Lula e a benção da blindagem na CPI do INSS
Quando a fé carrega o terço do governo, a devoção vira prerrogativa da base
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 21/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Abertura – CPI do INSS
Na CPI do INSS, o governo transformou suspeita em milagre — e milagre em método. Por 19 votos a 11, a base de Lula blindou Frei Chico, irmão do presidente, e enterrou a convocação que prometia mexer com a fé política de Brasília. A cena foi digna de missa solene: discursos piedosos, sorrisos de absolvição e um silêncio confortável entre os aliados. O governo chamou de justiça, a oposição, de indulgência plenária. O público, cansado, apenas mudou de canal, já sabendo o final do sermão — o mesmo de sempre: tudo se resolve antes do amém.
O evangelho segundo o Planalto
Frei Chico é vice-presidente do Sindnapi, sindicato dos aposentados investigado por fraudes bilionárias em descontos de benefícios. A Polícia Federal bloqueou R$ 390 milhões em bens e levou o caso ao STF. A oposição viu ali a chance perfeita de acuar o governo: convocar o irmão de Lula, colocar o sobrenome no banco dos réus e fazer o país assistir. Mas a base aliada já havia ensaiado o milagre. Antes mesmo da sessão, governistas retiraram da pauta os pedidos de quebra de sigilo de aliados, incluindo o ex-ministro Carlos Lupi — outro devoto da boa convivência institucional.
A estratégia foi clássica e devocional: proteger em bloco. Quem poupasse Lupi, poupava Frei Chico e quem poupasse os dois, salvava o Planalto. O placar de 19 a 11 não foi acaso, foi liturgia, missa cantada e ensaiada. A senadora Eliziane Gama subiu ao púlpito com tom de catequese: “Não há materialidade, nem fato concreto.” Traduzindo: não há conveniência em investigar quem o governo prefere guardar no cofre da confiança. Brasília entendeu — símbolos não se convocam, se reverenciam.
O Sindnapi, segundo a Dataprev, recebeu mais de R$ 500 milhões em descontos associativos entre 2020 e 2025. Frei Chico não figura nos autos, mas carrega o peso do sobrenome. Em Brasília, sobrenome é cargo vitalício. Lula, do alto de sua habilidade pastoral, entende que família é território sagrado — e blindá-la é gesto de amor e autodefesa. Afinal, a CPI do INSS é só mais um confessionário onde os pecados são perdoados mediante fidelidade.
A CPI como teatro litúrgico
CPI em Brasília é gênero dramático: ato de denúncia, intervalo de manobra e final previsível. A CPI do INSS segue o script à risca. A oposição tenta parecer inquisidora, o governo encena serenidade, e o eleitor assiste sabendo que a pizza já está no forno, aquecida no mesmo forno de sempre. Na sessão da quinta-feira da CPI do INSS, o plenário lembrava uma paróquia: uns de terno, outros de tédio e todos de fé, rezando para que o repórter esquecesse o gravador ligado.
O deputado Luiz Lima, do Novo, clamou que ouvir Frei Chico seria “justo e honesto”. A honestidade perdeu por W.O. A base preferiu manter a comunhão — e assim a CPI do INSS, que deveria apurar fraudes na Previdência, virou sacrário da conveniência. Ninguém quer justiça; querem estabilidade, que em Brasília significa silêncio.
O relator da CPI do INSS Alfredo Gaspar leu convocações de lobistas e pilotos enquanto o nome do irmão do presidente flutuava como incenso sobre a sessão. A palavra “transparência” foi dita 18 vezes; a palavra “culpa”, nenhuma. Quando o assunto é família, o Congresso adota o dogma do sigilo sagrado. E o público, do lado de fora, assiste ao espetáculo de sempre — a fé sendo usada como senha para impunidade.

A política como herança de sangue
Lula sempre soube que o poder é hereditário, ao menos na moral. Proteger o irmão é proteger o mito — e a imagem de que o governo ainda fala por “trabalhadores honestos”. Frei Chico, velho militante, virou símbolo conveniente: o homem simples, de fala sindical, cercado por advogados e suspeitas. Manter sua ausência virou prioridade, quase missão.
Nos corredores da Câmara, um assessor resumiu: “É mais fácil explicar a omissão do que o constrangimento.” O Planalto não queria fotos, não queria manchetes, queria silêncio. E conseguiu. Frei Chico não foi chamado, a oposição saiu reclamando, a base sorriu satisfeita, assim cada qual com sua recompensa. Brasília é generosa com quem reza junto — e devota com quem segura o terço da fidelidade.
O curioso é que, mesmo poupado, Frei Chico saiu maior. No país da ironia política, quem não fala vira mártir. Não ter voz virou símbolo de pureza. A blindagem do governo o transformou em santo involuntário, canonizado pela conveniência. O mito permanece, a fé se renova e a política agradece o milagre da autossalvação.
O Planalto, discreto, celebrou a vitória como quem acende vela pra agradecer o favor alcançado. Desse jeito, a CPI foi encerrada, os riscos controlados e a narrativa saiu intacta. A fé move montanhas — e, às vezes, 19 votos bem colocados.
O altar da conveniência
No mesmo dia, o governo também livrou Carlos Lupi de quebras de sigilo e poupou aliados de qualquer desgaste. O rolo do INSS, que começou como investigação de fraude, terminou como teste de fidelidade. Na política, blindar é verbo coletivo. Quando o Planalto se protege, o Congresso se ajoelha, e a CPI vira procissão.
A comissão virou catedral de autoproteção. Deputados discursam sobre moralidade com um olho nas redes e outro nas emendas. O relator fala em “busca pela verdade” enquanto o assessor confere quem apertou o botão certo. Brasília pratica o milagre da multiplicação dos interesses — e o altar é de mármore, mas cheira a mofo.
A Operação Sem Desconto segue fora dali, nas planilhas da PF, onde nomes e números não votam. Aqui, o que importa é o gesto: proteger os seus e seguir o jogo. É a doutrina do compadrio, aperfeiçoada com Wii-Fi, discurso e café servido em copo de cristal.
No final, quem perde é sempre o mesmo: o cidadão que acredita na CPI como instrumento de justiça. Ele assiste à sessão como quem acompanha novela repetida. Já decorou as falas, sabe o desfecho e, mesmo assim, insiste em ver — como quem torce para que desta vez o mocinho vença.
Epílogo: a fé e o fio da política
O Brasil é um país que confunde Estado com família e CPI com confraria. A blindagem de Frei Chico apenas reafirma a tradição: o poder é hereditário, o escândalo, cíclico e a culpa, coletiva. Lula domina o teatro do bastidor. Mas, sequer precisa interferir, basta existir. O carisma faz o resto, e o carisma, no Brasil, vale mais que qualquer prova material.
Enquanto isso, o povo assiste a mais uma comunhão de interesses. A cada CPI, uma nova conversão: opositores viram aliados, suspeitos viram mártires e o contribuinte continua fiel, pagando o dízimo da esperança. A fé institucional brasileira não se mede em milagres, mas em acordos — e os acordos, por aqui, valem mais que o evangelho.
No fim, tudo se resume a isso: proteger o irmão, blindar o governo e manter a paz dos conchavos. Frei Chico segue vice-presidente e símbolo involuntário da nova santidade política. O governo sobrevive pela devoção da base, e Brasília continua rezando o credo da conveniência. E que Deus salve o contribuinte — esse fiel que paga pela missa sem ter lugar no banco, ainda à espera de que o milagre da justiça caia do céu sem precisar de bênção hereditária do plenário ou senha em frente da recepção do poder.