Entre a Toga e a Águia: Luiz Fux acena aos EUA no julgamento do STF
Voto de Luiz Fux ecoa em Brasília e em Washington, reforçando tensões entre STF, bolsonarismo e diplomacia internacional
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 11/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
O voto de Luiz Fux parecia escrito com um pé no plenário e outro no Atlântico. Ao falar de liberdade de expressão, ele pescou munição na Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, citando os Federalist Papers, James Madison e até um professor de Yale para dar mais brilho acadêmico ao argumento. Por fora, parecia uma defesa clássica da democracia; por dentro, soava como um aceno calculado, quase um recado cifrado para Washington. Ao vestir sua narrativa com a tradição jurídica americana, Fux costurou, linha por linha, a tese que os aliados de Donald Trump vêm repetindo: a de que o STF estaria cometendo supostas violações de “direitos humanos” (pausa pra risada).
O influenciador de sobrenome jus à pecha, Paulo Figueiredo, sempre colado ao “03” — o filho do ex-presidente “articulador” — leia-se, traidor golpista — e entusiasta do trumpismo, não perdeu tempo: carimbou o voto de Fux como um presente embrulhado para Washington. Para ele, a posição do ministro “confirma” o alinhamento com a narrativa americana e, por isso, Fux “certamente não será alvo de sanções”. Desde o início das restrições, os EUA suspenderam vistos de ministros do STF, mas Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça escaparam ilesos — ao contrário de Alexandre de Moraes, arremessado direto para a lista da Lei Magnitsky. Se Moraes virou o vilão oficial no roteiro trumpista, Fux conseguiu a proeza de ser escalado para o papel raro de “neutro” — e, nesse teatro, isso vale mais do que parecer imparcial.
Luiz Fux, Bolsonaro e os ecos internacionais

Nos corredores de Brasília, a leitura foi imediata: o voto de Fux caiu como um presente para quem sonha com um freio nas decisões mais duras do Supremo. Não era só sobre Bolsonaro — era sobre abrir espaço para um discurso que pudesse viajar de Brasília a Washington sem escalas. Era quase um carimbo diplomático, mas sem bandeira oficial. O ministro, mesmo sem dizer, deu material suficiente para que cada lado usasse sua fala como bem entendesse. Para uns, um gesto técnico; para outros, um alinhamento estratégico com o trumpismo de exportação.
Relatórios quentes, tweets em ebulição e conversas de bastidores convergiam num único ponto: o voto de Fux. Jason Miller, conselheiro de Trump, não perdeu tempo — correu para comemorar e, de brinde, atacar Moraes. O “efeito Fux” foi instantâneo nos grupos bolsonaristas: trechos do voto começaram a circular embalados como munição jurídica premium, prontinhos para abastecer a narrativa de perseguição. Para eles, mais que um voto, era um manual de campanha travestido de fundamentação técnica.
A reação foi imediata. Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, deixou claro que Trump “não hesitaria em usar recursos econômicos e militares para proteger a liberdade de expressão”. Do lado de cá, o Itamaraty soltou uma nota curta e afiada, rebatendo “qualquer tentativa de instrumentalizar governos estrangeiros para coagir instituições nacionais” e lembrando que democracia vem antes de qualquer bandeira importada. Mas, enquanto os diplomatas trocavam comunicados, o voto de Fux já tinha feito o serviço: Brasília foi colocada sob holofotes internacionais e passou a falar mais para Washington do que para a própria Praça dos Três Poderes.
O peso diplomático do voto de Fux
E não foi acidente. Ao evocar a tradição jurídica americana e bater na tecla de que o Supremo teria atropelado garantias fundamentais — seja pelo “tsunami de dados” que teria afogado as defesas, seja por não levar o caso ao plenário —, Fux não apenas falou para o presente: embalou os argumentos com laços vermelho, branco e azul, cuidadosamente amarrados, e entregou de bandeja para quem já vinha ensaiando o discurso de abuso de poder da Corte. O voto funciona como um presente de aniversário para narrativas futuras, pronto para ser aberto no momento exato.
O efeito prático vai além do julgamento. O voto de Fux não só agitou bastidores jurídicos e diplomáticos, como virou combustível para quem opera no submundo das pressões internacionais. Entre grupos de Telegram, assessores parlamentares e gabinetes de lobistas, a palavra de ordem é explorar cada vírgula dita no plenário como se fosse cláusula pétrea da Constituição. A narrativa, agora, tem sotaque bilíngue: fala português no Supremo e sai em inglês nas redes trumpistas, pronta para voltar ao Brasil como “pressão externa” legitimada.
Fora dos holofotes, a disputa também ganhou ares de novela diplomática. Escritórios de advocacia internacionais, consultores de imagem e think tanks alinhados ao trumpismo começaram a testar narrativas, sondando a receptividade do voto de Fux fora do país. A lógica é simples: se a retórica encontra voz lá fora, ela volta com mais força por aqui, embalada como pressão internacional legítima — e nesse jogo, até silêncio pode virar estratégia.
No backstage, a sensação é de que o voto abriu uma avenida para pressões externas com trânsito livre. As defesas já trabalham para transformar cada vírgula de Fux em argumento internacional, enquanto os adversários fazem o mesmo do outro lado da calçada. O julgamento, que parecia restrito ao STF, agora respira um ar globalizado: Brasília fala, mas o som ao redor, vem de DC — e dessa vez, com direito a dublagem simultânea para quem quiser usar o script.
No subtexto, o ministro moveu suas peças como quem joga xadrez com o manual dos EUA aberto na mesa: “não mudo o resultado hoje, mas posso embaralhar tudo amanhã”. Os bolsonaristas entenderam a deixa. O voto virou hashtag pra caroneiro de frente de caminhão, virou slogan, virou combustível político. E sim, também virou Brasília de ponta cabeça, que passou a soar mais próxima de Washington do que nunca.
No fim, a toga pode até cobrir o corpo, mas o eco com sotaque do Texas atravessou fronteiras. O STF segue julgando a trama golpista, mas o capítulo escrito por Fux agora é parte de um enredo ainda maior. Cada palavra dita em Brasília ressoa em Washington como se viesse com legenda automática embutida. Desta vez, foi o próprio ministro quem apertou o botão de tradução simultânea. Que deus abençoe a América (Latina), e uma certa ministra com o dedo coçando e prepara(n)do algo bem melhor do que o SAP… e assim, falo da nossa saudosa e boa dublagem, no melhor estilo: “versão brasileira, Herbert Richards” — amém.