Educar com limites: dizer não também é um ato de amor

Em um mundo de violência e desamparo, o limite é um ato de cuidado que promove a segurança emocional e o respeito ao próximo

Crédito: Divulgação

Vivemos em um mundo marcado por intolerâncias, guerras, discursos de ódio e diferentes formas de violência. Muitas vezes, acreditamos que essas atitudes estão distantes de nós, restritas a outros países, outros contextos ou grandes conflitos. No entanto, o cotidiano insiste em nos contrariar.

Somos constantemente surpreendidos por notícias de violência entre adolescentes, falta de empatia, agressões nas ruas, crueldade contra animais e relações cada vez mais marcadas pela indiferença.

Esses episódios não surgem do nada — eles se constroem no dia a dia, nas pequenas relações, nos modos como aprendemos a conviver, a lidar com frustrações e a reconhecer o outro.

Notícias recentes que chocam

Cão Orelha - Manifestação Avenida Paulista
Montagem ABCdoABC/Reprodução/Internet

Nos últimos dias, algumas notícias chamaram atenção e causaram indignação. Adolescentes envolvidos em brigas violentas nas ruas, com vítimas fatais. Casos de crueldade contra animais. Discussões sobre jogos on-line e ambientes virtuais onde jovens circulam livremente, muitas vezes sem supervisão, correndo uma série de riscos.

Diante desse cenário, é comum buscarmos respostas rápidas: culpar a internet, os jogos, a escola, a falta de policiamento. Mas talvez seja necessário olhar para um ponto mais profundo — e mais delicado: o lugar dos limites na educação dos nossos filhos e filhas.

Limites como cuidado e amor

limite não é castigo
Imagem criada por IA (Chatgpt)

Falar de limites ainda provoca desconforto. Para muitos pais, dizer “não” parece sinônimo de repressão, autoritarismo ou falta de afeto. Mas limite não é castigo. Limite é cuidado. Limite é presença. Limite é amor em ação.

Crianças e adolescentes não nascem sabendo conviver. Eles aprendem e aprendem principalmente a partir das referências dos adultos. Quando mães e pais acompanham, perguntam, se interessam, colocam combinados e sustentam regras, estão ensinando algo essencial: que o mundo não gira apenas em torno do próprio desejo.

No livro Entre o Passado e o Futuro, Hannah Arendt faz uma reflexão que continua extremamente atual. Para ela, educar é assumir responsabilidade pelo mundo diante das novas gerações. O adulto não pode simplesmente se retirar, fingir neutralidade ou entregar toda a decisão às crianças e aos adolescentes. Quando isso acontece, o jovem não se sente livre — ele se sente sozinho.

O papel do adulto na formação moral

Imagem criada por IA (Chatgpt)

Quando o adulto abdica do seu lugar, não está sendo democrático ou moderno. Está deixando o jovem sozinho diante de um mundo que ele ainda não tem condições de compreender ou enfrentar. Colocar limites, nesse sentido, não é controlar a vida do filho, mas apresentar o mundo, com suas regras, riscos e responsabilidades. É dizer, com atitudes: “Existe um mundo aí fora, e eu estou aqui para te ajudar a atravessá-lo.”

O psicólogo e educador Yves de La Taille, em Limites: três dimensões educacionais, ajuda a entender por que a ausência de limites cobra um preço tão alto. Para ele, os limites fazem parte da formação moral e emocional. Eles protegem, organizam a convivência e ajudam a construir valores como empatia, respeito e responsabilidade. Quando essas dimensões se perdem, o limite vira ou violência, ou permissividade total. Nenhuma das duas educa.

Liberdade sem referências

Imagem criada por IA (Chatgpt)

Hoje, muitos adolescentes vivem uma contradição perigosa. Têm liberdade quase total no universo virtual: acesso irrestrito a conteúdos violentos, discursos de ódio, desafios perigosos e relações sem mediação. Ao mesmo tempo, carecem de referências claras no mundo real — de adultos que sustentem limites, orientem, escutem e acompanhem.

Sem limites claros, o que aparece não é autonomia — é insegurança. Não é liberdade — é desamparo. Muitos jovens, sem esse contorno, manifestam sofrimento emocional, ansiedade, depressão, explosões de raiva e, em alguns casos, comportamentos violentos. A violência, muitas vezes, é um grito de quem não encontrou referências.

Existe um medo grande de frustrar os filhos. Mas o que pouco se fala é que a ausência de limites também gera sofrimento. Sem referências claras, muitos jovens se sentem inseguros, sobrecarregados e sozinhos. Precisam decidir tudo, lidar com tudo, dar conta de emoções intensas sem apoio. O limite bem colocado transmite uma mensagem silenciosa, mas essencial: “Você não precisa dar conta de tudo sozinho.”

Limites para todos, sem exceção

Imagem criada por IA (Chatgpt)

Esse desafio se torna ainda mais delicado quando falamos de crianças e adolescentes com deficiência ou neurodivergentes. O cuidado e a proteção são fundamentais, mas não substituem a necessidade de limites claros. Todas as pessoas, independentemente de suas condições, precisam de referências, combinados e responsabilidades compatíveis com sua idade. É assim que se constrói segurança emocional e autonomia.

Participar da vida dos filhos não significa vigiar cada passo, controlar tudo ou invadir sua intimidade. Significa estar presente. Saber com quem eles andam, o que consomem, o que sentem. Significa conversar sobre como veem o mundo, sobre o que acessam na internet, sobre o que machuca o outro e sobre o que não é aceitável numa vida em sociedade.

Limite que educa nasce do vínculo

Imagem criada por IA (Chatgpt)

Limite não deve vir acompanhado de grito, ameaça ou humilhação. O limite que educa nasce do vínculo, da escuta e da coerência. É o adulto que diz “não” e permanece. Que sustenta a frustração do filho sem abandoná-lo emocionalmente. Que ensina que sentir raiva é humano, mas machucar o outro não é.

Educar é preparar para o mundo, não se blindar dele.
É ajudar crianças e adolescentes a se tornarem pessoas emocionalmente mais seguras, empáticas, críticas e responsáveis.

Em tempos de tanta violência e desorientação, talvez seja hora de resgatar algo simples — e profundo: limites também são uma forma de amar. E pais que participam da vida dos filhos ajudam a formar não apenas indivíduos mais seguros, mas uma sociedade mais cuidadosa e humana.

Leide Maia

Leide Maia
Leide Maia – Divulgação

Leide Maia é historiadora formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em História da África (UFES) e Psicopedagogia (UNIFAI). Cofundadora do Espaço Mosaico e da plataforma MAIA, é especialista em diversidade, inclusão e acessibilidade, além de consultora de emprego apoiado. Atua também como coordenadora do grupo de Autodefensoria da Região Sudeste da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD), promovendo ações de defesa de direitos e inclusão de pessoas com deficiência intelectual. Leide tem trajetória marcada pelo engajamento em causas sociais e pela criação de soluções educacionais inovadoras voltadas à inclusão.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 18/02/2026
  • Fonte: Sorria!,