Tecnologia da USP confirma metanol em 60 minutos

Processo de análise começa nas unidades de saúde, com coleta de amostrar, e vai até o Laboratório de Toxicologia Analítica da USP

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O Governo de São Paulo montou uma força-tarefa multidisciplinar para dar uma resposta rápida à crise das bebidas adulteradas, que resultaram em diversos casos de intoxicação por metanol no estado. A estratégia de combate se apoia em dois pilares cruciais: a rapidez no socorro e a precisão da ciência laboratorial, garantindo a confirmação ou o descarte de novos casos e o tratamento eficaz dos pacientes.

O papel da ciência contra o metanol

Processo de chamado cromatografia - USP Ribeirão Preto - combate ao metanol - Divulgação
Processo de chamado cromatografia – USP Ribeirão Preto – combate ao metanol – Divulgação

O centro dessa operação técnica é o Laboratório de Toxicologia Analítica Forense (Latof) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, referência nacional. É lá que se desenrola o rigoroso processo de análise que decide o destino clínico dos pacientes e orienta a investigação policial.

O processo começa nas unidades de saúde, onde a rapidez na coleta de amostras de sangue e urina é vital. O metanol é uma substância de alta toxicidade que, mesmo em pequenas doses – 10 ml podem lesionar o nervo óptico e 30 ml podem ser letais – possui uma meia-vida relativamente curta, de cerca de 24 horas no organismo.

Se a amostra for colhida dias depois da ingestão, o metanol já pode ter sido eliminado do organismo. Por isso, a coleta e o congelamento imediato são fundamentais”, destaca o professor de Química da USP, Bruno de Martinis.

A Cromatografia que Garante o Resultado em Menos de uma Hora

Uma vez coletadas e enviadas ao Latof/USP, as amostras passam por um método chamado cromatografia em fase gasosa. Esta técnica de ponta é responsável por separar os compostos presentes no material biológico (sangue, urina ou tecido), permitindo a identificação e quantificação exata do metanol.

O grande diferencial do Latof é a utilização de um sistema conhecido como headspace, que garante resultados com alta precisão em até uma hora. O processo é totalmente automatizado e otimizado:

  • O material é acondicionado em frascos lacrados que são aquecidos e agitados.
  • O calor volatiliza os compostos como o etanol e o metanol, formando uma fase de vapor.
  • O equipamento coleta automaticamente esse vapor e o injeta no sistema de análise, sem que o frasco seja aberto, o que evita contaminações e perdas.

Segundo o pesquisador Martinis, o tempo total para cada exame é inferior a 60 minutos: “O preparo da amostra leva cerca de dez minutos, e a análise em si, cerca de 30 a 40 minutos. O equipamento trabalha de forma contínua, uma amostra após a outra”.

Segurança Acima do Risco: Limite de Detecção Ultra-sensível

A confiabilidade do laboratório é reforçada por seu rigor técnico. O Latof consegue identificar a presença de metanol em concentrações muito abaixo do que é considerado ponto de risco. Enquanto a nota técnica considera o ponto de risco em 200 miligramas por litro, o laboratório trabalha com um limite de segurança de 100 miligramas por litro.

Isso garante que nenhuma amostra positiva passe despercebida”, afirma Martinis.

Além disso, a análise detecta a presença de outros compostos, como o etanol, o que permite aos médicos diferenciarem um quadro de embriaguez comum de um grave envenenamento químico.

O protocolo de emergência e o antídoto eficaz contra o metanol

Paralelamente ao trabalho laboratorial, a rede de saúde mantém o foco no socorro emergencial. É fundamental que, ao surgirem sintomas compatíveis com intoxicação por metanol (tontura, dores abdominais intensas, confusão mental e alterações visuais), o paciente busque atendimento em até 6 horas para evitar o agravamento e sequelas permanentes, como a cegueira.

O tratamento pode incluir a administração do antídoto, o álcool etílico absoluto (etanol 99,9%), que age no organismo competindo com o metanol e inibindo a formação de seus metabólitos tóxicos. O Estado de São Paulo reforçou o estoque deste antídoto com 3 mil novas ampolas, totalizando 5,5 mil unidades disponíveis nas unidades de referência, tanto públicas quanto privadas.

A força policial no rastreamento da contaminação por metanol

A segurança pública atua de forma coordenada com a saúde para combater a origem das adulterações. A Polícia Científica, por meio do Núcleo de Química, também utiliza tecnologia de ponta para a análise laboratorial de amostras de bebidas apreendidas. Garrafas suspeitas passam por uma sequência rigorosa, desde a verificação de rótulos e lacres até a identificação e quantificação dos níveis de metanol, garantindo a materialidade jurídica para as investigações.

O trabalho da Polícia Civil resultou, desde o aparecimento de novos casos na semana passada, em mais de 21,4 mil garrafas apreendidas para averiguação, somando 71,4 mil apreensões ao longo de 2025. O combate à falsificação também soma 51 prisões, sendo 30 apenas nos últimos dias, incluindo a de um homem apontado como o principal fornecedor de insumos para a produção de bebidas falsificadas no estado.

As autoridades mantêm os canais de denúncia ativos para que a população colabore com a fiscalização. Denúncias sobre irregularidades podem ser feitas pelo Disque Denúncia 181, pelo site da Polícia Civil de São Paulo e pelo Procon-SP (Disque 151 e site).

  • Publicado: 20/02/2026
  • Alterado: 20/02/2026
  • Autor: 18/10/2025
  • Fonte: Patati Patatá Circo Show