Kidzhouse Festival tem desafios a superar e não atende expectativas
Cobertura especial pelo ABCdoABC no primeiro dia em que o Kidzhouse, o “Rock in Rio das Crianças”, chegou à capital paulista.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 05/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
São Paulo se tornou palco do Kidzhouse Festival 2025 nos dias 3, 4 e 5 de outubro, evento infantil de grande porte que promete unir música, arte e diversão nos moldes de um “Rock in Rio das Crianças”.
Estivemos presentes no primeiro dia do festival e destacamos abaixo as impressões que coletamos, com base na nossa experiência como espectadores e ouvintes atentos, especialmente em relação ao equilíbrio entre a ambição do projeto e sua execução prática.
Apesar de críticas, vamos trazer, primeiro, os pontos positivos e principais diferenciais do evento.
Pontos positivos do festival
O Kidzhouse demonstrou preocupação em entregar ambiente mais inclusivo e acolhedor para crianças e famílias com diferentes necessidades:
Acessibilidade em libras e inclusão ativa do intérprete

Um dos pontos que mais nos chamaram atenção foi a presença de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) no palco onde aconteciam os shows. Muitas vezes, o intérprete foi incorporado à própria interação com o público infantil, sendo convidado a ensinar alguns sinais às crianças, prática rara em eventos de grande porte, e de grande valor simbólico e prático.
Sala de acolhimento para crianças com TEA
Para famílias que trazem crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi disponibilizada uma sala de acolhimento, um espaço pensado para receber e apoiar essas crianças nos momentos de sobrecarga sensorial ou cansaço.
Pontos de hidratação e diversidade alimentícia
O Kidzhouse conta com estações de água distribuídas no local, o que ajuda no conforto do público em um dia de calor e atividade intensa. Também vimos uma oferta de lanches simples e opções de comida como arroz, frango, que vão além de frituras ou comidas não saudáveis.
Limites e críticas: as “areias movediças” da estrutura
Alguns problemas práticos geraram desconforto e indignação entre os visitantes. A seguir, sintetizamos os principais pontos negativos observados, bem como relatos de pais e leitores:
Cartão pré-pago e trocas confusas
Além do ingresso de entrada, para adquirir alimentos e bebidas dentro do Kidzhouse Festival era necessário adquirir um cartão de R$ 8,00 (taxa única), recarregável no local. Em muitos casos, só no momento de efetuar o pedido as pessoas descobriam essa exigência, o que gerou situações desconfortáveis, especialmente quando já haviam enfrentado filas para escolher o lanche.
Além disso, havia a promessa de que, ao final do evento, seria possível trocar o saldo remanescente por uma água. Essa opção foi divulgada, mas não evitou a sensação de que o público ficou “refém” de um mecanismo de crédito prévio pouco transparente.
Falta de SAC e dificuldade de atendimento ao público
Outro ponto que causou insatisfação entre os visitantes foi a ausência de um canal de atendimento ao consumidor (SAC) do Kidzhouse. Em casos de dúvidas, reclamações ou problemas durante o evento, não havia um espaço físico ou número de suporte indicado.
Muitos frequentadores relataram ter sido orientados a buscar ajuda apenas por meio das redes sociais do festival, onde as respostas não aconteciam.
O advogado Jorge Henrique Nunes Pinto, por exemplo, afirmou que tentou contato após uma série de problemas e não recebeu retorno.
“Pedi para ser direcionado ao SAC, me falaram que deveria falar pelo Instagram. No entanto, não responderam no direct, apagaram meu comentário no post e me bloquearam na rede social”, contou.
A ausência de um canal de comunicação formal impede que consumidores registrem queixas ou solicitem reembolso, o que fere o direito básico à informação e à transparência previsto no Código de Defesa do Consumidor.
Banheiros pouco equipados e trocadores escassos
Em um festival, como o Kidzhouse, com expectativa de milhares de visitantes, inclusive muitas famílias com bebês e crianças pequenas, constatou-se que os banheiros tinham apenas um trocador por unidade, o que naturalmente é insuficiente para a demanda. Isso levou a filas e espera em um momento de necessidade básica.
Falta de clareza na comunicação da equipe
A equipe de apoio do evento, em diversos momentos, mostrou-se pouco informada ou incapaz de responder perguntas comuns do público. Essa falta de comunicação eficiente fragiliza a confiança dos visitantes que buscam orientação ou solução para imprevistos durante o dia.
Restrição de alimentos para entrada
Outro detalhe que angustiou muitos pais: havia um limite de até três alimentos permitidos para entrada no local. Essa restrição não era amplamente divulgada com clareza, o que faz com que famílias que pretendiam trazer lanches próprios se deparassem com surpresas desagradáveis na hora de entrar.
