IPSP investiga impacto das mudanças climáticas na saúde
Projeto internacional analisa doenças transmitidas por vetores e busca prever surtos com dados climáticos e científicos integrados
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 17/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
As mudanças climáticas já não são apenas uma preocupação ambiental: seus efeitos chegam cada vez mais ao setor da saúde. Doenças antes restritas a regiões tropicais começam a se espalhar para áreas temperadas, alterando o mapa global de riscos. Para enfrentar esse desafio, o Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) lidera, no Brasil, um estudo sobre a relação entre clima e saúde, com foco em doenças transmitidas por vetores.
O projeto integra a Pasteur Network, que reúne mais de 30 institutos em 25 países, e conta com apoio da Rockefeller Foundation e do Institute of Philanthropy de Hong Kong.
Vetores em foco
Conduzida pelo pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, a pesquisa atua em quatro eixos: ondas de calor e seus impactos; efeitos de eventos climáticos extremos; segurança alimentar e hídrica; e, de forma prioritária no Brasil, doenças transmissíveis por vetores sensíveis ao clima.
Além de arboviroses já conhecidas — como dengue, zika, chikungunya e febre amarela — o estudo também foca em doenças emergentes, como a febre do Oropouche e o vírus do Nilo Ocidental, que já teve registros no Ceará e no Piauí.
“As variáveis climáticas afetam diretamente a sobrevivência e a reprodução dos vetores, ampliando sua capacidade de transmitir doenças. O caso da febre amarela é emblemático: apesar da vacina eficaz, novas áreas vêm sendo classificadas como de risco”, explica Morais.
Desafios científicos e colaboração global
Um dos principais desafios do estudo é harmonizar bases de dados de naturezas diferentes. Informações climáticas em tempo quase real, coletadas por satélites da NASA e do programa europeu Copernicus, precisam ser cruzadas com registros nacionais de saúde, como os do DataSUS.
O IPSP também integra dados de plataformas de ciência cidadã, como o WikiAves, que ajuda a rastrear aves migratórias, e o MapBiomas, que fornece informações sobre uso do solo, desmatamento e queimadas. Esses elementos são essenciais porque mudanças ambientais alteram a distribuição de vetores e aumentam o contato com humanos.
“O desafio científico está em conectar escalas distintas de dados de clima e saúde, garantindo qualidade e consistência”, destaca o pesquisador. A iniciativa conta com cooperação de instituições como o Instituto Butantan, a Fiocruz e centros da Pasteur Network na Ásia e na África, onde problemas semelhantes, como o avanço da dengue, permitem trocas de conhecimento em escala global.
Modelos preditivos para surtos
Atualmente na fase de coleta e análise de dados, o projeto deve avançar para o desenvolvimento de modelos matemáticos e de aprendizado de máquina capazes de prever surtos com maior precisão. A expectativa é integrar essas ferramentas a sistemas já em operação, como o InfoDengue e o InfoGripe, que emitem alertas de risco às secretarias de saúde.
“Não existe vacina contra o aquecimento global, mas os dados climáticos podem nos ajudar a antecipar decisões de saúde pública”, afirma Morais.
O horizonte do estudo vai além da academia: até janeiro de 2027, a meta é produzir não apenas artigos científicos, mas também white papers com recomendações práticas para orientar gestores do SUS e fortalecer políticas públicas.
Saúde única e impacto social
A pesquisa também adota o conceito de One Health (Saúde Única), que integra saúde humana, animal e ambiental. Além das arboviroses, o IPSP colabora em estudos sobre leishmaniose na Amazônia, mostrando como fatores sociais, ecológicos e climáticos se combinam para ampliar riscos.
“O conhecimento precisa sair da academia e chegar às políticas públicas. Só assim será possível enfrentar os impactos das mudanças climáticas com eficiência e equidade”, conclui o pesquisador.