Inteligência Artificial na educação é usada por 79% dos brasileiros

Brasil lidera uso global de IA para estudos e trabalho. Pesquisa revela transição da curiosidade para utilidade prática no ensino.

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A Inteligência Artificial na educação consolidou-se como o principal vetor de adoção tecnológica no Brasil, superando o uso puramente lúdico. Dados recentes da terceira edição do estudo Our Life with AI, conduzido pelo Google em parceria com a Ipsos, revelam um cenário de transformação profunda:79% dos usuários brasileiros já utilizam a tecnologia especificamente para aprender algo novo. Esse índice não apenas demonstra uma mudança de comportamento, mas coloca o país em um patamar de maturidade digital superior à média global.

O levantamento, que ouviu 21 mil pessoas em 21 países com dados projetados para 2025, indica que o Brasil abandonou a fase de experimentação tímida. O uso de chatbots no país saltou para 71%, um crescimento expressivo de 25% em relação à primeira edição da pesquisa em 2023. Enquanto a média mundial de uso estacionou em 62%, os brasileiros demonstram uma voracidade ímpar pela integração da tecnologia em suas rotinas. A percepção de que a IA era apenas uma curiosidade passageira foi substituída por uma visão pragmática: a ferramenta agora é essencial para a produtividade e o desenvolvimento intelectual.

O fim da era da curiosidade e o foco na utilidade

Os benefícios da IA para a saúde mental (3) - Inteligência Artificial na educação
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Historicamente, novas tecnologias entram no mercado através do entretenimento. No entanto, o relatório aponta uma reconfiguração drástica nas prioridades nacionais. Se em 2024 o uso para diversão liderava com 83%, os novos dados mostram um recuo para 74%. Esse espaço foi preenchido pela busca por eficiência. Pela primeira vez, a aplicação da Inteligência Artificial na educação e no aprendizado assumiu o topo das estatísticas.

Outros usos práticos também ganharam tração e superaram o entretenimento. O auxílio em tarefas de trabalho já é realidade para 75% dos entrevistados, enquanto a geração de mídia atinge 72%. A educação, contudo, desponta como o setor onde o benefício é mais tangível e imediato. O otimismo é generalizado: 82% dos brasileiros acreditam que estudantes serão amplamente beneficiados pela tecnologia. Essa percepção se confirma na prática, pois a mesma porcentagem de usuários afirma que a ferramenta impactou positivamente sua metodologia de estudo.

Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, reforça que essa estatística reflete uma crença na mobilidade social através da tecnologia. Segundo o executivo, o Brasil abraça a inovação com responsabilidade e pragmatismo, utilizando-a para resolver problemas complexos e estudar com maior eficiência.

Inteligência Artificial na educação e a sobrevivência no mercado

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Para compreender as motivações por trás dessa virada comportamental, é necessário analisar o contexto socioeconômico brasileiro. A adoção massiva da tecnologia não ocorre em um vácuo, mas em um mercado de trabalho altamente competitivo e pressionado pela desigualdade.

Andréa Piloto, diretora da Escola Vereda, analisa esse fenômeno sob uma ótica dual. Para ela o movimento reflete tanto uma busca genuína por conhecimento quanto uma necessidade urgente de sobrevivência profissional.

“Somos um país historicamente pressionado por desigualdade social, informalidade e um mercado de trabalho extremamente competitivo. Quando surge uma tecnologia que promete acelerar o aprendizado, resolver problemas e aumentar produtividade, ela deixa de ser curiosidade para ser ferramenta de sobrevivência em muitos casos”, explica Piloto.

A especialista ressalta que a Inteligência Artificial na educação funciona, para muitos, como um mecanismo para reduzir barreiras de acesso à informação e compensar lacunas de formação prévia. Jovens e profissionais que desejam se manter relevantes perceberam que a ferramenta pode apoiar estudos complexos. Contudo, Piloto adverte sobre o risco de utilizar a tecnologia como um atalho superficial, em vez de um meio para desenvolver autonomia e repertório crítico.

O papel da escola diante da resposta instantânea

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Com a tecnologia atuando como uma espécie de “professora particular” para a maioria dos estudantes, o modelo tradicional de sala de aula enfrenta questionamentos sobre sua relevância. No entanto, a visão dos especialistas afasta a ideia de obsolescência e aponta para uma ressignificação do ensino presencial.

