano que transformou a diplomacia em talk show. Do outro, o brasileiro que fala de geopolítica como quem conta causos no boteco. Um chama de “deal”, o outro de “jeitinho”. No fundo, os dois vendem o mesmo produto: influência — a mais cara das mercadorias do século XXI.
Enquanto isso, Mauro Vieira ajusta o nó da gravata e torce para que o tradutor não confunda “cooperação em terras raras” com “exploração em terras nossas”. Afinal, no dicionário internacional, parceria costuma ser a palavra usada quando o mais forte quer o que o mais fraco ainda não sabe que tem.
O corredor cheira a desinfetante e história recente. Fotógrafos circulam como abelhas em florada rara, e cada flash tenta aprisionar um pedaço de soberania. Lula mede o humor de Trump como quem mede ponto de calda: se açucarar demais, queima; se faltar, amarga. Trump escuta, sorri com os dentes e calcula o desconto possível. Lula lê a sala, distribui afeto e empurra a conversa para um terreno onde a vaidade rende mais que o aço.
Terras raras, promessas comuns
Os americanos querem nossas terras raras, mas o nome já entrega: são raras. E o Brasil, generoso como sempre, oferece. Trump quer os minérios, o etanol, o voto nos Brics e, de quebra, a promessa de que o país vai deixar as Big Techs em paz — afinal, nada mais sagrado que a liberdade de empresa travestida de liberdade de expressão.
Lula sorri. E sorri com método. Ele sabe que Trump precisa de uma vitória simbólica: algo que mostre aos eleitores que ainda domina o mundo, mesmo que seja um acordo com sotaque de churrascaria. O presidente brasileiro oferece o que pode: fala em cooperação, em dólar forte, em desenvolvimento conjunto. Traduzindo: “não queremos briga, só conexão”.
Mas por trás da foto protocolar há o Brasil real, aquele que continua exportando commodities e importando ideias, aplicativos e modelos de negócio — de preferência embalados em inglês e entregues via nuvem americana. É o país que sonha em ser potência digital, mas que ainda pede autorização pra atualizar o próprio sistema.
Cada lista de “ganhos mútuos” vem com rodapé em fonte pequena. O Brasil quer beneficiamento local, cadeia de valor, emprego com qualificação; Washington quer previsibilidade, regra clara e minério fluindo sem travas. No meio do contrato, uma vírgula decide quem manda e quem agradece. E é nessa vírgula, às vezes escondida entre “poderá” e “deverá”, que o país costuma penhorar futuro por preço de ocasião.
As redes e as correntes
Trump vê censura onde há moderação. Moraes vê liberdade onde há algoritmo. E o povo vê lentidão no Wi-Fi. O problema não é filosófico — é prático. As Big Techs são as novas embaixadas: têm bandeiras próprias, moedas virtuais e súditos fiéis. E quando o Brasil tenta regular o poder delas, descobre que o servidor fica em outro país.
Lula negocia com o carisma de quem sabe que não pode prometer muito, mas pode encantar bastante. “Deixa comigo, Donald, a gente resolve isso com um cafezinho”, deve ter dito, oferecendo o que todo brasileiro oferece quando não tem mais o que oferecer: simpatia. Trump, satisfeito, aceitou — não o café, mas a encenação.
Enquanto isso, os técnicos da diplomacia tentam entender o que é “interesse nacional” num país onde o dado do cidadão vale menos que um ingresso pro Rock in Rio. O Brasil discute soberania digital com o mesmo fervor com que atualiza termos de uso: aceitando (com poucas escolhas e) sem ler.
Rumble quer voltar, o X (antigo Twitter) quer liberdade, Meta quer previsibilidade, e o Brasil quer que nada caia do ar na véspera da eleição. Chamam de “equilíbrio institucional”; o usuário chama de “cadê o meu post?”. A política, paciente, chama de terça-feira. Quando dá confusão, chamam comitê; quando dá certo, chamam mercado; quando cai a rede, chamam o estagiário.

O fio invisível
Há uma fibra ótica ligando o Itamaraty a Washington. Invisível, mas tensa. É por ela que passam não só dados, mas também dependências. O Brasil diz querer autonomia tecnológica, mas ainda consulta o Google antes de tomar decisão. As Big Techs são o novo canal diplomático: quem controla a informação, controla o discurso.
Trump sabe disso. E Lula também. O primeiro quer liberdade para suas empresas; o segundo, para seu país. Só que a diferença entre liberdade e licença é um bug que ninguém conseguiu corrigir. No fundo, ambos jogam o mesmo jogo: o da influência mascarada de parceria.
O fio da política é igual ao da internet: se puxar demais, arrebenta; se soltar demais, cai o sinal. O segredo é manter a tensão — elegante, contínua e com o risco constante de pane geral. É aí que Lula se destaca: equilibra diplomacia e improviso como quem troca o roteador enquanto a live ainda está no ar.
No quadro branco da sala contígua, assessores desenham setas: etanol por açúcar, tarifa por sorriso, mineradora por fotografia. A diplomacia é esse PowerPoint infinito em que todo mundo promete upgrade e a tomada continua atrás do móvel. O slide seguinte garante “ganha-ganha”, expressão que todo negociador usa quando alguém terá de engolir o prejuízo com elegância.
Enquanto isso, no Brasil offline
Enquanto Lula negocia terras raras e Trump sonha com dólares eternos, o brasileiro tenta reconectar o Wi-Fi pra assistir ao resumo da novela — de preferência sem travar o app. A cada queda de sinal, uma metáfora: o país quer se conectar com o mundo, mas vive reiniciando o modem.
Na prática, o Brasil continua exportando minério e esperança, importando promessas e tecnologia. O discurso é sobre soberania digital, mas o backup ainda está salvo em nuvem estrangeira. E quando o governo fala em regular as Big Techs, o cidadão pensa que finalmente vão consertar o WhatsApp.
No fim, o teatro dos poderosos segue em cartaz. Trump finge que ganhou, Lula finge que não perdeu, e ambos se despedem sorrindo para as câmeras. A legenda dirá “cooperação histórica”, mas a tradução correta seria “conexão instável”. Porque, enquanto os gigantes decidem o futuro da fibra ótica, o Brasil continua tentando carregar a página.
De madrugada, já sem coletiva e sem flash, alguém no Itamaraty testa a velocidade da rede e suspira. O relatório diz “avanços”. A tela responde “latência”. O país aperta “aceitar todos os cookies” e, como todo bom usuário, reza para que desta vez a senha pegue. Se a reunião render, baixam as tarifas; se empacar, sobem os adjetivos; em qualquer caso, o brasileiro acorda cedo, pega ônibus cheio e paga dados extras para ver o placar.