Líder peruano liberta Fujimori após se livrar de destituição e agrava crise

Decisão de Kuczynski provoca protestos de parentes das vítimas dos esquadrões da morte do Exército e Milhares de peruanos pedem renúncia de presidente

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A decisão do presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, de conceder indulto humanitário a Alberto Fujimori – três dias depois de escapar da destituição graças ao apoio de um dos filhos do ex-presidente – provocou protestos nesta segunda-feira de parentes de vítimas dos abusos ocorridos na gestão do ex-líder, condenado a 25 anos de prisão por abuso de poder e crimes contra a humanidade, e deve agravar a crise política peruana.

Em Lima, houve confrontos entre a polícia e mais de 200 jovens que tentaram realizar uma marcha de protesto até o Palácio do Governo. Os manifestantes carregavam fotos de algumas das vítimas da repressão do regime de Fujimori. Estima-se que o perdão provocará mudanças no gabinete ministerial de Kuczynski, cujo partido Peruanos Por El Kambio, minoria no Parlamento, está ainda mais enfraquecido pela deserção de um de seus legisladores.

Kenji Fujimori, congressista e filho mais novo de Fujimori, que defendeu publicamente o indulto de seu pai, foi o primeiro da família a agradecer o perdão presidencial. “Gostaria de agradecer em nome da família Fujimori ao presidente Pedro Pablo Kuczynski pelo nobre e magnânimo gesto de conceder ao meu pai, Alberto Fujimori, um indulto humanitário”, escreveu Kenji em sua conta no Twitter.

Na votação de quinta-feira sobre a destituição de PPK, como é conhecido o presidente, a abstenção de Kenji e outros nove deputados do partido fujimorista Fuerza Popular evitou que o presidente deixasse o cargo. O filho de Fujimori foi contrário à orientação da legenda, comandada por sua irmã, Keiko, que queria tirar Kuczynski do poder. Deputados do partido, favoráveis e contrários à decisão de Kenji, atribuíram as abstenções a um acordo pela libertação do ex-presidente.

PPK é acusado de ter ocultado uma consultoria que prestou à Odebrecht quando ainda era ministro da Economia do presidente Alejandro Toledo, entre 2004 e 2006.

Nesta segunda-feira, Keiko também agradeceu. “Hoje é um grande dia para a minha família e para o fujimorismo. Finalmente, meu pai está livre. Esse será um Natal de esperança e felicidade!!!”, escreveu a líder do partido Força Popular, nas redes sociais.

Kuczynski, no entanto, atribui o indulto exclusivamente a razões humanitárias. “O presidente da república, no uso das atribuições conferidas a ele pela Constituição Política do Peru para tais fins, decidiu conceder um indulto humanitário ao sr. Alberto Fujimori e a outras sete pessoas que se encontram em condições semelhantes”, afirmou a presidência em um comunicado.

Fujimori foi examinado no dia 17 por uma junta médica que o avaliou na sede da Direção de Operações Especiais da polícia, onde estava preso desde 2007.

A junta determinou que Fujimori sofre de uma doença progressiva, degenerativa e incurável e as condições carcerárias significam um sério risco para sua vida, saúde e integridade.

Além do indulto, Kuczynski concedeu a Fujimori a graça presidencial “para todos os processos penais até a data que se encontram vigentes”. Com isso, Fujimori se salva de ser processado e julgado pelo caso Pativilca, no qual o ex-governante é acusado de ser responsável pelo massacre de seis pessoas em 1992 a cargo do grupo militar Colina.

CRÍTICAS
O indulto provocou o protesto das famílias de 25 vítimas assassinadas por esquadrões da morte do Exército durante o regime de Fujimori. Esse caso foi o que acabou levando Fujimori à prisão, após ser condenado como responsável pelos homicídios.

 “Se você, sr. presidente, perdoar Fujimori sem o devido processo e sem uma junta médica imparcial, está viciando este processo e atropelando o direito das famílias à justiça”, escreveu Gisella Ortiz no Twitter.

