Kiusam de Oliveira: resistência e ancestralidade no ABC Cast Conexões
Escritora e educadora do ABC fala sobre identidade, literatura negra e o poder da arte na transformação social
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 18/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
O mais novo episódio do ABC Cast Conexões mergulhou na história viva e pulsante de uma mulher que transformou dor em potência, e o chão do Grande ABC em território de luta e encantamento. Nascida em Santo André, Kiusam de Oliveira cresceu entre os contrastes da periferia e os sonhos de uma menina que já intuía o peso e a beleza de ser negra em um país que tenta, todos os dias, silenciar corpos como o seu. Professora, escritora, dançarina e militante, ela carrega em sua trajetória quase quatro décadas dedicadas à educação pública antirracista e à educação especial, sempre com os pés firmes na região que a formou.
Durante a entrevista, Kiusam de Oliveira emocionou ao falar sobre o que significa acordar e se reconhecer como mulher negra, filha, mãe e educadora. “Todos os dias, eu acordo e digo, estou viva. Sou uma mulher preta, filha de pais, que me ensinaram o que é dignidade. Tudo o que faço é por eles, por mim e pelos meus ancestrais.”
Com um sorriso sereno e o olhar firme, a escritora lembrou que suas raízes estão profundamente ligadas ao ABC Paulista, região que moldou seu olhar sobre o mundo e sobre as desigualdades. “Santo André me formou. O ABC me ensinou o que é território, o que é luta. Aqui aprendi que o racismo não é uma palavra, é uma estrutura. Mas também aprendi que nós, pretos, temos a força de transformar qualquer estrutura”, afirmou.
Quando o ódio virou chamado: a origem da educadora
A trajetória de Kiusam de Oliveira como educadora nasceu de um gesto de enfrentamento. Ainda jovem, ela entendeu que o racismo não era apenas uma experiência individual, mas uma estrutura que atravessava o cotidiano e que precisava ser combatida com conhecimento. O que começou como indignação se transformou em propósito. “Eu costumo dizer que me tornei professora por vingança. Porque o racismo que eu vivi me feriu profundamente, e eu quis transformar essa dor em luta. Quis ocupar o espaço que tentaram me negar”, contou. Essa ruptura foi o ponto de partida de uma jornada acadêmica e militante que faria da educação sua principal arma de transformação social.

Foi também nesse período que Kiusam se aproximou do Movimento Negro Unificado (MNU), um divisor de águas em sua formação política e pessoal. “O MNU me ensinou que não basta resistir sozinha. A luta é coletiva, e a educação é o instrumento mais poderoso que a gente tem para mudar o mundo. Foi ali que entendi que meu corpo é político e que a sala de aula é também um campo de batalha.” Com a aquisição dessa consciência, Kiusam de Oliveira passou a enxergar a docência como uma missão ancestral, um elo entre a experiência individual e a libertação coletiva e transformou cada aluno em uma semente de reexistência.
Educação e resistência: o nascimento de uma militante
No início da vida adulta, Kiusam de Oliveira encontrou na militância o caminho para transformar sua indignação em ação coletiva. O Movimento Negro Unificado (MNU) foi sua segunda escola. “O MNU me apresentou nomes que mudaram minha vida. Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro… Foi com eles que aprendi que o racismo não se vence com silêncio, mas com consciência e afeto”, diz e completa, “Eu me encontrei no movimento. Descobri que eu não era sozinha, que havia uma história antes de mim, e que eu tinha o dever de continuar escrevendo essa história.”
A educação, para Kiusam, nunca foi apenas uma profissão, mas uma forma de cura, ela enxergou na sala de aula o espaço sagrado onde o conhecimento poderia restaurar a dignidade de corpos historicamente violentados. “Quando eu entro em sala de aula, eu não levo só o conteúdo. Eu levo todos os meus ancestrais. Porque ensinar, pra mim, é um ato espiritual”, ressaltou.
A relação entre a fé e a prática pedagógica se tornou o eixo central de sua atuação como educadora antirracista uma fusão de intelecto, emoção e ancestralidade. Nesse mesmo período, Kiusam de Oliveira passou a estudar com profundidade as religiões de matriz africana, reconhecendo nelas o alicerce cultural que sustenta sua identidade. “Eu entendi que ser negra é ser herdeira de uma sabedoria que o mundo tentou apagar. Quando eu danço, quando eu escrevo, quando eu ensino, estou cultuando a minha ancestralidade”, afirma Kiusam.
A sala de aula como território de luta
A sala de aula foi o espaço onde Kiusam de Oliveira fincou suas raízes mais profundas. São três décadas dedicados à educação pública, com foco na educação especial e na educação antirracista, em escolas do Grande ABC e da capital paulista. Para ela, cada turma era um novo quilombo de resistência. “Eu entrei no magistério muito jovem, e foi ali que percebi o quanto a escola é um campo de disputa. O racismo está dentro das instituições, e é lá que a gente precisa combatê-lo.”
Kiusam fez da docência um ato político e coletivo. Para ela, ensinar é convocar consciências e reescrever histórias que a sociedade tentou apagar. “A educação é o único caminho para libertar o nosso povo”, resumiu.

