Julgamento sobre tentativa de golpe: veja os principais destaques da semana

A semana de julgamento teve convite inesperado, quase prisões e até uma acusação de tentativa de fuga

Crédito: Gustavo Moreno/STF

O término dos depoimentos na ação que investiga o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e mais sete réus por tentativa golpe de Estado, deram um tom ameno com direito a friozinho na barriga e muitas dúvidas, após às outivas realizadas entre a segunda e terça-feira, na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).

A etapa inicial é parte da investigação estruturada junto a Procuradoria Geral da República (PGR), do chamado “núcleo crucial”, que interrogou oito acusados de terem tentado dar um golpe, de modo a impedir a posse do presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva (PT). Na etapa final das outivas, foram ouvidos diante do ministro Alexandre de Moraes os seguintes nomes: Mauro Cid, Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto.

Em uma semana marcada por fortes emoções no cenário político brasileiro, tivemos um início que se desenhou com a expectativa de um grande embate entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Entretanto, o que se viu foi a faceta mais moderada do ex-presidente, com direito a piadinhas e até pedidos de desculpas ao seu algoz.

Na avaliação da maior parte dos analistas, a performance de Jair Bolsonaro foi considerada fraca, até mesmo para influenciadores aliados. Diante de um cenário de total ojeriza na figura de Moraes, o ex-presidente chegou a brincar ao convidá-lo para sua chapa eleitoral como vice em 2026. A cena não foi bem recebida entre a base aliada, que mais parecia aceitar a condenação sem enfrentamentos diretos, de maneira passiva, quase subserviente.

Por outro lado, que esperou com por um clima de animosidade, foi surpreendido pela maneira serena que as outivas se desenrolaram, e claro, por momentos que pitorescos que certamente ficarão marcados na história da política nacional brasileira.

Dentre os destaques tivemos desde o ex-presidente convidando em tom jocoso o ministro Alexandre de Moraes para ser seu vice nas eleições de 2026, como até mesmo na patada recebida pelo general Braga Neto, ao responder se já havia sido preso alguma vez, afirmando já estar encarcerado. Moraes então rebateu: “Sim, eu sei que o senhor já está, fui eu mesmo que decretei [sua prisão]”.

Na esteira nos momentos especiais, houve também o depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), ao afirmar que houve edição na minuta do golpe.

– Ele [Bolsonaro] de certa forma “enxugou” o documento, retirando as autoridades das prisões, somente o senhor (Alexandre de Moraes) ficaria como preso, o resto…[pausa] — disse Cid a Moraes, acrescentando que “ao resto foi concedido habeas corpus“, ironizou antes de cortar a palavra para a risada de Bolsonaro presente ao fundo do plenário.

A sequência de negativas e um jogo do “empurra-empurra” dos homens das forças ficou claro no imbróglio sobre quem teria visto a minuta na apresentação e quem discordou do documento. Foi assim, o depoimento do ex-comandante da Marinha Almirante Almir Garnier que embora tenha confirmado acesso ao documento visto em tela, negou ter colocado as tropas a disposição do ex-presidente, conforme dito pelo general Freire Gomes em depoimento a PF.

Além disso, rechaçou veementemente as falas do ex-comandante da Aeronáutica Tenente Brigadeiro Baptista Júnior, que afirmou ter recebido um envelope do general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa com a “minuta do golpe”, e que tal documento teria sido entregue aos três comandantes das forças (para impedir a posse do presidente eleito).

De acordo com Batista Junior, ao perceber do se tratava o documento, se levantou e foi embora, em depoimento a PF. O Almirante Garnier tratou de negar o ocorrido e complementou que isso não seria compatível com a postura de um comandante de forças. Assim, Garnier deu a sua versão num completo “disse me disse”, ao discordar de ambas as falas ao seu respeito, tanto de Freire Gomes como de Baptista Júnior.

Na questão acerca da famosa “minuta do golpe”, o ex-presidente escorregou nas palavras ao sem querer revelar ter tido acesso apenas na introdução e conclusão do documento, e que, entretanto, o mesmo teria sido exibido ou apresentado em uma tela de televisão, mas demonstrado de forma rápida.

Ao ser questionado sobre a edição do documento, na expressão utilizada pelo réu e colaborador, o Tenente Coronel Mauro Cid afirmou que Bolsonaro teria “enxugado” a minuta. Neste escopo o ministro Moraes inquiriu o ex-presidente sobre o tema, que respondeu:

— Eu queria ter acesso a essa minuta – afirmou Bolsonaro antes de Moraes complementar que “a minuta esta[va] nos autos”.

— Mas não tem um “cabeçalho” [introdução] nem um “fecho”, deve ter os “considerandos” [justificativas] ali, apenas. Mas a discussão sobre esse assunto já começou sem força de modo que nada foi a frente – revelou Jair Bolsonaro.

A contradição e desconforto (no depoimento) vem logo a seguir, quando perguntado sobre a entrevista coletiva onde o ex-presidente afirmou ter tido acesso a minuta, mas se resumiu ao afirmar que “não procede o enxugamento do documento”, tergiversando da questão.

