No ano em que cineasta completaria 80 anos, Itaú Cultural Play estreia mostra 5 vezes Carlos Reichenbach
Seleção traz alguns dos principais filmes do diretor (1945-2012) reconhecido pelo seu cinema autoral que combina erudito e popular. Entre as produções exibidas, estão Alma corsária, vencedor de cinco categorias no Festival de Brasília de 1993, incluindo melhor filme e direção
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 14/07/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
No ano em que Carlos Reichenbach, um dos mais celebrados cineastas brasileiros, completaria 80 anos, a Itaú Cultural Play, plataforma de streaming gratuita do cinema nacional, estreia uma mostra em sua homenagem. No ar a partir de 18 de julho, 5 vezes Carlos Reichenbach traz alguns dos principais filmes do diretor, que foram premiados em eventos como o Festival de Brasília: Alma corsária (São Paulo, 1993), Bens confiscados (São Paulo, 2004), Garotas do ABC (São Paulo, 2004), Falsa loura (São Paulo, 2007) e Lilian M: relatório confidencial (São Paulo, 1975) — este já presente no catálogo.
O acesso à Itaú Cultural Play é gratuito, disponível em www.itauculturalplay.com.br, nas smart TVs da Samsung, LG, Android TV e Apple TV, nos aplicativos para dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast. Você também pode encontrar conteúdo da IC Play nas plataformas Claro TV+ e Watch Brasil.
Um dos destaques da mostra 5 vezes Carlos Reichenbach é Alma corsária (1993), uma das obras mais celebradas do diretor. O filme narra a história dos poetas e amigos de infância Rivaldo Torres e Teodoro Xavier, que lançam um livro escrito a quatro mãos em uma pastelaria no centro de São Paulo. O evento atrai personagens encantadores e incomuns, incluindo familiares, pequenos criminosos, desocupados e trabalhadoras do sexo. A partir dessa cena no presente, a narrativa retrocede aos anos 1950 para recontar a história da amizade entre os dois autores.
Com seu olhar retrospectivo, Reichenbach cria um inventário de toda uma geração e percorre três décadas da história do Brasil, fazendo um elogio à amizade e ao aprendizado amargo e alegre da vida. O longa-metragem foi o grande vencedor do Festival de Brasília de 1993, conquistando as categorias de melhor filme, direção, roteiro, montagem e prêmio da crítica, e é um dos quatro de Reichenbach presente na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
A seleção da IC Play também exibe Falsa loura (2007) último filme dirigido por Reichenbach antes de sua morte. Descrito pelo próprio diretor como um musical brasileiro e proletário, o longa-metragem acompanha Silmara, uma operária de uma fábrica paulistana que sonha em ascender socialmente, interpretada por Rosanne Mulholland. Enquanto equilibra o trabalho, a vida social com suas amigas e os cuidados com o pai ex-incendiário, Silmara se envolve com dois artistas – um cantor pop em início de carreira, papel de Cauã Reymond, e um ídolo da música romântica, vivido por Maurício Mattar –, tirando importantes lições de vida dessas experiências.
A produção é notável por seu elenco feminino forte, que sustenta com maestria uma história de juventude cheia de referências cinematográficas, múltiplas camadas de significado e uma perspicaz crítica social. Pela atuação no filme, Djin Sganzerla foi premiada como melhor atriz coadjuvante no Festival de Brasília de 2007.
Bens confiscados (2004) é considerado um dos melhores filmes brasileiros dos anos 2000. Nele, Carlos Reichenbach constrói um melodrama que expõe os bastidores da política nacional, onde segredos sórdidos, corrupção, adultério e tráfico de influência se entrelaçam sem pudor. A trama centra-se em Serena, enfermeira-chefe de um hospital público no Rio de Janeiro. Amante de um senador da República com quem mantém uma relação não resolvida, ela recebe a visita de um assessor do político após a eclosão de escândalos que ameaçam a reputação dele. Para evitar que a situação fuja ao controle, Serena é encarregada de cuidar do filho secreto do senador, que foi enviado à força para um decadente balneário no litoral gaúcho.
Admirador do cineasta alemão Douglas Sirk (1897-1987), Reichenbach evoca o estilo do mestre do melodrama para confrontar o cinema brasileiro com sua própria história contemporânea. Betty Faria, uma das produtoras, brilha como estrela principal do filme.
Com uma atualidade surpreendente, Garotas do ABC, também lançado em 2004, é um filme provocador que aborda temas como neonazismo, violência policial e preconceito. A trama se passa na região do ABC paulista, historicamente ligada à indústria têxtil e metalúrgica, e acompanha a rotina de um grupo de operárias, suas diversões e aspirações. Entre elas está Aurélia, uma trabalhadora negra, bela e determinada. Sua vida toma um rumo perigoso quando ela se apaixona por Fábio, um jovem branco envolvido com uma gangue neonazista.
A produção, que ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Brasília de 2003, é original em seu roteiro e exibe as marcas registradas do cinema de Reichenbach: a mistura de gêneros, a tensão entre o realismo e a estilização, e as referências a outros filmes e autores, tanto brasileiros quanto estrangeiros. Nela, Selton Mello interpreta um “intelectual” de extrema-direita, ideólogo do grupo de neonazistas da qual Fábio faz parte.
Por fim, a mostra 5 vezes Carlos Reichenbach exibe Lilian M: relatório confidencial (1975),
que também integra a coleção permanente da IC Play Histórias do Cinema Brasileiro, dedicada aos diferentes caminhos que a sétima arte percorreu no país desde sua origem. Segundo longa-metragem do diretor, libertário, provocativo, erótico e político, ele acompanha a jornada de uma mulher do campo que abandona sua família para tentar a vida na metrópole.
Sua ascensão social a leva a se envolver com uma galeria de personagens excêntricos, incluindo um industrial, um empresário alemão que financia a repressão e um jovem burguês agressivo e mimado. Censurado pelo governo militar, que cortou 25 minutos de sua duração original, o filme foi restaurado no final dos anos 2000.
Entre o erudito e o popular
Nascido em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mas trazido pela família ainda bebê a São Paulo, Carlos Reichenbach foi não só cineasta, como também fotógrafo, roteirista e músico. Um dos principais diretores de cinema da chamada Boca do Lixo, polo de produção cinematográfica localizado no centro da capital, que teve seu auge entre as décadas de 60 e 80, ele ficou conhecido pelo seu cinema de autor, marcado pela mistura entre o erudito e o popular.
Com um repertório de filmes premiados em festivais nacionais e internacionais, Reichenbach foi o primeiro a ganhar, em 2001, o Troféu Eduardo Abelin, concedido pelo Festival de Gramado como uma homenagem a cineastas e entidades do audiovisual pelo trabalho feito em benefício do cinema brasileiro. Por trás de suas lentes já estrelaram atores como Betty Faria, Selton Mello, Cauã Reymond, Beth Goulart e Ney Latorraca (1944-2024). Carlão, como era chamado na comunidade cinéfila, morreu em 14 de junho de 2012, dia em que completava 67 anos de idade, deixando um legado de amor pelo cinema e inventividade.
Sinopses dos filmes
Lilian M: relatório confidencial

