Cresce número de brasileiros viciados em apostas online
Mais de 36% dos brasileiros já jogaram online; psicólogo explica como a ludomania afeta comportamento, relações familiares e saúde mental
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 15/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
A explosão das plataformas de apostas online, popularmente conhecidas como bets, tem trazido à luz um grave problema de saúde pública no Brasil: a ludopatia, também chamada ludomania. Dados recentes da pesquisa PoderData revelam que uma fatia significativa da população já está envolvida com o jogo: mais de 36% dos brasileiros declaram já ter realizado algum tipo de aposta digital.
Embora o crescimento do setor injete recursos na economia, o custo social e de saúde mental é alarmante. Estimativas oficiais, citadas pelo Senado, indicam que a ludopatia afeta entre 1% e 1,3% da população, o que se traduz em até 2,7 milhões de pessoas no país. Esse transtorno, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela psiquiatria como um Transtorno de Controle dos Impulsos, faz com que o jogador sinta uma necessidade crescente e incontrolável de apostar, mesmo diante de perdas financeiras catastróficas, prejuízos emocionais e severos conflitos familiares.
O Ciclo da Compulsão: Por que é tão difícil parar?
O psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especializado em comportamentos compulsivos, explica que a entrada no vício é sutil e cientificamente desenhada. As plataformas de apostas se valem de um mecanismo de recompensa imediata para fidelizar o usuário, gerando uma perigosa ilusão de controle.
“As plataformas de apostas funcionam como um algoritmo que recompensa logo no início, gerando pequenas vitórias que criam a ilusão de controle. O cérebro libera dopamina e a pessoa começa a acreditar que pode recuperar qualquer perda. A cada rodada, a necessidade de apostar aumenta”, explica Teixeira.
Esse processo define o ciclo da compulsão, uma espiral que rapidamente substitui o lazer pelo desespero. O jogador vive uma montanha-russa emocional que combina:
- Sensação de quase vitória: Perder por pouco reforça o impulso de tentar novamente.
- Pensamento automático: A mente busca a aposta antes que a pessoa consiga exercer um controle consciente, transformando o ato de jogar em uma necessidade instintiva.
- Necessidade de valores maiores: A tolerância ao risco aumenta, e o jogador se sente compelido a apostar montantes cada vez mais altos na tentativa desesperada de recuperar o dinheiro perdido.
Impactos Silenciosos da Ludopatia na Identidade e na Família

As consequências da ludopatia vão muito além do endividamento financeiro. O transtorno tem um custo psicológico profundo que corrói a identidade do indivíduo. O jogador entra em um ciclo de esperança e frustração, marcado por vergonha, culpa e, invariavelmente, isolamento social.
“O comportamento compulsivo corrói a identidade da pessoa. Ela se sente fracassada, evita contar a verdade para familiares e muitas vezes se distancia de amigos e parceiros”, destaca o psicólogo. A desconfiança e a ocultação de dívidas – muitas vezes contraídas em nome de terceiros – tornam-se sinais comuns percebidos primeiro pelo ambiente doméstico, gerando discussões e rompimentos familiares. A dependência do jogo é, portanto, uma doença que atinge famílias inteiras.
Para o Dr. Leonardo Teixeira, é essencial traçar a linha entre hábito e vício. “Se a pessoa consegue parar quando decide, estamos falando de hábito. Mas, se ela perde o controle e aposta mesmo sem querer, isso já é vício, e precisa de tratamento”.
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5 Sinais para Identificar a Ludopatia
É crucial que a família e o próprio indivíduo estejam atentos aos sinais de que o jogo deixou de ser entretenimento para se tornar uma compulsão. A ludopatia se manifesta através de mudanças claras no comportamento e nas finanças:
- Jogos frequentes e em valores cada vez maiores.
- Ansiedade ou irritabilidade quando há impedimento para jogar.
- Mentiras e segredos contínuos sobre perdas financeiras e a frequência do jogo.
- Endividamento ou uso de dinheiro destinado a contas essenciais (aluguel, alimentação).
- Isolamento social e abandono de atividades ou hobbies antes prazerosos.
Onde Buscar Ajuda
O tratamento para a ludopatia exige uma abordagem multifacetada. Procurar ajuda é o primeiro passo para quebrar o ciclo da compulsão:
- Atendimento Psicológico Especializado: A terapia, frequentemente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), ajuda a identificar e modificar os padrões de pensamento automáticos que levam à aposta.
- Acompanhamento Médico: Em casos graves, a avaliação psiquiátrica é necessária, podendo incluir o uso de medicação para controle da ansiedade e da compulsão.
- SUS: Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) oferecem apoio gratuito e integral em saúde mental.
- CVV (188): Apoio emocional gratuito e sigiloso, disponível 24 horas por dia.
- Grupos de Apoio: Organizações presenciais e online, como as de jogadores anônimos, fornecem um espaço seguro para compartilhar experiências e oferecer suporte mútuo para jogadores e familiares.