Lula no ABC: da luta sindical à consagração política

Reportagem traça a trajetória de Lula no ABC paulista, desde o movimento sindical nas fábricas até a reeleição

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Luiz Inácio Lula da Silva completa, neste 27 de outubro, 80 anos. A data reacende a lembrança da trajetória de Lula no ABC, que mistura trabalho, luta e política e que marcou profundamente a história da região.

Nascido em Garanhuns (PE), em 1945, Lula chegou ao litoral paulista em 1952, quando a família viajou 13 dias em um caminhão “pau de arara” em busca de melhores condições de vida.

Depois de passagens por Vicente de Carvalho e pelo bairro do Ipiranga, em São Paulo, o jovem migrante encontraria no ABC o ambiente que moldaria sua trajetória política.

Aos 12 anos, Lula começou a trabalhar em uma tinturaria e, aos 14, teve a primeira carteira de trabalho assinada. O curso de torneiro mecânico no Senai foi o passaporte para o chão de fábrica.

Na década de 1960, já como operário das Indústrias Villares, em São Bernardo do Campo, o jovem metalúrgico se aproximou do movimento sindical, influenciado pelo irmão, o sindicalista Frei Chico.

Primeiros passos no sindicato e o surgimento de uma liderança

Lula e a segunda esposa
Reprodução

Em 1969, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema realizou eleições para uma nova diretoria. Lula foi eleito suplente.

Três anos depois, tornou-se primeiro-secretário. Em 1975, com 92% dos votos, assumiu a presidência da entidade, representando mais de 100 mil trabalhadores.

Sob sua liderança, o sindicalismo ganhou novo fôlego. O país ainda vivia sob a ditadura militar, e o ABC concentrava o coração da indústria automobilística brasileira.

A repressão e o arrocho salarial alimentavam um sentimento de insatisfação nas fábricas. Foi nesse contexto que Lula se consolidou como voz dos trabalhadores.

A reeleição em 1978 coincidiu com o início de uma série de greves históricas. Pela primeira vez em uma década, metalúrgicos de diversas montadoras paralisaram as atividades em protesto contra as perdas salariais e o controle estatal sobre os sindicatos.

As paralisações se espalharam rapidamente por São Bernardo, Diadema e Santo André, inaugurando o período que ficou conhecido como as greves do ABC.

O ABC das greves e a voz que ecoava dos caminhões

Lula discursando
Reprodução

Entre 1978 e 1980, o país assistiu a um dos maiores movimentos trabalhistas da história recente. As greves do ABC se tornaram símbolo de resistência à ditadura e berço de um novo sindicalismo, pautado pela autonomia e pela organização de base.

As assembleias no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo, reuniam milhares de operários.

Trabalhadores que viveram aquele período lembram o clima de mobilização e enfrentamento.

“Eu lembro de quando eu era da Eletrolux, era terceirizada e se tinha greve ninguém entrava para trabalhar, nem entrávamos na empresa. Ele parava tudo, a ‘Volks’, a Ford, a Scania”, recorda Maria do Socorro, que trabalhou em fábricas da região.

Ela também lembra da tensão dentro das indústrias.

“Na Ford eu lembro deles [sindicato] entrando na sala do gerente, tirando e jogando tudo no pátio”, completa.

Outro morador do ABC, que também trabalhou na Ford, Paulo de Souza recorda as assembleias conduzidas por Lula.

“Eu lembro deles falando em cima do caminhão, ele explicava o porquê da greve e como tínhamos que fazer, como deveríamos nos portar”, afirma.

As greves culminaram na prisão de Lula e outros dirigentes sindicais em 1980, durante a intervenção federal no sindicato, com base na Lei de Segurança Nacional. Foram 31 dias de prisão, mas o movimento consolidou sua força e ampliou o protagonismo político dos trabalhadores do ABC.

Do sindicato à fundação do Partido dos Trabalhadores

Foto: CEDI/Câmara dos Deputados

Em meio às mobilizações, Lula passou a defender a criação de uma legenda que representasse os interesses da classe trabalhadora. Em 10 de fevereiro de 1980, nasceu o Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em São Bernardo, com o apoio de sindicalistas, intelectuais e lideranças comunitárias.

O novo partido simbolizava o descontentamento com a falta de representatividade política e inaugurava um modelo de militância que unia sindicatos, movimentos sociais e comunidades eclesiais de base.