Essa filosofia se traduziu em projetos pedagógicos que valorizavam a identidade negra, a ancestralidade e as manifestações culturais afro-brasileiras, abrindo espaço para que crianças e adolescentes se reconhecessem em suas próprias histórias.
Hoje, Kiusam de Oliveira é referência nacional na implementação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, um marco civilizatório que carrega o eco de sua voz e de tantas outras educadoras negras que ousaram ensinar o que o racismo tentou apagar.
Literatura e memória afro-brasileira
Kiusam de Oliveira se tornou uma das mais importantes autoras negras da literatura infantil e juvenil contemporânea, traduzida em diversos idiomas e estudada em escolas do Brasil e do exterior. “Eu comecei a escrever porque eu não me via nos livros. Não existiam meninas pretas, mães pretas, princesas pretas. Eu escrevi para preencher o vazio que o racismo deixou”, afirmou.
Obras como Omo-Oba: Histórias de Princesas, O Black Power de Akin, Solfejos de Fayola, Mãos e Com qual penteado eu vou? carregam uma força simbólica que transcende a literatura. “Eu escrevo porque a literatura também é um quilombo. É um espaço onde a gente se fortalece, se reconhece e se cura”, contou.
Em 2025, o reconhecimento por esse legado ganhou mais um capítulo: Kiusam de Oliveira foi semifinalista do Prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do país, na categoria Literatura Infantil com o livro Mãos (Companhia das Letrinhas). A obra, que trata de diversidade familiar, representatividade e afeto, a colocou entre os dez títulos mais importantes lançados no último ano, reafirmando o lugar de Kiusam de Oliveira como uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea.

O novo reconhecimento soma-se a uma trajetória já consagrada por importantes premiações. Kiusam venceu o Prêmio ProAC Cultura Negra (2012) com O Mundo no Black Power de Tayó, obra considerada pela ONU um dos dez livros mais relevantes do mundo sobre Direitos Humanos. Também recebeu o Prêmio Cátedra UNESCO por Solfejos de Fayola e Tayó em Quadrinhos (2021), além de distinções como o Selo Altamente Recomendado da FNLIJ por Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009) e o Prêmio Escritores Negros da Biblioteca Nacional por O mar que banha a ilha de Goré (2015).
Durante a entrevista, Kiusam explicou que sua literatura não é apenas uma ferramenta pedagógica, mas uma forma de resistência política e de encantamento coletivo. “Quando uma criança negra lê um livro meu e diz ‘ela parece comigo’, eu sei que já cumpri minha missão. A literatura precisa acolher, precisa fazer sonhar. Porque o racismo rouba até o direito de sonhar, e o que eu faço é devolver esse sonho,” disse.
Leia também: Kiusam de Oliveira é semifinalista do Prêmio Jabuti 2025
A herança que o ABC precisa preservar
Ao longo da entrevista, Kiusam de Oliveira retornou várias vezes à sua terra natal, Santo André, cidade que moldou seus primeiros passos, seus primeiros palcos e suas primeiras lutas. Foi no ABC que ela aprendeu a transformar dor em palavra, corpo em linguagem e fé em movimento. “O ABC é o meu chão. É onde tudo começou. É onde a menina Kiusam descobriu que podia dançar, que podia ensinar, que podia sonhar. É daqui que vem a força que me move até hoje”, recordou.
A escritora ressaltou que a região, historicamente marcada pela luta operária e pela diversidade cultural, também é berço de uma potência intelectual e artística negra que ainda precisa ser mais reconhecida. “O ABC é um lugar de resistência. Aqui tem mulheres pretas incríveis, artistas, professoras, líderes comunitárias, e todas elas fazem a roda girar. Eu sou parte dessa história, e quero que essa história continue sendo contada”, ressaltou.
Entre memórias, histórias e tambores, Kiusam de Oliveira reafirma que a arte é o fio que costura o passado, o presente e o futuro e, que o ABC continua sendo um terreiro fértil onde essa herança cresce, floresce e resiste.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Kiusam de Oliveira foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Mariana França, relações-públicas e assessora de comunicação. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio teve a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Assista ao episódio completo:
Além do canal no YouTube, a entrevista com Kiusam de Oliveira, pode ser acessada pelo Spotify, Deezer, Amazon Music e também no Apple Podcasts.