Lula fala como o G20 deve combater a desigualdade global
Líder brasileiro defende taxação de super-ricos e troca de dívida por ação climática na Cúpula do G20, pedindo novo redesenho de instituições
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 22/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da abertura da Cúpula de Líderes do G20, na África do Sul, para disparar um alerta incisivo sobre a crescente desigualdade global e a urgência de redesenhar as regras e instituições que, segundo ele, sustentam essa assimetria. Em sua participação na reunião em Joanesburgo, o líder brasileiro defendeu veementemente o fortalecimento do G20 como um fórum de diálogo crucial para o cenário mundial, ao mesmo tempo em que criticou o ressurgimento de políticas protecionistas e unilaterais.
A principal mensagem do presidente foi clara: é hora de a comunidade internacional encarar a desigualdade como uma emergência global. “Está na hora de declarar a desigualdade uma emergência global e redesenhar regras e instituições que sustentam assimetrias”, sentenciou Lula, propondo soluções concretas e inovadoras para enfrentar o fosso entre países ricos e pobres e entre as diferentes classes sociais.
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A estratégia de 4 pontos para o novo G20
O discurso do presidente não se limitou à crítica, mas apresentou um conjunto de caminhos para a ação coordenada do G20 e das principais potências mundiais.
- Troca de Dívida por Ação Climática: Lula propôs mecanismos inovadores, como a troca de dívida por desenvolvimento e ação climática. Essa medida visa aliviar a pressão financeira sobre o Sul Global, permitindo que recursos antes destinados ao serviço da dívida sejam investidos em projetos sustentáveis e na Agenda 2030.
- Taxação dos Super-Ricos: O debate sobre tributação internacional e a taxação dos super-ricos foi classificado pelo presidente como “inadiável”. Ele argumenta que a desigualdade extrema representa um risco sistêmico para todas as economias e que a concentração de renda no topo deve ser combatida com políticas fiscais progressivas.
- Apoio a Painéis de Desigualdade: O Brasil endossou a proposta sul-africana de criar um Painel Independente sobre Desigualdade, nos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O objetivo é fornecer dados científicos e análises aprofundadas para guiar as políticas públicas globais.
- Complementaridade de Iniciativas: O líder brasileiro ressaltou a importância da complementaridade entre a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza — lançada durante a presidência brasileira do G20 — e a iniciativa da África do Sul sobre as dimensões macroeconômicas da segurança alimentar e dos preços de alimentos.
O fluxo de Capital Negativo e o Custo da Guerra
Apesar do crescimento da economia mundial em mais de 3% no ano passado, o presidente lembrou de um dado que revela a distorção das prioridades globais: os gastos com armamentos aumentaram 9,4%, enquanto a ajuda oficial ao desenvolvimento caiu 7%. “A conta é simples: existe um fluxo de capital negativo, que vai dos países do Sul para os países ricos do Norte global,” alertou.
Essa disparidade se traduz em um drama humano inaceitável, com quase metade da população mundial vivendo em países que despendem mais recursos com o serviço da dívida do que com saúde ou educação. Lula reforçou que a questão da dívida de países do Sul Global é “eticamente inaceitável e economicamente insustentável”, especialmente no contexto dos conflitos bélicos em Gaza, Ucrânia e Sudão, que desviam recursos e trazem consequências energéticas e alimentares devastadoras.
Por que o G20 se tornou essencial
Criado em 1999 após a crise financeira asiática, o G20 evoluiu para uma Cúpula de Chefes de Estado e de Governo em 2008, tornando-se o principal fórum de cooperação econômica internacional. Atualmente, os membros do grupo representam mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, 75% do comércio internacional e 60% da população do planeta.
Lula, que participou da primeira Cúpula de 2008, rememorou o contexto da criação do fórum para enfrentar as consequências do neoliberalismo, como a desregulamentação dos mercados financeiros. O presidente lamentou que as intervenções da época tenham sido incompletas, levando a uma trilha de austeridade que apenas aprofundou as desigualdades e ampliou tensões geopolíticas.
Diante desse quadro, o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo é visto por Lula como uma resposta fácil, porém falaciosa. A solução, para ele, está em preservar a capacidade dos fóruns multilaterais, como o G20, de tratar os grandes temas da atualidade. “Nenhum país tem condições de prosperar em isolamento. As soluções que buscamos estão ao redor desta mesa,” concluiu o presidente, reforçando o papel do fórum na busca por uma maior solidariedade, igualdade e sustentabilidade global.