A informação bruta deixou de ser o ativo principal da educação escolar, uma vez que o acesso a dados é instantâneo. O valor da escola migra para a mediação, o contexto e as relações humanas. Na visão pedagógica contemporânea, o professor deixa de ser o detentor único da resposta para assumir o papel de orientador intelectual. A sala de aula torna-se um espaço de confronto de ideias, debate ético e desenvolvimento de projetos práticos, elementos que a resposta pronta de um chatbot não consegue replicar.

Victor Cornetta, fundador da Kaizen Mentoria, reforça que não existe uma crise de identidade, mas uma oportunidade de reorganização. A Inteligência Artificial na educação permite que o tempo presencial seja melhor aproveitado. A estratégia envolve estruturar o estudo individual com o apoio da IA, permitindo que o aluno chegue à aula com dúvidas mais elaboradas e exercícios prévios realizados. Isso transforma a dinâmica escolar, privilegiando a prática e a resolução de problemas em detrimento de explicações expositivas longas.

Personalização: o “especialista de bolso”

A confiança na ferramenta é um dos pilares que sustentam esse crescimento acelerado. A tecnologia provou sua capacidade de personalizar o ensino, algo que a teoria educacional sempre perseguiu, mas que a prática escolar massificada tinha dificuldades de entregar.

Cornetta destaca que a IA favorece dois conceitos pedagógicos fundamentais: a curiosidade epistemológica e a aprendizagem significativa.

  • Curiosidade Epistemológica: O impulso de investigar é satisfeito imediatamente, pois o aluno tem um “especialista de bolso” disponível 24 horas para sanar dúvidas.
  • Aprendizagem Significativa: A capacidade da IA de contextualizar a informação conecta o conteúdo à realidade individual do estudante, tornando o aprendizado mais fluido.

Essa personalização impede que o aluno desista diante da primeira dificuldade. Ao ter um suporte constante para o estudo autônomo, o engajamento aumenta e a consolidação do aprendizado torna-se mais efetiva. A aplicação da Inteligência Artificial na educação democratiza o acesso a um nível de tutoria que, anteriormente, era restrito a estudantes com alto poder aquisitivo.

O risco do abismo intelectual e a muleta tecnológica

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Apesar do otimismo, a implementação da IA no processo de aprendizagem carrega riscos significativos, especialmente em um país com disparidades educacionais profundas como o Brasil. Existe uma linha tênue entre utilizar a ferramenta como apoio e transformá-la em uma muleta intelectual.

Andréa Piloto é enfática ao alertar sobre esse perigo. Sem uma base sólida de leitura, escrita e raciocínio lógico, o estudante pode cair na armadilha da preguiça intelectual, entregando respostas geradas pela máquina sem construir conhecimento real.

“Se a escola não assumir a responsabilidade de ensinar como usar a tecnologia, o abismo educacional tende a aumentar. Por isso, a alfabetização sólida, pensamento matemático, argumentação e ética precisam vir antes e caminhar junto com o uso de IA”, pontua a diretora.

O diferencial futuro não será apenas o acesso à tecnologia, mas a forma como ela é utilizada. Victor Cornetta complementa essa visão, afirmando que o uso equivocado da ferramenta não mascara deficiências por muito tempo. No médio prazo, o mercado e a academia distinguirão claramente quem utiliza a Inteligência Artificial na educação como extensão do próprio intelecto daqueles que terceirizam o pensamento.

A proficiência básica continua sendo o alicerce. Quem utiliza a IA para potencializar o raciocínio e entender a lógica dos problemas tende a crescer exponencialmente. Já o usuário passivo, que busca apenas o produto final sem o processo cognitivo, corre o risco de ser substituído, não pela IA, mas por profissionais que souberem integrá-la com inteligência crítica.

A rotina doméstica e a gestão da vida

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Além do ambiente acadêmico e corporativo, a IA infiltrou-se na gestão doméstica, demonstrando sua versatilidade. O estudo do Google e Ipsos revela que 56% dos entrevistados já utilizam a tecnologia para organizar tarefas cotidianas, como planejamento de refeições, listas de supermercado e roteiros de viagens.

Essa onipresença da tecnologia reforça a necessidade de letramento digital. A sociedade brasileira, otimista quanto ao progresso econômico via inovação, espera uma atuação conjunta entre setores públicos e privados. Cerca de 71% dos cidadãos desejam ver governos e empresas colaborando para aplicar a IA em serviços públicos, enquanto 69% clamam por avanços na segurança cibernética.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 09/02/2026
  • Fonte: Pocah