Instituto Tomie Ohtake apresenta Águas subterrâneas

A Temporada França-Brasil 2025 traz a mostra Águas subterrâneas: narrativas de confluência, explorando a memória, o poder e os desafios ambientais dos rios

Crédito: Divulgação Instituto Tomie Ohtake

O Instituto Tomie Ohtake se prepara para receber uma das mais importantes mostras da Temporada França-Brasil 2025: a exposição coletiva Águas subterrâneas: narrativas de confluência. O evento, correalizado pelo Instituto Tomie Ohtake, pelo Institut Français e pelo Frac Poitou-Charentes, foi realizado primeiro na França e chega ao Brasil para uma itinerância que reúne múltiplos olhares de artistas contemporâneos sobre os cursos de água doce e os relatos culturais, históricos e ambientais que os atravessam.

A mostra será apresentada pelo Ministério da Cultura, pelo Nubank e pelo Instituto Tomie Ohtake, e poderá ser visitada de 14 de novembro de 2025 a 8 de março de 2026. A iniciativa conta com o patrocínio do Nubank, Mantenedor Institucional do Instituto Tomie Ohtake, além do apoio do Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores e da Empresa Gestora de Ativos (Emgea) do Governo Federal, viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.

A filosofia da confluência no coração da exposição

Rastros de Diógenes, Zona de Imaginação Climática, 2025, Impressão fotográfica e vinil de recorte, 45 X 67,5 CM/Divulgação Instituto Tomie Ohtake

A curadoria da exposição Águas subterrâneas: narrativas de confluência nasce de um encontro simbólico: o rio Charente, que atravessa a região da Nova-Aquitânia (França), e o sistema Tietê-Pinheiros, o eixo fluvial que estrutura a metrópole paulista. Curada por Irene Aristizábal (diretora do Frac Poitou-Charentes), Ana Roman (superintendente artística do Instituto Tomie Ohtake) e Catalina Bergues (curadora adjunta), a mostra se transforma a cada etapa, incorporando novas obras e relações.

O ponto de partida curatorial é o conceito de “confluência” formulado pelo pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos: um “encontro que soma sem subtrair”. A partir dessa ideia, a exposição é proposta como um campo de escuta e coexistência. Nela, as águas são entendidas não apenas como um recurso, mas como seres vivos, portadores de direitos e memórias. Elas são encaradas como testemunhas de passados coloniais e, ao mesmo tempo, como agentes de transformação no cenário contemporâneo.

Recomposições e destaques da apresentação em São Paulo

Divulgação Instituto Tomie Ohtake

A apresentação em São Paulo preserva o elenco original da etapa francesa em grande medida, realizando uma recomposição cuidadosa. Uma das inclusões é a artista Suzanne Husky, proveniente da coleção do FRAC Poitou-Charentes. Sua apresentação, ancorada no relatório do IPCC (2022), integra aquarelas e mapas que rastreiam a presença histórica do castor na Europa e seu papel crucial na regulação dos cursos d’água, articulando toponímia, hidrografia e práticas de cuidado ambiental.

Por outro lado, a artista Minia Biabiany, presente na etapa francesa, não participa desta itinerância, pois seu trabalho estará em cartaz na exposição A Terra, o Fogo, a Água e os Ventos, que é simultânea no Instituto Tomie Ohtake. A obra de Julien Creuzet, inicialmente apresentada no FRAC, desdobra-se em duas novas versões para o público paulistano, agora considerando os rios Tietê e Pinheiros.

No Frac Poitou-Charentes, Creuzet operava a partir de arquivos e desenhos do rio Charente. Em São Paulo, ele se volta para os rios da cidade, combinando mapas, ícones técnicos e objetos cotidianos em uma cartografia poética que evidencia como a memória e o poder se inscrevem na água e em suas margens. O desdobramento da obra de Creuzet será ativado em ambas as exposições simultâneas do Instituto Tomie Ohtake, sublinhando a contiguidade do pensamento curatorial e institucional entre elas.

As águas como palco de críticas e reparação

© Marcos Avila Forero, _Atrato_Atrato Récit_, 2014. Courtesy LMNO. Tous droits réservés/Divulgação Instituto Tomie Ohtake

As obras selecionadas para a Águas subterrâneas: narrativas de confluência abordam um espectro de questões críticas ligadas à água, incluindo escassez, contaminação, infraestruturas e as possibilidades de reparação.

A artista Barbara Kairos, de Angoulême (França), reelabora criticamente a história do “jacaré do Tietê”, transformando o episódio da memória urbana em um alerta sobre a política das águas. A também francesa Capucine Vever, cuja pesquisa se concentra na paisagem fluvial e em suas camadas coloniais, utiliza arquivos e a escuta do rio Garona para aproximar imagem e história em seu trabalho.

Entre os brasileiros, a mostra oferece múltiplos ângulos:

  • O Coletivo Coletores, fundado na periferia leste de São Paulo, sobrepõe mapas e imagens dos rios paulistanos para reimaginar o direito à água e ao território.
  • Daniel de Paula, radicado em São Paulo, que havia refletido sobre as estruturas materiais e simbólicas da infraestrutura no Frac Poitou-Charentes, agora desloca uma turbina da antiga Usina Henry Borden para a margem do rio Pinheiros, expondo os elos entre industrialização e degradação ambiental. O trabalho, intitulado Mãe, está instalado no Parque Linear Bruno Covas e contou com apoios específicos.
  • O mineiro Davi de Jesus do Nascimento, criado às margens do rio São Francisco, desenvolve uma prática ancorada na ancestralidade e nos saberes ribeirinhos, inspirado na carranca — a escultura protetora das embarcações do Velho Chico.
  • A mineira Luana Vitra investiga as relações entre corpo e material a partir de elementos como cerâmica, cobre e ferro. Seus trabalhos tensionam o espaço e evocam o ciclo de extração e transformação mineral que marca seu território de origem.

O colombiano Marcos Ávila Forero, radicado na França, apresenta um vídeo realizado com comunidades afro-colombianas do rio Atrato, resgatando uma antiga prática de comunicação através do som produzido na superfície da água. Na Paraíba, Rastros de Diógenes, artista de Mamanguape, cria um cosmograma onde cultivo, cura e imaginação climática se entrelaçam em torno de figuras como a Mensageira, a Agricultora e a Curandeira, inspiradas em saberes ancestrais. Por fim, os cearenses Vitor Cesar e Enrico Rocha reelaboram a sigla do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) em poesia visual e sonora, questionando políticas hídricas ao contrapor a retórica do “combate à seca” à concentração de recursos no semiárido.

Ao reunir perspectivas diversas sobre as águas — de seus fluxos subterrâneos às redes políticas que as regulam —, a Águas subterrâneas: narrativas de confluência no Instituto Tomie Ohtake propõe um exercício de atenção. A exposição cria um espaço de circulação entre histórias, práticas e territórios, onde cada encontro reconfigura o curso comum, abordando os modos complexos como a água atravessa infraestruturas, corpos e paisagens.

Serviço:

Águas Subterrâneas: narrativas de confluência

Pré-abertura: 13 de novembro de 2025, às 19h

Em cartaz de 14 de novembro de 2025 a 08 de março de 2026

Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima 201 (Entrada pela Rua Coropé, 88) – Pinheiros – SP

Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – Amarela

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 10/11/2025
  • Fonte: Sorria!,