Julho Roxo: nova terapia reduz volta do câncer de bexiga
Nova terapia aprovada pela Anvisa reduz em 60% o risco de retorno do câncer de bexiga; campanha nacional alerta para o tabagismo
- Publicado: 14/07/2026 15:48
- Alterado: 14/07/2026 15:48
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
O mês de julho é marcado pela campanha Julho Roxo, voltada para a conscientização sobre o câncer de bexiga. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 11.370 novos casos da doença neste ano. Desse total, a estimativa é de 7.870 ocorrências em homens e 3.500 em mulheres.
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo protocolo para pacientes com câncer de bexiga avançado. O tratamento combina duas classes de medicamentos: o anticorpo conjugado enfortumabe vedotina e a imunoterapia pembrolizumabe.
A aprovação foi baseada em estudos apresentados no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) de 2026. Os resultados mostraram redução de 60% no risco de recorrência do tumor, progressão da doença ou morte no período antes, durante e após a cirurgia.

Segundo a diretora médica da Pfizer Brasil, Dra. Adriana Ribeiro, os dois medicamentos atuam de forma complementar.
” O enfortumabe vedotina é um anticorpo conjugado a um agente citotóxico que se liga à proteína Nectina-4, entregando o tratamento diretamente às células tumorais. Já o pembrolizumabe é uma imunoterapia que estimula o sistema imunológico do paciente a reconhecer e combater o câncer. Em conjunto, essas abordagens podem ampliar a atividade antitumoral e favorecer respostas mais profundas e duradouras “, esclarece a diretora médica.
A aprovação da Anvisa vale para pacientes com câncer urotelial localmente avançado ou metastático e também para aqueles que não podem receber quimioterapia à base de cisplatina. Como outros tratamentos oncológicos, a terapia pode provocar efeitos colaterais e exige acompanhamento médico.
“O perfil de segurança observado para a combinação foi consistente com o já conhecido para cada medicamento individualmente, sem novos sinais relevantes de segurança identificados nos estudos clínicos apresentados até o momento. Entre os eventos adversos mais frequentemente associados ao tratamento estão reações cutâneas, fadiga, neuropatia periférica, alterações gastrointestinais e alterações laboratoriais”, diz a médica.
A Pfizer prevê lançar o tratamento para a classe médica em agosto de 2026. Depois disso, a oferta para pacientes de planos de saúde deve ocorrer gradualmente, conforme as regras de cobertura das operadoras. Para quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS), ainda não há previsão de disponibilização.

“Neste momento, o tratamento não está disponível no SUS e não há definição ou cronograma público a ser compartilhado em relação a uma eventual submissão para avaliação de incorporação ao sistema público”, afirma Adriana Ribeiro.
A chegada de novas opções terapêuticas é considerada importante porque o câncer de bexiga músculo-invasivo está entre as formas mais agressivas da doença. Esse quadro ocorre quando o tumor deixa a camada superficial do órgão e invade a parede muscular.
Cerca de um terço dos pacientes apresenta esse tipo de tumor. Nesses casos, o tratamento costuma incluir a cistectomia radical, cirurgia que remove completamente a bexiga. Mesmo após o procedimento, o risco de retorno da doença continua elevado.
“O câncer de bexiga músculo-invasivo representa uma forma mais agressiva da doença, com maior risco de progressão, recorrência e desenvolvimento de metástases. Embora a cirurgia seja um componente fundamental do tratamento, aproximadamente metade dos pacientes pode enfrentar o retorno do câncer mesmo após o procedimento de retirada do órgão”, explica Adriana Ribeiro.
O câncer de bexiga começa nas células que revestem o interior do órgão e é dividido em três tipos principais.
O carcinoma de células de transição é o mais comum e surge no tecido que se expande e se contrai conforme o enchimento da bexiga. O carcinoma de células escamosas é menos frequente e costuma estar relacionado a inflamações e infecções urinárias crônicas. Já o adenocarcinoma é raro e tem origem em células com funções glandulares.

O principal fator de risco para a doença é o tabagismo. As substâncias tóxicas do cigarro são absorvidas pelo organismo, filtradas pelos rins e eliminadas pela urina. Como a bexiga armazena essa urina por horas, sua parede interna fica exposta continuamente a esses compostos.
A exposição ocupacional a produtos químicos também aumenta o risco da doença. Trabalhadores de fundições de alumínio, indústrias de borracha, pintores profissionais e pessoas que lidam com arsênio, corantes industriais e radiações ionizantes, como raios X e gama, apresentam maior incidência desse tipo de câncer.
Para a Dra. Adriana Ribeiro, os avanços das terapias-alvo e da imunoterapia vêm mudando o tratamento da doença.
“A oncologia vive um momento de transformação importante e o câncer de bexiga acompanha essa evolução. Um dos avanços mais promissores é justamente a expansão do uso de terapias-alvo e imunoterapias para estágios cada vez mais precoces da doença, buscando aumentar as chances de cura e reduzir o risco de recorrência.”
Entre 2019 e 2022, o câncer de bexiga provocou mais de 19 mil mortes no Brasil. No mesmo período, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou mais de 110 mil internações por neoplasia maligna da bexiga, números que reforçam a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.