De Carlos Reichenbach (120 min, São Paulo, 1975)
Classificação indicativa: A16 – Conteúdo sexual
Sinopse: Mulher do campo abandona a família para ir à cidade na companhia de um caixeiro-viajante. Ela quer tentar a vida na metrópole e sua jornada começa quando vira amante de um industrial. No caminho da miséria ao luxo, se envolve com todo tipo de excêntrico, dentre os quais um empresário alemão que financia a repressão, um jovem burguês agressivo e mimado, um grileiro de terras e um detetive.
Alma corsária

De Carlos Reichenbach (111 min, São Paulo, 1993)
Classificação indicativa: 16 – Conteúdo sexual, drogas ilícitas e nudez
Sinopse: Amigos de infância, dois poetas lançam um livro escrito a quatro mãos numa pastelaria, no centro da cidade de São Paulo. Ao evento, comparece um elenco de personagens encantadoras e inusitadas, entre eles familiares, pequenos criminosos, desocupados e trabalhadoras do sexo. Desta circunstância do presente, o filme vai aos anos 1950 para recontar a história da amizade entre os dois autores.
Bens confiscados

De Carlos Reichenbach (108 min, São Paulo, 2004)
Classificação indicativa: 16 – Conteúdo sexual, drogas ilícitas e violência
Sinopse: Serena é enfermeira-chefe de um hospital público no Rio de Janeiro. Amante de um senador da república, de quem se afastou, mas com quem nunca rompeu de fato, ela recebe a visita de um assessor do político depois que escândalos explodem e ameaçam sua reputação. Para que as coisas não fujam do controle, Serena recebe uma missão do assessor: cuidar de um filho secreto do senador, que foi forçosamente enviado para um balneário decadente no litoral gaúcho.
Garotas do ABC

De Carlos Reichenbach (125 min, São Paulo, 2004)
Classificação indicativa: 16 – Conteúdo sexual e violência extrema
Sinopse: Na região do ABC paulista, local historicamente marcado por fábricas têxteis e metalurgia, um grupo de operárias vive sua rotina de trabalho, diversões, violências e sonhos. Entre elas, está Aurélia, uma trabalhadora negra, bela e provocadora. Ao se apaixonar por um jovem branco afeito a uma gangue de neonazistas, Aurélia se verá numa terrível encruzilhada.
Falsa loura

De Carlos Reichenbach (105 min, São Paulo, 2007)
Classificação indicativa: 16 – Conteúdo sexual, drogas ilícitas e nudez
Sinopse: Operária de uma fábrica paulistana, a jovem e belíssima Silmara quer subir na vida. Entre o trabalho, a diversão e a amizade das companheiras, ela também cuida do pai, um ex-incendiário. Na busca por um grande amor, se envolve com dois artistas: um cantor pop em começo de carreira e um ídolo da música romântica. Desta experiência, Silmara irá tirar algumas lições de vida.
SERVIÇO
Mostra 5 vezes Carlos Reichenbach
A partir de 18 de julho na Itaú Cultural Play
www.itauculturalplay.com.br