A atuação do PT rapidamente se expandiu pelo país. Em 1982, Lula disputou o governo de São Paulo e, dois anos depois, participou ativamente da campanha das Diretas Já. Em 1986, foi eleito o deputado federal mais votado do Brasil, com forte apoio da militância do ABC.

Os anos seguintes consolidaram sua imagem como liderança nacional. A trajetória que começara nas fábricas de São Bernardo alcançava as urnas em todo o país.

As vitórias eleitorais e o vínculo permanente com o berço político

Lula discursando em 1999
Reprodução

Lula disputou quatro eleições presidenciais antes de ser eleito, em 2002, com quase 53 milhões de votos. Apesar da projeção nacional e internacional, o presidente manteve vínculos constantes com o ABC.

O berço político de sua trajetória (São Bernardo, Diadema e Mauá) seguiu sendo referência simbólica e espaço de rearticulação com as bases.

Mesmo após deixar o governo, o ex-metalúrgico manteve residência em São Bernardo e participou de atos sindicais e campanhas políticas na região.

Foi também em São Bernardo que enfrentou um dos momentos mais difíceis da vida política: em 2018, deixou o Sindicato dos Metalúrgicos, onde se refugiara por dois dias, para se entregar à Polícia Federal e cumprir prisão preventiva determinada pelo então juiz Sergio Moro.

ABC nas urnas: o bastião político em disputa

A relação de Lula com o ABC voltou ao centro do cenário político nas eleições de 2022. Naquele pleito, o petista venceu em cinco das sete cidades da região, São Bernardo, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, revertendo o quadro de 2018, quando Jair Bolsonaro havia vencido em todas.

Em São Bernardo, Lula obteve 49,17% dos votos contra 38,02% de Bolsonaro. Em Diadema, a diferença foi ainda mais expressiva: 56,34% a 32,95%. Já São Caetano do Sul se manteve como o município mais alinhado ao bolsonarismo, com 60% dos votos para o ex-presidente.

O desempenho reforçou o peso histórico do ABC como termômetro político da esquerda. Ao mesmo tempo, revelou desafios para o PT, que perdeu parte do protagonismo local nas eleições municipais seguintes.

Comício em Mauá e o desafio de reconstruir o bastião petista

Em outubro de 2024, Lula retornou ao ABC como presidente da República. O comício em Mauá, ao lado do prefeito Marcelo Oliveira (PT), simbolizou o esforço de reaproximação do partido com sua base histórica.

Na ocasião, Lula defendeu o alinhamento entre os governos federal e municipal e afirmou:

“O importante de vocês terem o Marcelo [Oliveira] prefeito é que o Marcelo não vai precisar nunca bater na porta da Presidência da República, porque a porta da Presidência estará sempre aberta para o prefeito de Mauá.”

O presidente também criticou a gestão anterior de Jair Bolsonaro:
“Eu tive que voltar e acabar com a praga de gafanhoto e cuidar do povo brasileiro”, declarou.

A presença de ministros como Luiz Marinho, Paulo Teixeira e Alexandre Padilha reforçou o tom político do evento. Para o prefeito Marcelo Oliveira, o encontro simbolizou a necessidade de reconstruir o espaço do PT na região:

“Precisamos voltar a ter as bases em alguns lugares onde nós perdemos, pra poder a gente fortalecer e voltar novamente com força aqui no ABC com candidatos que têm a possibilidade de vencer”, afirmou.

De volta ao início: o ABC como espelho da trajetória

Lula discursa na greve de 1980
Arquivo

A história de Lula no ABC paulista espelha a própria transformação da região, de polo industrial a símbolo de mobilização social e resistência política. Foi ali que o jovem operário se tornou líder sindical; que o sindicalista se tornou político; e que o político se tornou presidente.

Ao completar 80 anos, Lula volta a olhar para o ABC não apenas como ponto de partida, mas como um território onde sua biografia se confunde com a história da classe trabalhadora brasileira.

Entre as lembranças das greves, as assembleias em São Bernardo e os comícios recentes, permanece a marca de um líder cuja voz, outrora ecoando dos caminhões de som, continua a ressoar entre as fábricas e praças do Grande ABC.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 27/10/2025
  • Fonte: Sorria!,