Inteligência Artificial no mercado de trabalho: ameaça ou oportunidade?
Especialista da Abria alerta: avanço da IA exige requalificação urgente e inclusão digital para evitar novas desigualdades no país
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 28/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
A Revolução Industrial transformou o mundo ao mecanizar o trabalho braçal e alterar para sempre as dinâmicas sociais e econômicas. Hoje, vivemos uma nova virada de chave — mas desta vez, no campo do pensamento. A inteligência artificial avança rapidamente, ressignificando profissões, criando novas funções e levantando dilemas éticos e sociais em escala global.
Para entender como a inteligência artificial está moldando o presente e o futuro do trabalho no Brasil, o portal ABC do ABC conversou com Elaine Coimbra, vice-presidente de marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria) e especialista em transformação digital.
Avanço acelerado — mas desigual
Levantamento do Google Cloud aponta que 83% das empresas brasileiras já adotam alguma forma de IA, o que nos coloca acima da média global. “O Brasil está adotando a IA com rapidez, principalmente no setor privado. Já superamos a média global em uso empresarial”, destaca Elaine. No entanto, o país ainda enfrenta um grande desafio: a falta de profissionais capacitados. “Até o ano que vem, podemos ter mais de 500 mil vagas em aberto por falta de gente qualificada.”
O impacto da tecnologia já é sentido em setores como marketing, saúde, finanças e varejo — onde algoritmos ajudam a diagnosticar doenças, automatizar campanhas, identificar fraudes e melhorar o atendimento ao cliente. Em outras áreas, como educação, agronegócio e setor público, o avanço ainda esbarra em obstáculos estruturais, como a baixa conectividade nas regiões rurais ou a ausência de políticas públicas que incentivem o uso da IA nas escolas.
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Do esforço físico ao cognitivo

Assim como a Revolução Industrial substituiu a força física humana por máquinas, a inteligência artificial automatiza atividades intelectuais. “A diferença é a velocidade”, afirma Elaine. “Agora, a transformação é muito mais rápida — e acontece dentro do campo do pensamento.” Funções como redigir textos, interpretar dados ou tomar decisões estratégicas já contam com o suporte direto da IA.
Esse cenário pode gerar desemprego estrutural, mas também cria novas oportunidades. “O problema não é a IA, é a falta de capacitação. O desafio não é se proteger dela, mas aprender a trabalhar com ela.”
O que a Inteligência Artificial substitui — e o que ela não alcança
As tarefas mais suscetíveis à substituição são as repetitivas: preenchimento de planilhas, atendimento automatizado, revisão de documentos padronizados. Em contrapartida, funções que envolvem criatividade, empatia, julgamento ético e improviso continuam sendo humanas — embora passem por ressignificação.
“Não dá para delegar um diagnóstico médico ou uma sentença judicial a uma máquina. A IA precisa de supervisão, e os humanos devem continuar no centro das decisões importantes”, alerta Elaine.
Novas profissões e requalificação urgente
O avanço tecnológico criou ocupações que não existiam há poucos anos, como engenheiro de prompts, orquestrador de agentes autônomos, auditor de algoritmos e designer de interação com IA. “São carreiras que combinam tecnologia com pensamento estratégico.”
No entanto, o Brasil ainda está engatinhando na preparação de profissionais para essa nova realidade. “Escolas e empresas não estão ensinando isso com a velocidade necessária. A boa notícia é que há muitos cursos gratuitos de qualidade, como os oferecidos por Microsoft e Google. Mas o primeiro passo precisa ser individual.”

Elaine defende que a requalificação deve ser uma prioridade pessoal, mas também cobra ação do poder público e do setor empresarial: “O governo precisa garantir acesso à internet e inclusão. As empresas precisam abrir espaço para experimentação e aprendizado.”
Desigualdade digital: um risco real
A especialista alerta que a adoção desenfreada da IA pode acentuar desigualdades. “Pessoas com mais de 50 anos, trabalhadores braçais e populações periféricas são os mais vulneráveis à exclusão.” A solução, segundo ela, passa pela democratização do acesso à tecnologia e pela formação de pessoas em regiões hoje fora do radar da inovação.
O que a máquina não faz
Apesar de todos os avanços, há fronteiras que a IA ainda não ultrapassa. “Ela não sente. Não tem empatia. Não improvisa. Apenas repete padrões com base no que já foi feito antes”, resume Elaine.
Nesse contexto, ganham valor competências tipicamente humanas como criatividade autêntica, escuta ativa, liderança, ética e negociação. “Essas habilidades serão cada vez mais demandadas. Nenhum robô vai conseguir imitá-las com perfeição.”
Futuro invisível — e inevitável

Nos próximos anos, a inteligência artificial tende a se tornar tão onipresente quanto a eletricidade. “Estará em tudo: atendimento ao cliente, análise de dados, processos internos. Empresas que souberem unir humanos e máquinas sairão na frente”, prevê.
Para os jovens, o conselho da especialista é direto: desenvolvam pensamento crítico e aprendam a usar a IA como aliada. Para os mais experientes, a dica é apostar na curiosidade e humildade. “Use sua bagagem como ponte. Nunca foi tão importante aprender continuamente.”
A ABRIA, entidade da qual Elaine é vice-presidente, está prestes a lançar uma Academia da IA com foco em capacitação gratuita da população.
Brasil no palco ou na plateia?
Embora ainda atrás de potências como Estados Unidos e China, o Brasil dá sinais de avanço. O Projeto de Lei 2338/2023, por exemplo, pretende estabelecer regras para o uso da IA no país. Mas o dilema continua: como avançar sem engessar a inovação?
“Singapura investe pesado em requalificação. O Canadá foca na inclusão digital. E a disputa entre EUA e China mostra o peso geopolítico da IA”, conclui Elaine. “A pergunta que fica para o Brasil é: queremos ser espectadores ou protagonistas dessa nova revolução?”