Julgamento no STF: desânimo entre bolsonaristas e expectativa na esquerda

Enquanto a esquerda chama o julgamento de marco democrático, apoiadores de Bolsonaro demonstram desânimo e reforçam a defesa do ex-presidente nas redes

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Na manhã desta terça-feira (2), o Supremo Tribunal Federal (STF) deu início ao julgamento da trama golpista, um evento que foi celebrado por integrantes da esquerda e aliados do governo Lula (PT). Em contraste, os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não compareceram à corte, demonstrando um clima de desânimo enquanto tentam defender sua figura nas redes sociais.

Diferentemente da primeira sessão em que Bolsonaro foi declarado réu, quando esteve presente ao lado de parlamentares em um ato político, desta vez nenhum representante bolsonarista se fez presente. Justificativas para a ausência foram dadas, com muitos classificando o julgamento como uma farsa ou um circo.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comentou sobre sua decisão de não participar: “Para que participar dessa farsa? Eu não vou fazer parte desse teatro. O processo é manipulado“, afirmou em entrevista.

Flávio planeja participar de uma audiência na Comissão de Segurança do Senado, onde irá se reunir com Eduardo Tagliaferro, crítico do ministro Alexandre de Moraes, de quem foi assessor. Após a audiência, ele deve visitar seu pai, que cumpre prisão domiciliar.

Embora alguns parlamentares bolsonaristas tivessem se credenciado para comparecer ao julgamento, ninguém apareceu. Enquanto o julgamento era iniciado por Moraes, membros da oposição se reuniam na casa do líder Zucco (PL-RS), que também havia se credenciado mas optou por não ir ao tribunal.

Nas redes sociais, a hashtag #Bolsonarofree começou a ganhar força entre os apoiadores do ex-presidente. Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, divulgou um vídeo convocando a população para um ato programado para 7 de Setembro. Ele declarou: “Não estamos diante de um julgamento justo, mas sim de um jogo de cartas marcadas. O Brasil não ficará em silêncio; no dia 7 de setembro, as ruas estarão cheias em uma grande manifestação democrática”.

O clima entre os bolsonaristas é marcado pelo desânimo devido à expectativa de condenação iminente do ex-presidente. Segundo informações, Bolsonaro já parece estar ciente das consequências que poderá enfrentar. Com penas que podem ultrapassar 40 anos, seus aliados esperam que haja ao menos alguma redução nas sentenças.

Além disso, eles buscam articular medidas como sanções dos Estados Unidos ou ações políticas que promovam o projeto de lei de anistia aos condenados no dia 8 de janeiro, o que incluiria Bolsonaro.

Nos últimos dias, as mobilizações em apoio a Bolsonaro têm sido menores e limitadas à proximidade do condomínio onde ele reside no Jardim Botânico, em Brasília. No último domingo (31), uma carreata barulhenta foi realizada e na segunda-feira houve uma reunião de oração.

Por outro lado, a esquerda considera o início do julgamento como um marco histórico e uma defesa da democracia — uma mensagem frequentemente reforçada pelo governo Lula após os ataques golpistas ocorridos em janeiro deste ano. A ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) descreveu o processo como um “encontro marcado com a democracia“, acrescentando que “a Justiça terá a palavra final”. O líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (CE), enfatizou que ninguém deve escapar das consequências por ameaçar a democracia e as instituições.

A sessão inaugural do julgamento teve início às 9h e contou com a presença do líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ), além das deputadas Jandira Feghali (PC do B-RJ) e Fernanda Melchiona (PSOL-RS). Jandira ressaltou a importância do julgamento como uma lição global sobre os riscos à democracia no Brasil.

Lindbergh expressou ceticismo quanto à possibilidade de aprovação do projeto de anistia após as condenações no STF. Ele observou que tal proposta enfrenta resistência não apenas da esquerda mas também dentro do centrão e principalmente do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). “Não aceitamos discutir anistia; esse debate será abordado esta semana e crescerá após o julgamento“, afirmou Lindbergh.

Ainda sobre o assunto, ele criticou Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, por sua declaração sobre conceder indulto a Bolsonaro caso seja eleito presidente. “Essas declarações soam como provocações infelizes”, finalizou Lindbergh.

Tarcísio é considerado um dos principais nomes na disputa pela sucessão presidencial e tem intensificado suas agendas políticas nos últimos tempos. Embora tenha inicialmente afirmado que não viajaria a Brasília durante o julgamento, acabou por mudar sua decisão e esteve presente na capital federal nesta terça-feira.

A convite do ministro Moraes, Enea Stutz, ex-presidente da Comissão da Anistia e professora da Universidade de Brasília, também compareceu ao julgamento. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela expressou sua emoção ao ver um julgamento descrito como histórico e tranquilo: “O Judiciário deve se posicionar firmemente na defesa da democracia e responsabilizar aqueles que violam direitos humanos”.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 02/09/2025
  • Fonte: FERVER