IQT DA EMTU – Nota zero para a frota de ônibus do ABC
Por meio da Lei de Acesso à Informação, Diário do Transporte divulga ranking do Índice de Qualidade de Transporte da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos desde 2011
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 16/11/2017
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
A jovem Juliana Moreira, de 21 anos, mora na Vila Humaitá, em Santo André, e trabalha numa eletrônica na Rua Bom Pastor, na região do Sacomã. Felicidade! É o seu primeiro emprego registrado. Começou neste ano e, em época de crise, estar com emprego é motivo de levantar as mãos para os céus e agradecer. Mas na hora de pegar o ônibus … “Fiquei contente porque era descer do ônibus da cidade (municipal) na Perimetral e pegar o outro até o Sacomã. Mas esse que vai para São Paulo, já me deixou na mão várias vezes e tenho medo de perder meu emprego por chegar atrasada sempre. Não é que o ônibus passa dez minutos atrasado. Teve um dia que já fiquei quase uma hora e meia no ponto e tive de pegar outro ônibus municipal, trem e metrô” – disse à reportagem enquanto esperava a condução para ir ao trabalho na manhã desta segunda-feira, 13 de novembro.
Juliana se refere aos problemas nas linhas metropolitanas da EMTU que partem de Ribeirão Pires ou Mauá em direção ao terminal Sacomã, operadas pelas empresas Viação Ribeirão Pires e EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André.
O que ocorre com Juliana não é pontual, mas é rotina na vida de quem depende de ônibus intermunicipais do ABC com destino à capital paulista ou dos ônibus que circulam entre as cidades da região.
Por meio da Lei de Acesso à Informação, o Diário do Transporte obteve todos os resultados entre 2011 e 2016, do IQT – Índice de Qualidade de Transporte, um indicador que revela como estão sendo prestados os serviços de ônibus em todas as regiões metropolitanas dentro do Estado de São Paulo, cujos transportes são gerenciados pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos.
No site da EMTU, estão divulgados apenas os resultados entre 2004 e 2010.
Segundo a assessoria de imprensa da EMTU, nem todos os dados sobre 2017 foram consolidados.
Os resultados mostram que o pior sistema de transportes metropolitanos do Estado de São Paulo está no ABC. A chamada área 5, que nunca foi licitada, reúne as notas de IQT mais baixas, com uma queda geral na qualidade entre o primeiro e o último ano do período solicitado: 4,36 em 2011; 4,12 em 2012; 2,80 em 2013; 3,45 em 2014; 2,52 em 2015 e, 3,43 em 2016.
Curiosamente, é no ABC Paulista também que há a companhia com o índice de qualidade mais alto do Estado de São Paulo, atribuído à empresa Metra, concessionária de ônibus e trólebus do Corredor ABD. Desde 2012, a concessionária lidera o ranking de qualidade: 7,84 em 2012; 7,81 em 2013; 7,80 em 2014; 7,87 em 2015; e 7,82 em 2016.
Apesar de operar no ABC Paulista, a Metra é uma concessão à parte voltada para o corredor e não faz parte da Área 5.
A Área 5 nunca foi licitada. As empresas não operam por concessão, mas por permissão. Em 2006, a EMTU colocou em licitação a operação de todas as cinco áreas da Grande São Paulo. Em quatro regiões o processo foi concluído e, as empresas se uniram em consórcios e renovaram frota, além de readequarem as linhas. Há queixas de passageiros destas áreas, mas nada que se compara a quem precisa de ônibus metropolitanos que passam por Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
No ABC, os empresários da região travaram o processo e donos de outras empresas de ônibus não se arriscaram a oferecer propostas.
