Laura de Mello e Souza evoca o mito edênico em Jardim das Hespérides

A referência ao mito das Hespérides, mais do que erudição gratuita, revela uma aguda leitura da sedimentação histórica das visões da natureza em Minas

Crédito: Reprodução/YouTube

Foi num historiador mineiro do começo do século passado que a historiadora Laura de Mello e Souza encontrou a sugestão para o belo título de seu novo livro, O Jardim das Hespérides (Companhia das Letras, 2023). “Era o país das serranias impenetráveis, dos rios enormes, das feras e dos monstros”, escreveu o hoje desconhecido Diogo de Vasconcelos, referindo-se ao espaço mineiro antes da colonização europeia, acrescentando uma referência à mitologia grega: “Uma espécie das Hespéridas antigas guardadas por dragões”. 

Consta de fontes gregas diversas que houvera, provavelmente no extremo Oeste do mundo conhecido, um bosque habitado por lindas ninfas – as Hespérides, “filhas da noite”, conforme a etimologia e a genealogia fornecidas por Hesíodo, se bem que outras fontes relatem origens diversas – que cuidavam de um pomar de maçãs douradas. Para proteger da cobiça dos homens (e das ninfas, talvez) semelhante prodígio, rondavam o jardim ferozes dragões. Isso, até o dia em que Hércules, num de seus últimos trabalhos, matara os dragões e colhera os pomos, assim incorporando o fabuloso jardim ao mundo desencantado dos homens.

O símile mítico é bem apropriado para pensar a história de Minas pois reúne diversas formas históricas de relacionamento do humano com o meio ambiente. Zona desconhecida e indecifrável que atrai e repele por sua natureza ambivalente, “sertão” onde “tudo são dúvidas”, conforme a expressão de um administrador colonial setecentista, vista alternativamente como edênica – bosque deleitoso de belas ninfas a encerrar copiosos tesouros – ou trágica – infestada de feras mortíferas, hostil também pela topografia angulosa das serras que a circundam, cobertas por escuras florestas.

Fim ameaçador do mundo conhecido, princípio de um mundo novo, o da expansão dos domínios da Coroa e da cristandade, no qual a natureza antes ameaçadora se converteria em ordenado jardim. Esse novo quadro não deixará de conviver, de forma tensa, com os vestígios do passado. É o que mostram os belos mapas de José Joaquim da Rocha, nos quais o cartógrafo é retratado à margem do espaço representado, impassível, ao lado de um indígena que o ameaça com a mira de seu arco.

HOSTIL

Especialmente fascinante entre as diversas figurações da natureza mineira analisadas por Laura de Mello e Souza é aquela plasmada pela sensibilidade tragico-melancólica de Cláudio Manuel da Costa, que se autoestiliza como “alma terna” nascida em meio a duros penhascos: “Que entre penhas tão duras se criara/Uma alma terna, um peito sem dureza!”, exclama, apenas para concluir que são as penhas que têm a temer, pois que o Amor do poeta há de se apurar onde encontra maior resistência. A mesma paisagem hostil parecerá menos sujeita à redenção pelo amor no impressionante Soneto VIII de Cláudio, em que o infortúnio amoroso tinge a paisagem toda de desespero: “Tudo cheio de horror se manifesta/Rio, montanha, troncos, e penedos/Que de amor nos suavíssimos enredos/Foi cena alegre, e urna é já funesta”. Tal intensidade na descrição da paisagem deriva, em grande medida, da adesão do poeta às convenções literárias tradicionais de sua formação, que viam na montanha um espaço adverso à civilização. Com finura crítica característica, porém, a autora observa: quando o poeta vincula, obsessivamente, a pedra e o relevo acidentado aos traços biográficos individuais estamos diante de uma nítida “inserção da paisagem regional num universo afetivo”.

Esses exemplos do que poderíamos chamar um “discurso mineiro” sobre a paisagem dão apenas uma pálida ideia do refinamento com que Laura de Mello e Souza trilha os arquivos e bibliotecas de Minas mostrando em detalhes como se deu a lenta acomodação da mentalidade dos colonizadores ao espaço conquistado. Discurso que é instituído, como se sabe, mediante a exclusão violenta dos povos originários, os “gentios bravos” cuja derrocada o épico Vila Rica, de Cláudio Manuel, celebrará como triunfo da civilização – de forma bem edulcorada, como mostra a algo fantasiosa menção à “arte de vencer sem armas” do “ínclito Noronha” (capitão-geral da colônia), enquanto o indígena ficcional exultará a própria submissão à nova ordem (“Ah! Que de feras nos tornamos homens!”). No princípio, a imaginação febril dos primeiros entrantes paulistas, às vezes meninos, dava margem à identificação incorreta de pedras (é famoso o caso das “esmeraldas” de Fernão Dias Pais, que se revelariam – “verde engano”, escreverá Drummond – meras turmalinas), ou à descrição colorida de acidentes geográficos como lagoas mágicas de “águas leves”, habitadas por monstros, além de “capelas” naturais. Esses insólitos templos encorajavam as esperanças providenciais de homens que liam o mundo como um livro repleto de correspondências com a Bíblia, identificando nos rudes sertões do Rio São Francisco os sinais de um futuro dadivoso.

MITO

Este chegaria, é claro, na forma do ciclo minerador. É já na sua decadência que surgirá pela primeira vez aquilo que Antonio Candido denominaria um “sistema” literário na região, de modo a permitir o florescimento das melhores expressões do discurso letrado colonial sobre a natureza mineira. Nessa altura a atualização tardia da visão mítico-edênica de uma natureza pródiga alimentará o sentimento local que, não raro, como no caso de alguns dos poetas árcades, se tornará sedicioso, com a insurreição frustrada de 1789. São esses apenas alguns casos do fascinante enredamento histórico entre formas de política, sensibilidade, expressão literária e trato com a natureza destramente iluminadas pelo olhar experimentado e afiado de Laura de Mello e Souza.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 07/05/2023
  • Fonte: FERVER