Kannon, símbolo budista da compaixão, impulsiona turismo em Ribeirão Pires
Espaço de paz e contemplação, a Torre de Miroku abriga escultura de 8 metros de Kannon e se fortalece como símbolo cultural no Grande ABC
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 28/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
A imigração japonesa no Brasil começou oficialmente em 1908 com a chegada do navio Kasato Maru a Santos, trazendo 781 imigrantes em busca de melhores condições de vida. Estabelecidos principalmente em São Paulo e no Paraná, os japoneses contribuíram para o desenvolvimento agrícola, educacional e cultural.
A imigração japonesa é um marco na história do Brasil e inspira espaços culturais dedicados a suas tradições. Um deles é a Torre de Miroku, localizada em Ribeirão Pires, aqui no Grande ABC, que abriga a maior estátua de Kannon — um verdadeiro ponto de encontro entre espiritualidade e herança cultural nipônica.
Torre de Miroku

No Oriente, torres sagradas — ou pagodes — são frequentemente construídas para abrigar relíquias espirituais e se tornam representações do divino. Segundo Eliane Nakahashi, ministra religiosa do Templo Luz do Oriente e coordenadora do Complexo Torre de Miroku, “O Complexo Torre de Miroku, localizado em Ribeirão Pires (SP), foi idealizado pelo Reverendo Minoru Nakahashi, fundador do Templo Luz do Oriente, como um modelo do Mundo de Miroku — um mundo pautado pela Verdade, Virtude e Beleza. O projeto nasceu do desejo de criar um espaço que promovesse a elevação espiritual e a conexão com o sagrado, especialmente com a divindade Kannon, associada à compaixão e à misericórdia. A construção foi realizada com o esforço coletivo dos membros do Templo, que contribuíram com dedicação, tempo e recursos para tornar esse ideal uma realidade”, A construção nasceu do ideal de proporcionar à comunidade um ambiente de paz, harmonia e conexão com valores universais.
Conheça Kannon

O monge Daiko Krauss, que trabalha na Comunidade Zen Budista, fundada pela monja Coen Roshi, explica que “Kannon é uma figura que tem origem na Índia, onde era chamada em sânscrito de Avalokitesvara Bodisatva – o ser iluminado da Pura Compaixão. Representa a bondade e a compaixão como forças sagradas da natureza”, explica. “Em japonês, ‘Kan‘ significa ‘ver’ e ‘On‘ são os ‘sons’. Seu nome significa Aquele/Aquela capaz de ver os sons do mundo. Representa a capacidade de ver e ouvir os lamentos do mundo e atender às necessidades verdadeiras para o bem de todos. Embora não seja uma figura nem masculina nem feminina, na Índia e no sul da Ásia costuma ser vista com traços mais masculinos, enquanto no Extremo Oriente assume uma representação mais feminina e é solicitada muitas vezes como uma grande mãe.”

Kannon não é considerada uma deusa ou divindade. ‘Bodhi‘ significa ‘iluminação’ e ‘satva’ é ‘ser’, representando não uma figura específica, mas um estado que pode ser despertado em cada pessoa. “Quando cultivamos compaixão e bondade puras, nos tornamos imunes ao mal e ao sofrimento, e verdadeiros milagres podem ocorrer com a transformação da mente para o bem.”. E foi essa a impressão que Leonardo Machado sentiu ao comtemplar a escultura, “Passa uma sensação de paz imediata. A gente realmente se sente em outro ritmo ali dentro.”
É comum encontrar representações de Kannon nos lares japoneses, seja em pinturas, gravuras, esculturas, caligrafias, amuletos ou folhetos. Assim como na tradição católica existem diversas versões de Nossa Senhora — todas manifestações de Maria — no Budismo, há inúmeras formas de Kannon, moldadas conforme os tempos, lugares e necessidades espirituais de seus devotos.

