Lula: do chão de fábrica à Presidência da República
Da infância pobre no sertão pernambucano às greves do ABC e à liderança nacional, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva mistura superação, sindicalismo e poder político
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 27/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Caetés, distrito de Garanhuns, no agreste de Pernambuco. O sétimo de oito filhos, cresceu em meio à seca e à pobreza. A mãe, dona Lindu, sustentava a família praticamente sozinha, enquanto o pai, Aristides, trabalhava em São Paulo e pouco aparecia.
Em 1952, dona Lindu decidiu deixar o Nordeste e seguir de caminhão com os filhos para Santos, no litoral paulista. A viagem, feita em um “pau de arara”, simboliza o começo da longa jornada que transformaria o menino pobre do sertão em uma das figuras mais influentes da história política brasileira.
A família se instalou em São Paulo, primeiro em Vicente de Carvalho, depois em São Bernardo do Campo, o coração da industrialização nacional. Foi no ABC paulista, região que concentrava fábricas de automóveis e metalúrgicas, que Lula começaria sua vida profissional e política.
O chão de fábrica e o nascimento do líder sindical

Ainda adolescente, Lula começou a trabalhar como operário e, aos 14 anos, conseguiu seu primeiro emprego fixo em uma metalúrgica. No início dos anos 1960, fez curso de torneiro mecânico no Senai, em São Caetano do Sul. Era o início da vida no chão de fábrica, o cenário que moldaria sua visão de mundo e o impulsionaria à liderança sindical.
Em 1969, Lula se filiou ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, onde seu irmão, José Ferreira da Silva, o Frei Chico, já atuava como militante. Poucos anos depois, Lula assumiu cargos de direção e, em 1975, foi eleito presidente da entidade.
“Eu aprendi no sindicato que a força do trabalhador não está só no braço, mas na união da categoria”, diria mais tarde, resumindo o espírito que o tornaria símbolo das lutas operárias.
As greves do ABC e o surgimento do novo sindicalismo

O final da década de 1970 foi um divisor de águas. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, e as greves eram proibidas. Mesmo assim, Lula liderou grandes paralisações na região do ABC, especialmente nas fábricas da Volkswagen, Ford e Mercedes-Benz.
Entre 1978 e 1980, os metalúrgicos paralisaram a produção por melhores salários e condições de trabalho. As assembleias no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, reuniam dezenas de milhares de trabalhadores e se tornaram símbolo de resistência.
A repressão foi dura: o sindicato foi intervindo e Lula chegou a ser preso por 31 dias em 1980, acusado de “subversão à ordem nacional”. O episódio consolidou sua imagem de líder popular e o aproximou de intelectuais, artistas e setores da Igreja progressista.
Daqueles movimentos nasceu o “novo sindicalismo”, que rejeitava o peleguismo e defendia a autonomia dos trabalhadores.
Do sindicato ao partido: a fundação do PT

O passo seguinte foi político. Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), ao lado de sindicalistas, religiosos, intelectuais e militantes de esquerda. O PT surgiu com a proposta de representar os trabalhadores e os setores populares de forma independente.
“Queremos um partido que não tenha patrão, que fale a língua do povo e que lute pelo povo”, afirmou Lula em um dos discursos que marcaram o início da legenda.
Pouco depois, também ajudou a criar a Central Única dos Trabalhadores (CUT), consolidando a base sindical que seria essencial para sua trajetória eleitoral.
A estreia nas urnas e a longa caminhada até o Planalto
Lula se candidatou à Presidência da República pela primeira vez em 1989, na primeira eleição direta após a ditadura. Chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Fernando Collor de Mello em uma disputa marcada por forte campanha midiática e política.
Seguiram-se novas derrotas — em 1994 e 1998, para Fernando Henrique Cardoso. Apesar disso, o líder petista se consolidou como o principal nome da oposição e símbolo de resistência política.
Em 2002, após mais de duas décadas desde as greves do ABC, Lula venceu as eleições presidenciais. Em seu discurso da vitória, emocionado, declarou:
“Se um metalúrgico que veio do Nordeste e trabalhou no chão de fábrica chegou à Presidência, qualquer brasileiro pode chegar.”
O presidente e a era do crescimento social
O governo Lula (2003–2010) marcou um período de crescimento econômico, valorização do salário mínimo e forte expansão de políticas sociais. Programas como o Bolsa Família, o Fome Zero e o Minha Casa, Minha Vida mudaram o perfil de milhões de brasileiros, especialmente das classes mais baixas.
Internacionalmente, o Brasil ganhou protagonismo, fortalecendo o Mercosul e integrando o grupo dos BRICS. Ao fim de seu segundo mandato, em 2010, Lula deixava o cargo com recordes de popularidade — superando 80% de aprovação, segundo o Datafolha.
Crises, prisão e retorno à cena política

A trajetória, porém, não foi linear. Após deixar o governo, Lula enfrentou a pior crise de sua vida política. Foi alvo de investigações da Operação Lava Jato e, em 2018, preso sob acusações de corrupção. Cumpriu 580 dias de prisão em Curitiba, sempre alegando inocência.
“Podem prender meu corpo, mas minhas ideias continuarão livres”, disse em uma das falas que se tornaram emblemáticas.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações, reconhecendo que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgá-lo. O ex-presidente voltou a ser elegível e, no ano seguinte, candidatou-se novamente.
Em 2022, Lula foi eleito presidente pela terceira vez, derrotando Jair Bolsonaro em uma das eleições mais polarizadas da história recente do país.
O operário volta ao poder

Ao tomar posse em 1º de janeiro de 2023, Lula destacou a simbologia de sua trajetória:
“Eu volto a este Palácio pela vontade soberana do povo brasileiro. A mesma vontade que um dia me tirou do chão de fábrica e me trouxe até aqui.”
Hoje, aos 80 anos, o ex-metalúrgico de São Bernardo do Campo carrega uma biografia que se confunde com a história recente do Brasil: de retirante nordestino a presidente, de sindicalista preso a líder político global.
Legado e desafios
O legado de Lula ultrapassa fronteiras. É visto, por uns, como símbolo de ascensão social e, por outros, como figura controversa. Mas, indiscutivelmente, é um personagem que moldou o Brasil contemporâneo.
Sua história representa o percurso de milhões de brasileiros que sonharam com uma vida melhor — e viram no operário do ABC um reflexo de suas próprias lutas.
“Se eu morrer amanhã, morrerei com a consciência tranquila de que lutei por um país mais justo”, afirmou em uma de suas entrevistas mais recentes.
Do sertão de Pernambuco às portas do Palácio do Planalto, Lula é a personificação de uma jornada de fé, resistência e transformação social.