Kiusam de Oliveira: resistência e ancestralidade no ABC Cast Conexões

Escritora e educadora do ABC fala sobre identidade, literatura negra e o poder da arte na transformação social

Crédito: (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O mais novo episódio do ABC Cast Conexões mergulhou na história viva e pulsante de uma mulher que transformou dor em potência, e o chão do Grande ABC em território de luta e encantamento. Nascida em Santo André, Kiusam de Oliveira cresceu entre os contrastes da periferia e os sonhos de uma menina que já intuía o peso e a beleza de ser negra em um país que tenta, todos os dias, silenciar corpos como o seu. Professora, escritora, dançarina e militante, ela carrega em sua trajetória quase quatro décadas dedicadas à educação pública antirracista e à educação especial, sempre com os pés firmes na região que a formou.

Durante a entrevista, Kiusam de Oliveira emocionou ao falar sobre o que significa acordar e se reconhecer como mulher negra, filha, mãe e educadora. “Todos os dias, eu acordo e digo, estou viva. Sou uma mulher preta, filha de pais, que me ensinaram o que é dignidade. Tudo o que faço é por eles, por mim e pelos meus ancestrais.”

Com um sorriso sereno e o olhar firme, a escritora lembrou que suas raízes estão profundamente ligadas ao ABC Paulista, região que moldou seu olhar sobre o mundo e sobre as desigualdades. “Santo André me formou. O ABC me ensinou o que é território, o que é luta. Aqui aprendi que o racismo não é uma palavra, é uma estrutura. Mas também aprendi que nós, pretos, temos a força de transformar qualquer estrutura”, afirmou.

Quando o ódio virou chamado: a origem da educadora

A trajetória de Kiusam de Oliveira como educadora nasceu de um gesto de enfrentamento. Ainda jovem, ela entendeu que o racismo não era apenas uma experiência individual, mas uma estrutura que atravessava o cotidiano e que precisava ser combatida com conhecimento. O que começou como indignação se transformou em propósito. “Eu costumo dizer que me tornei professora por vingança. Porque o racismo que eu vivi me feriu profundamente, e eu quis transformar essa dor em luta. Quis ocupar o espaço que tentaram me negar”, contou. Essa ruptura foi o ponto de partida de uma jornada acadêmica e militante que faria da educação sua principal arma de transformação social.

Kiusam de Oliveira - ABc Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Foi também nesse período que Kiusam se aproximou do Movimento Negro Unificado (MNU), um divisor de águas em sua formação política e pessoal. “O MNU me ensinou que não basta resistir sozinha. A luta é coletiva, e a educação é o instrumento mais poderoso que a gente tem para mudar o mundo. Foi ali que entendi que meu corpo é político e que a sala de aula é também um campo de batalha.” Com a aquisição dessa consciência, Kiusam de Oliveira passou a enxergar a docência como uma missão ancestral, um elo entre a experiência individual e a libertação coletiva e transformou cada aluno em uma semente de reexistência.

Educação e resistência: o nascimento de uma militante

No início da vida adulta, Kiusam de Oliveira encontrou na militância o caminho para transformar sua indignação em ação coletiva. O Movimento Negro Unificado (MNU) foi sua segunda escola. “O MNU me apresentou nomes que mudaram minha vida. Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro… Foi com eles que aprendi que o racismo não se vence com silêncio, mas com consciência e afeto”, diz e completa, “Eu me encontrei no movimento. Descobri que eu não era sozinha, que havia uma história antes de mim, e que eu tinha o dever de continuar escrevendo essa história.”

A educação, para Kiusam, nunca foi apenas uma profissão, mas uma forma de cura, ela enxergou na sala de aula o espaço sagrado onde o conhecimento poderia restaurar a dignidade de corpos historicamente violentados. “Quando eu entro em sala de aula, eu não levo só o conteúdo. Eu levo todos os meus ancestrais. Porque ensinar, pra mim, é um ato espiritual”, ressaltou.

A relação entre a fé e a prática pedagógica se tornou o eixo central de sua atuação como educadora antirracista uma fusão de intelecto, emoção e ancestralidade. Nesse mesmo período, Kiusam de Oliveira passou a estudar com profundidade as religiões de matriz africana, reconhecendo nelas o alicerce cultural que sustenta sua identidade. “Eu entendi que ser negra é ser herdeira de uma sabedoria que o mundo tentou apagar. Quando eu danço, quando eu escrevo, quando eu ensino, estou cultuando a minha ancestralidade”, afirma Kiusam.

A sala de aula como território de luta

A sala de aula foi o espaço onde Kiusam de Oliveira fincou suas raízes mais profundas. São três décadas dedicados à educação pública, com foco na educação especial e na educação antirracista, em escolas do Grande ABC e da capital paulista. Para ela, cada turma era um novo quilombo de resistência. “Eu entrei no magistério muito jovem, e foi ali que percebi o quanto a escola é um campo de disputa. O racismo está dentro das instituições, e é lá que a gente precisa combatê-lo.”