Essa figura é frequentemente retratada com vários braços, cada um realizando uma ação distinta: oferecendo ensinamentos, empunhando uma lâmina que corta o mal ou segurando um remédio para a cura. Em outras representações, Kannon possui inúmeros olhos, simbolizando sua capacidade de enxergar, de forma profunda e abrangente, os sofrimentos do mundo.
A Torre de Miroku abriga a escultura que possui 8 metros de altura, incluindo um aro dourado atrás de sua cabeça, representando o Sol, símbolo de luz e renovação espiritual.
Kannon é a parte central da devoção do Templo, simbolizando a força compassiva que acolhe, protege e guia. Sua representação na Torre expressa a reverência dos fiéis e serve como um convite à meditação e ao despertar interior. Segundo Eliane Nakahashi “após a entronização da imagem de Kannon na Torre, soubemos de uma história contada por uma moradora da cidade: há mais de 30 anos, existia um grupo de oração devotado a Kannon em um dos bairros da cidade. Ela acompanhava sua avó nesses encontros mensais, mas não se lembra do nome da cerimônia nem da religião — apenas que era dedicada a Kannon. Isso nos tocou profundamente, pois, para nós, não se trata de coincidência. Acreditamos que essa antiga devoção já preparava espiritualmente o caminho para que um espaço como a Torre de Miroku fosse construído aqui, em solo de Ribeirão Pires.”
Cerimônia
Mensalmente, é realizado um cerimonial na Torre de Miroku, durante o qual são feitas orações de gratidão e pedidos de proteção. Trata-se de um momento marcado pelo silêncio, pelo recolhimento e por uma profunda conexão espiritual. As celebrações especiais promovidas pelo Templo Luz do Oriente são realizadas nas unidades Sede e Pacaembu, localizadas na cidade de São Paulo.
Para o monge Daiko Krauss no pedido de oração“Oferecemos nossas preces carregadas de intenção, luz de velas, incensos, flores, água pura e sobretudo nossa maneira de viver à Kannon. Que nossa vida possa beneficiar outras vidas e estar em comunhão com as forças universais do bem e da ternura, capazes de transformar o mal do mundo.” e completa, “Todos os seres são dignos do mesmo cuidado e respeito, pois todos os seres são igualmente sagrados – por isso Kannon é venerada como a grande compaixão universal, que acolhe às dores e aos lamentos de todos, sem distinções, capaz de atender necessidades verdadeiras. “
É por isso que Kannon é tão importante para aqueles que são devotos ou querem seguir com seus ensinamentos, “Como Kannon pode se manifestar em qualquer forma, época ou consciência, não há uma preocupação com que esteja confinada aos valores do Budismo. Por ser uma característica da mente humana, pode aparecer em todo ser humano – e por ser um aspecto da natureza, se manifesta em todas as formas de vida. O ser que cuida são os olhos e as mãos de Kannon no mundo – e quem cuida de si e do mundo vive alegre e em paz. Por isso dizemos que a compaixão é universal. O coração de compaixão se abre para incluir todas as formas de vida com sabedoria, percebendo que todas as inúmeras formas de vida formam uma única vida: a sua própria vida”, conclui o monge Daiko Krauss
Visitação

Anualmente, cerca de 10 mil pessoas visitam o Templo e a Torre de Miroku, entre participantes das cerimônias, grupos organizados e visitantes ocasionais. Para quem nunca foi, o espaço é um refúgio para quem busca paz e harmonia. Quem já visitou recomenda: “Achei a visita guiada um diferencial. Além de contextualizar o espaço, traz explicações profundas sobre os rituais e o simbolismo, o que torna a experiência mais completa”, diz Leonardo Machado. “É um lugar que vale muito a pena conhecer – é bonito, bem cuidado e proporciona uma experiência fora do comum”, completa o publicitário que já visitou a Torre duas vezes.
O acesso ao complexo é feito exclusivamente por meio do barco Koryu, que realiza o traslado pela represa Billings até a Torre de Miroku, com saídas a partir do Tahiti Náutica Club, em Ribeirão Pires.
Informações sobre o traslado:
• Valor: R$ 48,00 por pessoa
• Duração: Aproximadamente 1h50
• Saídas: 9h30, 10h10, 10h50, 11h30, 12h30 e 13h
• Local de embarque: Avenida Palmira, 450 – Represa, Ribeirão Pires – SP
• Estacionamento no local • É necessário chegar com 30 minutos de antecedência • O agendamento é obrigatório: o barco possui vagas limitadas e a visitação não acontece todos os fins de semana