Relato um leitor sobre o evento
Além das observações in loco pelo ABCdoABC, recebemos a mensagem de Jorge Henrique, um leitor do portal, que foi ao evento e passou por situações que fogem do simples desconforto, para o campo da indignação. A íntegra da mensagem mostra como alguns imprevistos se transformaram em conflitos no Kidzhouse:
“Desorganização do princípio ao fim: mais de meia hora de atraso para iniciar; após os shows ninguém da produção sabia informar quando e se haveria espaço para fotografias. Formou-se fila por mais de uma hora esperando um youtuber (Gato Galático) para tirar fotos, anunciado no site — e, em seu lugar, veio um boneco fantasiado para a fotografia. Clássica propaganda enganosa.
Na hora da fotografia com os personagens, os responsáveis simplesmente interromperam as sessões no meio, enquanto era a vez da minha filha. O responsável disse que era terceirizado e ‘não tinha nada a ver com a organização’. Mandou os personagens virarem de costas (tenho foto da minha filha com cara de tacho).
Realmente faltam trocadores. Achei a parte da comida muito desorganizada: você precisa comprar um cartão para usar na alimentação em “caixas ambulantes”, mas isso não é informado. E como é tudo lotado, a pessoa entra na fila sem saber que não poderá comprar lá depois.
O cardápio é único para todos os stands, mas cada stand vende apenas um item, gerando várias filas diferentes. Pedi para ser direcionado ao SAC, disseram que falasse pelo Instagram, mas não responderam, apagaram meu comentário e me bloquearam.”
Além desse relato enviado ao ABCdoABC, há comentários nas redes sociais do evento com reclamações sobre a falta de comida, falta de organização nos meet and greet (encontro com os personagens e atrações).
Entramos em contato com a assessoria de imprensa, mas até o momento de publicação não tivemos resposta.
Programação, proposta e ambições do Kidzhouse

Para quem ainda não está familiarizado com o Kidzhouse, vale recapitular os elementos centrais que o diferenciam de outros eventos infantis:
Duração e abrangência: o festival ocorreu até o dia 5 de outubro e oferece cerca de 20 horas de programação divididas em cinco sessões temáticas, com shows de nomes como Palavra Cantada, Galinha Pintadinha, Maria Clara & JP, TurmaTube, Gato Galáctico, Bento & Totó, Marcela Jardim, entre outros.
Espaços interativos: há áreas como Camarim Kids, Biblioteca Encantada, oficinas criativas, áreas de aventura e praça de alimentação temática, além do encontro com personagens: Bob Esponja, Patrulha Canina, Dora Aventureira, Hello Kitty, Peppa Pig, Lady Bug, Tartarugas Ninja.
Princípio central: o lema do Kidzhouse Festival é “menos tela, mais mundo real”. A ideia é promover experiências reais e presenciais que aproximem pais e filhos, com jogos, leitura e atividades conjuntas, longe do universo digital.
Escalabilidade futura: em apenas três anos, o Kidzhouse afirma ter construído um ecossistema de shows, conteúdo, licenciamento e ativações de marca, e já planeja uma turnê nacional em 2026.
Valores e ingresso: ingressos individuais partem de R$ 99, há combo família por R$ 349, e crianças até 2 anos não pagam.
Essa ambição expansiva é louvável e condiz com o caráter inovador do festival, mas a execução precisa acompanhar.
Iniciativas sociais:
- De Olho nos Olhinhos: consultas oftalmológicas gratuitas para crianças em idade escolar.
- Ingresso Solidário: permite que o público doe brinquedos em bom estado e receba descontos no ingresso, com os brinquedos destinados a crianças carentes.
Análise final: brilho e rachaduras
O Kidzhouse Festival 2025, no seu lançamento em São Paulo, já demonstra uma dualidade marcante: por um lado, oferece espaços de inclusão, oferta artística rica e uma proposta acolhedora para famílias. Por outro, revela falhas de logística, comunicação e previsibilidade que comprometem a experiência.
O esforço para tornar o evento acessível, especialmente com intérpretes de libras e sala para TEA, é um diferencial. No entanto, o sistema de alimentação pouco transparente, os trocadores escassos, a comunicação deficiente e os relatos contundentes do público indicam que há uma desconexão entre promessa e prática.
Para que o Kidzhouse vá além de uma vitrine bem preparada e se torne referência sólida, será essencial que os organizadores absorvam essas críticas e atuem de forma rápida e transparente. Ajustes na infraestrutura, mecanismos de feedback eficazes e maior clareza para o público são urgentes. Afinal, uma criança decepcionada com uma foto interrompida ou uma fila exaustiva quebra parte dessa “magia” que o festival pretende cultivar.