Lula 2026: é possível imaginar o quarto mandato?
Especialista avalia o cenário político e os desafios do presidente diante de um Congresso fragmentado e da disputa antecipada pelo futuro do país
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 27/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
À medida que o Brasil se aproxima de 2026, uma pergunta começa a dominar os bastidores da política nacional: é possível imaginar um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva? O atual presidente, em seu terceiro governo, enfrenta um cenário complexo, marcado pela ausência de maioria no Congresso, pela pressão do Centrão e por uma base parlamentar ainda instável. Mesmo assim, analistas apontam que Lula tem conseguido reverter parte das dificuldades institucionais em ganhos de imagem junto à opinião pública.
Para o professor Paulo Nicolli Ramirez, sociólogo da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o presidente vive um momento de inflexão. “O presidente Lula teve grandes dificuldades nesse terceiro mandato pelo fato de não ter maioria no Congresso”, explica. Segundo o pesquisador, isso fez com que parte do governo se tornasse “refém das pressões do Centrão”, que em algumas ocasiões apoia projetos do Planalto em troca de cargos e verbas, mas sem garantir fidelidade nas votações mais decisivas.
Ramirez observa que a relação conturbada com o Legislativo provocou um desgaste político natural, especialmente nos dois primeiros anos de mandato. “Houve queda na popularidade do presidente, resultado das dificuldades de manejo do orçamento e das constantes disputas em torno das emendas parlamentares”, aponta.
Entretanto, o quadro começou a mudar em 2024, quando o governo apostou em pautas com forte apelo social e econômico, como o aumento do IOF e discussões sobre o chamado “tarifaço”. “Mais recentemente, isso começou a inverter a imagem do presidente Lula perante a opinião pública”, afirma o professor. “Apesar das dificuldades institucionais, ele conseguiu transformar uma fraqueza em potencialidade.”
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Uma estratégia de enfrentamento
De acordo com Ramirez, o presidente tem adotado uma postura calculada: lançar projetos populares, mesmo sabendo que serão barrados no Congresso, para expor a resistência das elites políticas. “Lula perde institucionalmente, mas ganha em termos de opinião pública”, resume. Essa estratégia, de tensionar o Legislativo para se consolidar como defensor dos interesses da população, tem ajudado o petista a recuperar espaço em pesquisas eleitorais e entre setores da imprensa tradicional.
Segundo o sociólogo, essa tática pode ser decisiva para 2026. “O Lula tem colocado o Congresso, principalmente as bases de centro e direita, em saias justas”, diz. “Quando ele propõe medidas como taxação de grandes fortunas ou aumento de impostos sobre os mais ricos, obriga seus adversários a se posicionarem contra temas que têm ampla aprovação popular.”
Essa dinâmica, embora arriscada, tem permitido ao governo retomar parte da narrativa perdida desde o início do mandato. “Lula conseguiu se reposicionar como o líder que fala diretamente com o povo, mesmo enfrentando um Congresso hostil”, avalia Ramirez.

Desafios e pontos fortes para 2026
Se de um lado o presidente enfrenta a resistência legislativa, de outro ele conta com fatores que podem fortalecer sua eventual candidatura à reeleição. O professor destaca, por exemplo, a atuação diplomática de Lula, que conseguiu “abrir um canal de comunicação com o presidente Trump para negociar acordos econômicos”, gesto visto como uma tentativa de reposicionar o Brasil no cenário global.
Para Ramirez, a imagem internacional de Lula e o desgaste do bolsonarismo são dois elementos centrais do cenário político atual. “Hoje o Lula goza de melhor posição em relação à opinião pública, mesmo entre os meios de comunicação mais conservadores”, observa. “Bolsonaro deixou uma herança muito negativa em termos de gestão pública, e boa parte da imprensa se deu conta de que Lula não é tão radical como se pensava.”
A oposição, embora continue articulada, enfrenta dificuldade em apresentar uma alternativa viável e com apelo nacional. “Nem direita nem esquerda têm sucessores fortes, tanto para o Lula quanto para o Bolsonaro”, analisa o sociólogo. “O problema do PT não está em 2026, mas em 2030, quando o Lula já não poderá participar do processo eleitoral.”
Um cenário sem barreiras legais
No campo jurídico, Ramirez é categórico: não há impedimento legal que impeça Lula de disputar um quarto mandato. “Qualquer mudança constitucional precisaria ocorrer com um ano de antecedência, e não teremos esse tempo”, explica. “Ainda que houvesse um processo de impeachment, ele seria muito desgastante para o Congresso, que já tem uma imagem arranhada.”
Ou seja, do ponto de vista legal, nada se opõe a uma nova candidatura, o que reforça a possibilidade de Lula entrar novamente na disputa presidencial. “O Lula nada de braçadas, neste momento, para um quarto mandato”, resume o professor.

O desafio de construir governabilidade
Mas, para além da disputa eleitoral, o grande desafio do PT será reconstruir as bases da governabilidade. O partido, segundo Ramirez, precisa “aumentar a quantidade de parlamentares dentro da Câmara e do Senado”, algo essencial para evitar a paralisia legislativa que marcou o início do atual governo.
“Caso contrário, continuaremos com um Congresso conservador que desvia o foco dos assuntos mais importantes e atende nichos muito específicos do eleitorado”, afirma. Entre as estratégias citadas estão a defesa de pautas populares como a taxação dos ricos, o transporte público gratuito e a mudança da escala 6×1 de trabalho, temas que dialogam diretamente com o cotidiano da população.

Ramirez acredita que essa guinada programática pode fortalecer o PT nas urnas, ampliando sua bancada e garantindo mais estabilidade política caso Lula seja reeleito. “Esses pontos tendem a atrair mais popularidade e ajudar o governo a consolidar uma base de apoio mais sólida”, projeta.
Um olho em 2026 e outro em 2030
Apesar de ainda faltar um ano para as eleições, o professor vê o cenário de 2026 como um dos mais decisivos desde a redemocratização. “Talvez tenhamos um momento curioso da história política brasileira, em que o foco não estará apenas na eleição presidencial, mas também no Legislativo”, avalia. Para ele, o resultado das urnas dependerá tanto do carisma de Lula quanto da capacidade do PT de “povoar o Congresso com deputados aliados”.
Ainda assim, o futuro político do petista também passa pela questão sucessória. “É importante preparar a sociedade para um substituto”, pondera Ramirez. “Lula concentra uma imagem muito superior ao próprio PT, mas nenhum líder é eterno.”
Enquanto 2026 se aproxima, Lula continua tentando equilibrar-se entre o pragmatismo político e a defesa de sua imagem pública. Entre confrontos com o Congresso e gestos de aproximação com a sociedade, o presidente parece determinado a disputar mais uma vez o comando do país. E, ao que tudo indica, a pergunta sobre o quarto mandato deixou de ser apenas hipótese, e passou a ser parte do cálculo político de Brasília.