E o que dizer do papelão (pra dizer o mínimo), que da maneira mais atabalhoada, o ex-ministro de Justiça e delegado Anderson Torres, tentando miseravelmente justificar sua fala baseando-se em desinformação e fofocas.

Ao abrir aspas na fala de Torres, o ministro-relator Moraes fez questão de ler todas as citações comprometedoras nas aspas ditas, em voz alta:

— Se meta [comigo] e eu lhe prendo, se meta e casso o seu mandato […] questione. Quer dizer, a gente não pode questionar? Qualquer um aqui tem medo na hora que digita a senha […] do banco para transferir 300 reais de uma conta (…) [com medo] se essa senha está sendo hackeada? [Então] que dirá um sistema desse tamanho [..] com esse tanto de indício a gente precisa tanto atuar [contra as urnas eletrônicas], disse Moraes ao recitar as falas de Anderson Torres.

Após dizer não se recordar se as informações a disposição eram verdadeiras ou falsas, Moraes então faz apenas uma pergunta retórica antes de destacar um termo técnico contido em sua fala citada.

— O senhor é delegado da Polícia Federal, e o senhor sabe que “indício é um termo técnico para início de provas, ao emendar um perguntem tom incisivo: 

— O senhor tinha [então] algum indício de fraude às urnas? — questionou Moraes.

Assim foi se enredando e até ser constrangido e desmantelado pelo ministro relator.

— Exatamente eu..ministro, eu não tinha […].

Houve também um ponto crucial dentre os depoimentos de Bolsonaro e general Augusto Heleno que, bem mais que uma leitura nas entrelinhas, revela mais que uma boca com equipada com presas e sangue lhe permitiam cuspir.

Durante a outiva de Heleno, que só responderia somente ao seu advogado de defesa, e de pronto seu defensor questionou se ele já havia defendido qualquer atitude ilegal acerca do crime de golpe de Estado. O general prontamente afirmou que “realmente não haviam oportunidades”, e foi logo interrompido por seu representante, pedindo que ele respondesse apenas “sim” ou “não” – causando risadas até do ministro que chegou a brincar com a situação.

— Desta vez não fui eu general Heleno, – afirmou Moraes, arrancando risos dos presentes.

Entretanto, a afirmação que escorregou, se comparada a fala de Bolsonaro sobre o mesmíssimo ponto, trouxe a curiosa semelhança que só viria mais tarde, por meio de uma resposta que ia muito além do que o semblante dizia, e ainda mais explicita quando chegou o momento de Jair Bolsonaro responder ao mesmo questionamento.

— (…) Não tinha clima, não tinha oportunidade e não tínhamos uma base minimamente sólida para seguir..(sic), fazer qualquer coisa – afirmou o ex-presidente.

Ora, mas se as eleições foram concluídas sagrando um vencedor eleito democraticamente, o que mais haveria de se fazer, além de aceitar o resultado ou se poderia meramente cogitar algo diferente?

Acusação de fuga e delação em xeque

Mesmo com um cenário favorável a uma condenação, para a maioria dos especialistas, nos instantes finais da semana, quis o destino nos reservar uma última dose de emoção e dúvida. Em meio aos apontamentos finais e abertura de prazos para contestação, antes dos votos derradeiros para uma sentença seja de condenação ou absolvição, surge uma suposta tentativa de fuga seguida de prisão (depois revogada), de um ex-ministro e aliado de Bolsonaro.

A situação pegou a todos de surpresa, visto que se tratava de um ex-ministro do Turismo, Gilson Machado Neto, figura de menor destaque entre os investigados, que acabou passando desapercebido em meio as investigações da Polícia Federal (PF). E ainda de acordo com informações preliminares da inteligência da PF, a prisão foi em Recife, onde ele teria tentado emitir um passaporte para o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro.

Os acontecimentos serviram para colocar um tempero a mais, gerando até a possibilidade da perda do acordo de delação, além de colocar lenha na fogueira da defesa do ex-presidente Bolsonaro, que pedirá uma anulação do acordo de delação premiada de Mauro Cid.

Na avaliação dos especialistas, nada muda até que se prove o contrário, visto que Mauro Cid já prestou esclarecimentos em novo depoimento, tendo sido liberado pelo ministro Alexandre de Moraes. Entretanto, o surgimento de mensagens vazadas que seriam do tenente-coronel, poderia comprometer a credibilidade das delações. Assim, ainda teriam que ser comprovadas após a revelação da reportagem da revista Veja, que de acordo com a publicação, apontam que Cid mentiu em depoimento ao STF, o que poderia invalidar o seu acordo.

O momento em questão ocorreu durante a outiva desta semana, quando ao ser questionado pelo advogado do ex-presidente Bolsonaro, se conhecia um perfil chamado gabrielar702, o tenente coronel hesitou, quase gaguejando, ao afirmar não saber se era de sua esposa. 

Os interrogatórios encerraram uma etapa derradeira das investigações que apuram sobretudo, o envolvimento do ex-presidente Jair Bolsonaro, como principal mandante de uma trama golpista, tendo agora sido aberto os prazos para recursos e alegações finais.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 14/06/2025
  • Fonte: Sorria!,