Kiusam fez da docência um ato político e coletivo. Para ela, ensinar é convocar consciências e reescrever histórias que a sociedade tentou apagar. “A educação é o único caminho para libertar o nosso povo”, resumiu.

Kiusam de Oliveira - ABc Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Essa filosofia se traduziu em projetos pedagógicos que valorizavam a identidade negra, a ancestralidade e as manifestações culturais afro-brasileiras, abrindo espaço para que crianças e adolescentes se reconhecessem em suas próprias histórias.

Hoje, Kiusam de Oliveira é referência nacional na implementação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, um marco civilizatório que carrega o eco de sua voz e de tantas outras educadoras negras que ousaram ensinar o que o racismo tentou apagar.

Literatura e memória afro-brasileira

Kiusam de Oliveira se tornou uma das mais importantes autoras negras da literatura infantil e juvenil contemporânea, traduzida em diversos idiomas e estudada em escolas do Brasil e do exterior. “Eu comecei a escrever porque eu não me via nos livros. Não existiam meninas pretas, mães pretas, princesas pretas. Eu escrevi para preencher o vazio que o racismo deixou”, afirmou.

Obras como Omo-Oba: Histórias de Princesas, O Black Power de Akin, Solfejos de Fayola, Mãos e Com qual penteado eu vou? carregam uma força simbólica que transcende a literatura. “Eu escrevo porque a literatura também é um quilombo. É um espaço onde a gente se fortalece, se reconhece e se cura”, contou.

Em 2025, o reconhecimento por esse legado ganhou mais um capítulo: Kiusam de Oliveira foi semifinalista do Prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do país, na categoria Literatura Infantil com o livro Mãos (Companhia das Letrinhas). A obra, que trata de diversidade familiar, representatividade e afeto, a colocou entre os dez títulos mais importantes lançados no último ano, reafirmando o lugar de Kiusam de Oliveira como uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea.

Kiusam de Oliveira - ABc Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O novo reconhecimento soma-se a uma trajetória já consagrada por importantes premiações. Kiusam venceu o Prêmio ProAC Cultura Negra (2012) com O Mundo no Black Power de Tayó, obra considerada pela ONU um dos dez livros mais relevantes do mundo sobre Direitos Humanos. Também recebeu o Prêmio Cátedra UNESCO por Solfejos de Fayola e Tayó em Quadrinhos (2021), além de distinções como o Selo Altamente Recomendado da FNLIJ por Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009) e o Prêmio Escritores Negros da Biblioteca Nacional por O mar que banha a ilha de Goré (2015).

Durante a entrevista, Kiusam explicou que sua literatura não é apenas uma ferramenta pedagógica, mas uma forma de resistência política e de encantamento coletivo. “Quando uma criança negra lê um livro meu e diz ‘ela parece comigo’, eu sei que já cumpri minha missão. A literatura precisa acolher, precisa fazer sonhar. Porque o racismo rouba até o direito de sonhar, e o que eu faço é devolver esse sonho,” disse.

Leia também: Kiusam de Oliveira é semifinalista do Prêmio Jabuti 2025

A herança que o ABC precisa preservar

Ao longo da entrevista, Kiusam de Oliveira retornou várias vezes à sua terra natal, Santo André, cidade que moldou seus primeiros passos, seus primeiros palcos e suas primeiras lutas. Foi no ABC que ela aprendeu a transformar dor em palavra, corpo em linguagem e fé em movimento. “O ABC é o meu chão. É onde tudo começou. É onde a menina Kiusam descobriu que podia dançar, que podia ensinar, que podia sonhar. É daqui que vem a força que me move até hoje”, recordou.

A escritora ressaltou que a região, historicamente marcada pela luta operária e pela diversidade cultural, também é berço de uma potência intelectual e artística negra que ainda precisa ser mais reconhecida. “O ABC é um lugar de resistência. Aqui tem mulheres pretas incríveis, artistas, professoras, líderes comunitárias, e todas elas fazem a roda girar. Eu sou parte dessa história, e quero que essa história continue sendo contada”, ressaltou.

Entre memórias, histórias e tambores, Kiusam de Oliveira reafirma que a arte é o fio que costura o passado, o presente e o futuro e, que o ABC continua sendo um terreiro fértil onde essa herança cresce, floresce e resiste.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Kiusam de Oliveira - ABc Cast Conexões
Thiago Quirino, Kiusam de Oliveira e Mariana França (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A entrevista com Kiusam de Oliveira foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Mariana França, relações-públicas e assessora de comunicação. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio teve a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Kiusam de Oliveira, pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 18/10/2025
  • Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA