ABC Cast Conexões com Luisa Caldas revela ecossistema invisível no ABC
No podcast de entrevistas do portal ABCdoABC, a especialista denunciou a invisibilidade da inovação regional e cobrou conexão entre empresas, prefeituras e universidades
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 26/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Não faltam boas ideias. Faltam olhos atentos. Essa é a conclusão mais contundente do novo episódio do ABC Cast Conexões, que recebeu a especialista em propriedade intelectual Luisa Caldas, fundadora da Uniellas e presidente do (ITESCS) Instituto de Tecnologia e Inovação do Grande ABC. Com mais de duas décadas de experiência na área e mais de 10 mil registros de marcas e patentes no histórico, Luisa fez um alerta firme: “o ecossistema de inovação do ABC existe, mas segue invisível, isolado e ignorado.“
“Temos mais de 12 mil empresas de tecnologia aqui na região. Não é exagero. O que falta não é mão de obra, nem inteligência. Falta comunicação e articulação”, denuncia a empresária. Segundo ela, um dos maiores desafios para quem atua com inovação no ABC é o desconhecimento entre os próprios atores da cadeia. “Tem prédio com empresa de tecnologia no quarto e no quinto andar. Elas não se conhecem. Buscam soluções em outras cidades enquanto a resposta está um andar acima”.
A cultura do registro: quando a ideia vira patrimônio
A entrevista também foi um mergulho profundo no universo da propriedade intelectual, uma ferramenta essencial para transformar ideias em ativos reais. Luisa explicou de forma didática por que marcas e patentes precisam ser registradas: “Se você inventa algo e não protege, qualquer um pode usar. E não há como desfazer isso depois”.
Para ela, a falta de cultura de registro ainda expõe pequenos empreendedores a riscos graves. “Já vimos gente perder tudo por apresentar um projeto sem patente. A indústria copia, lança e você fica sem nada”. No entanto, Luisa Caldas destaca que o processo se democratizou. Hoje, é possível registrar uma marca mesmo como pessoa física, com custos viáveis. “Quem tem uma boa ideia tem condição de protegê-la. E deveria fazer isso antes de qualquer exposição ao mercado”.
Uniellas: a empresa que protege sonhos femininos e criativos
Criada em 2014, a Uniellas é um dos principais escritórios de propriedade intelectual da região. Totalmente formado por mulheres, o projeto nasceu da experiência de Luisa Caldas como consultora e se tornou referência pela forma acolhedora e pedagógica de orientar clientes. “A gente pega na mão do empreendedor e mostra como fazer. Isso vem da nossa história, da nossa cultura de explicação, de acolhimento”.
Com uma base de parcerias que inclui contadores, publicitários e agências de comunicação, a Uniellas se tornou um elo entre criatividade e segurança jurídica. “Tem agência que cria a marca e só depois descobre que já existia. Nosso trabalho evita esse tipo de prejuízo”.
Instituto de Tecnologia
Além da Uniellas, Luisa Caldas também lidera o Instituto de Tecnologia e Inovação do Grande ABC (ITESCS), do qual se tornou a primeira presidente mulher em quase duas décadas. “Ninguém me convidou para presidir o Instituto. Eu me impus, e foi difícil”, relembra. Desde então, atua para conectar as sete prefeituras da região, universidades, associações empresariais e empresas privadas. A missão: fazer com que a inovação deixasse de ser subterrânea e ganhasse visibilidade.
Graças a essa atuação, o ABC conquistou o reconhecimento como Cadeia Produtiva Local (CPL), provando para o estado de São Paulo que existe um polo tecnológico consolidado fora da capital. “Esse reconhecimento foi um divisor de águas. Mostramos que a região tem valor estratégico e pode reter mão de obra qualificada”, afirma Luisa, “O ABC tem tudo. O que ele não tem é coordenação política para mostrar isso”.

Protagonismo feminino em tecnologia
A entrevista também lançou luz sobre a presença feminina no setor tecnológico. Segundo Luisa Caldas, apesar de avanços, o desequilíbrio ainda é evidente. “Nós saímos de 3 mulheres para cada 50 homens. Agora estamos em 10 para 50. Melhorou, mas ainda é desigual”.
Ela lidera uma vertical dedicada às mulheres na tecnologia dentro do ITESCS, buscando incentivar meninas e jovens a ingressarem nas carreiras de STEM. “Falta representação, falta comunicação. Precisamos entrar nas escolas, mostrar que há espaço, que há futuro ali”. “É como se a gente precisasse se justificar o tempo todo para existir”, desabafa.
O mercado que compra ideias brasileiras e o risco de entregá-las de graça
Um dos trechos mais contundentes do episódio foi a exposição de como grandes corporações internacionais monitoram feiras brasileiras para identificar boas ideias, comprar patentes baratas e lucrar no exterior. “Eles não vêm com crachá. Vêm como visitantes. Vêm, anotam, compram. E você vê seu produto sendo lançado nos Estados Unidos dois anos depois”.
Luisa Caldas cita casos concretos, inclusive de inventores que apresentaram ideias a indústrias sem qualquer registro e depois viram seus projetos apropriados. “Propriedade intelectual não é carro que você empresta e pode cobrar de volta. Uma vez falada, a ideia é do mundo. A gente cansa de ver ideias boas irem embora porque aqui ninguém ouve”.
Patentes como estratégia: de startups a multinacionais
Outro ponto de destaque foi a explicação sobre como patentes viram moeda de negociação. Pequenos inventores podem vender ou licenciar suas ideias para empresas com maior capacidade de produção. “Às vezes, 5 milhões para uma multinacional não é nada. Mas para um inventor brasileiro, muda a vida. E esse é um mercado real, crescente”.
O recado para quem cria é claro: registre. E para quem compra, também: busque ideias protegidas. “Tem muito inventor no Brasil com solução pronta. Falta o mercado entender isso”.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A condução da entrevista ficou a cargo de Thiago Quirino, e contou com a participação da jornalista e produtora audiovisual, Marcela Abílio. A produção e a checagem de dados ficaram por conta de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal. A edição do episódio é assinada por Rodrigo Rodrigues.
Assista ao episódio completo:
Além do canal no YouTube, a entrevista com Luisa Caldas, pode ser acessada pelo Spotify, Deezer, Amazon Music e também no Apple Podcasts.