Desde 2006, foram seis tentativas de licitação. Em cinco delas, unidos, os donos de empresas de ônibus do ABC esvaziaram o certame, ou seja, não ofereceram nenhuma proposta. Estes empresários discordavam das exigências da EMTU iguais às que foram feitas nas outras quatro áreas e acatadas pelas respectivas empresas. Para isso, alegaram que os custos operacionais na região do ABC são mais altos, como os salários maiores dos motoristas (hoje em cerca de R$ 3 mil por mês) e que há projetos de obras de trilhos que poderiam interferir na lucratividade das empresas, como o Expresso ABC (que seguiria paralelamente à linha 10 Turquesa, da CPTM, com estrutura própria e durante todo o dia – não é o mesmo semi-expresso complementar de hoje) e o monotrilho da linha 18 (São Bernardo – Tamanduateí). Nenhum destes projetos saiu do papel e por 11 anos nada mudou nos transportes da região. Numa sexta vez, a licitação foi barrada pela Justiça de Manaus por causa do empresário Baltazar José de Sousa. Considerado pela Receita Federal e pelo Ministério Público Federal como o maior devedor individual da União, com mais de R$ 1 bilhão em débitos, Baltazar tinha uma empresa em Manaus, a Soltur – Solimões Turismo Ltda; que há anos está em recuperação judicial. Por meio da justiça de Manaus, a defesa de Baltazar conseguiu segurar a licitação alegando que se o empresário saísse do ABC, perderia dinheiro o que prejudicaria sua recuperação judicial.
A EMTU conseguiu derrubar a decisão do impedimento da licitação em 2016, mas não conseguiu descredenciar as empresas de Baltazar: EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André, Viação Ribeirão Pires, Viação São Camilo, Viação Imigrantes, Viação Triângulo, Viação Riacho Grande e EUSA – Empresa Urbana Santo André.
A defesa de Baltazar contesta os valores dos débitos alegados pela Receita Federal e Ministério Público Federal. O empresário e suas companhias acumulam mais de 200 ações judiciais.
FROTA É O PIOR QUESITO NO ABC:
A falta de qualidade da frota dos ônibus metropolitanos do ABC afasta os passageiros do transporte público, um contrassenso em época onde ganham força as discussões sobre mobilidade urbana e a necessidade de as pessoas deixarem o carro em casa.
Algumas pessoas, que não têm carro, se arriscam em passarelas, ruas e locais mal iluminados, mas preferem andar mais e chegar até o trem a depender dos ônibus metropolitanos do ABC.
É o caso da jornalista Jéssica Marques, de 22 anos, que não usa com mais frequência o ônibus entre Santo André e São Caetano do Sul, por causa da falta de qualidade.
“É muito mais prático ir do trabalho para a academia de ônibus atualmente, mas eu evito e faço um pedaço do percurso a pé porque a passagem custa quase seis reais, não passa no horário e sempre vejo esses ônibus por aí quebrados, então prefiro não arriscar usando todo dia. Nesse novo trabalho, já usei umas cinco vezes EAOSA. Em uma delas, o banco estava solto. Em outra, eu desci e saiu muita fumaça preta na minha cara. Aí desanimei de pegar. Em outra vez, a porta estava fazendo um barulho muito alto para abrir e fechar e, fiquei com receio. Vou de trem e passo a pé por um viaduto. Pelo preço da passagem compensava até Uber. Fora que tá sempre cheio” – diz Jéssica que antes de se formar e estar no atual emprego, usava constantemente as linhas 069 e 323 da Viação São Camilo, quando fazia o curso na universidade. A jovem relata que os ônibus não cumpriam horários, fazendo com que ela saísse muito mais. As quebras eram constantes.
A falta de qualidade da frota também não é um problema pontual e o que Jéssica relatou ao Diário do Transporte é refletido no IQT.
O Índice de Qualidade de Transporte é formado por outros subíndices. IQE (Índice de Qualidade Econômico Financeira), IQF (Índice de Qualidade da Frota), IQO (Índice de Qualidade Operacional) e IQC (Índice de Qualidade da Satisfação do Cliente).
O IQF é o pior índice dos ônibus da Área 5. De acordo com os dados fornecidos pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos por meio da Lei de Acesso à Informação ao Diário do Transporte, entre 2013 e 2016, a nota da frota de ônibus do ABC é menor que um, de uma escala de zero a 10.