“Outro indulto para uma pessoa condenada por crimes contra a humanidade. Não aprendemos mais na América. Triste noite”, disse Edison Lanza, relator para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Em frente à clínica Centenario Peruano Japonesa, para onde Fujimori foi transferido da prisão, dezenas de partidários espontâneos se reuniram para comemorar a liberdade do ex-presidente, que ainda tem muitos partidários no Peru por estabilizar a economia do país e derrotar guerrilhas de esquerda, entre elas o grupo Sendero Luminoso. / AFP, REUTERS e AP

RENÚNCIA
O presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, que conseguiu escapar a destituição na semana passada, vive uma nova crise, após o indulto concedido ao ex-presidente Alberto Fujimori. Milhares de peruanos saíram às ruas de Lima na noite de segunda-feira (25) para protestar contra a decisão e exigir a renúncia do chefe de Estado. 

Cerca de cinco mil pessoas marcharam na segunda-feira na capital peruana, criticando o indulto concedido a Fujimori e exigindo a renúncia de Kuczynski. “Fora, fora PPK!”, gritaram os manifestantes que carregavam cartazes com dizeres “Fujimori, assassino e ladrão”. Entre os participantes da marcha, estavam as famílias de 25 vítimas assassinadas por esquadrões da morte do Exército durante o regime de Fujimori. O caso acabou levando Fujimori à prisão, após ser condenado como responsável pelos homicídios.

Os parentes das vítimas pretendem recorrer à Corte Interamericana para pedir a anulação do indulto. “Não é possível indultar estes crimes contra a humanidade”, afirmou Carlos Rivera, advogado das vítimas.

O protesto terminou em confrontos com as forças de segurança. Policiais usaram gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes e evitar que caminhassem até a clínica em que Fujimori está internado.

Em discurso transmitido por rádio e televisão na noite de segunda-feira, Kuczynski tentou justificar o indulto, alegando que o concedeu para tentar reconciliar o país antes que Fujimori morresse na prisão.

“Estou convencido que aqueles que são democratas não devem permitir que Alberto Fujimori morra na prisão, porque justiça não é vingança”, disse o presidente. “Foi a decisão mais difícil da minha vida”, completou.

O indulto estremeceu o governo. A bancada parlamentar de Kuczynski – 17 deputados de um total de 130 -, registrou as renúncias de três legisladores até o momento.

Kuczynski indultou e concedeu o perdão presidencial no domingo (24) a Fujimori, com base em um relatório de uma junta médica. Os especialistas determinaram que Fujimori “sofre de uma doença progressiva, degenerativa e incurável e que as condições carcerárias significam um sério risco para sua vida, saúde e integridade”.

PERU POLARIZADO
As reações ao indulto a Fujimori mostram um Peru polarizado, dividido entre simpatizantes do fujimorismo e a indignação de seus críticos, que pretendem impugnar a medida em tribunais internacionais. “O que aconteceu não garante a estabilidade, estamos avançando para uma nova instabilidade”, avalia o analista Mirko Lauer.

O contexto da decisão de Kuczynski, três dias depois de evitar seu afastamento do cargo pelo Congresso, sob a acusação de mentir por não revelar serviços de assessoria à empreiteira brasileira Odebrecht, alimentou a fúria do antifujimorismo.

O fracasso da moção para o impeachment de Kuczynski na última quinta-feira (21) no Congresso peruano evidenciou uma possível troca de favores com o grupo rival do presidente, liderado pelo filho de Fujimori, Kenji Fujimori. Unindo-se a outros nove congressistas, ele evitou que Kuczynski fosse destituído. “É evidente que aconteceu uma troca da destituição pelo indulto”, destacou Lauer.

Fujimori, de 79 anos, passou a primeira noite em liberdade hospitalizado na UTI da clínica para onde está desde o último sábado (23) em razão de uma arritmia cardíaca e queda de pressão. Ele permanecerá no local até sua recuperação e uma série de exames, segundo o médico pessoal de Fujimori, Alejandro Aguinaga. “A alta dependerá da evolução e em consequência disso será tomada uma decisão”, declarou.

O ex-presidente foi condenado a 25 anos de prisão em 2009 por crimes contra a humanidade e corrupção. Na prisão, ele desenvolveu um câncer na língua, além de apresentar problemas cardiovasculares.

Do lado de fora da clínica onde está internado, dezenas fujimoristas manifestaram apoio ao ex-presidente, apesar dos abusos cometidos durante seu regime. Muitos o reconhecem por ter conseguido derrotar os guerrilheiros do Sendero Luminoso e o MRTA e estabilizar a economia após a crise da hiperinflação produzida sob o primeiro governo de Alan García (1985-1990). De acordo com pesquisas recentes, 65% dos peruanos são favoráveis ao indulto a Fujimori. / AFP 

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 26/12/2017
  • Fonte: Sorria!,