Insegurança alimentar no Brasil
Desafios persistem devido a problemas financeiros e falta de acesso
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 06/05/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam uma significativa redução na insegurança alimentar grave no Brasil, que caiu de 33 milhões de pessoas em 2022 para 8 milhões em 2023.
Embora o Brasil se destaque como um dos principais produtores de alimentos do mundo, a realidade da insegurança alimentar persiste. O país é responsável por recordes anuais na colheita de grãos e lidera as exportações globais em diversos produtos, como soja, café e carnes. Entretanto, há cidadãos que acordam sem a certeza de que terão o que comer.
Conforme informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aproximadamente 8,4 milhões de brasileiros enfrentaram a fome entre 2021 e 2023, representando 3,9% da população. Este indicador mantém o Brasil no Mapa da Fome da ONU, de onde havia saído pela primeira vez em 2014.
Embora tenha havido uma melhora em comparação ao triênio anterior (2020-2022), quando a taxa era de 4,2%, os especialistas questionam por que essa contradição persiste. Segundo análises, a falta de acesso à alimentação adequada não se deve à escassez de produtos alimentícios, mas sim à dificuldade financeira enfrentada por muitos brasileiros. Apesar da queda nas taxas de desemprego, os preços dos alimentos continuam a subir, superando os incrementos salariais.
Ademais, existem preocupações sobre a produção agropecuária estar mais voltada para exportações do que para abastecer o mercado interno. Enquanto alguns defendem um reequilíbrio na abordagem da produção para assegurar a segurança alimentar futura, outros acreditam que o modelo atual já atende tanto o mercado interno quanto externo.
A questão climática também foi destacada como um fator crítico que pode afetar o abastecimento alimentar. Além disso, o Brasil ainda enfrenta “desertos alimentares”, áreas com escassa oferta de alimentos saudáveis.
Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO e coordenador do programa Fome Zero no início dos anos 2000, ressaltou que políticas macroeconômicas são essenciais para erradicar a fome em um cenário massivo como o brasileiro. Ele enfatizou a necessidade de geração de emprego e melhorias na renda das pessoas como soluções fundamentais.
As mudanças nos indicadores socioeconômicos desde a crise econômica entre 2014 e 2016 e a pandemia tiveram impacto direto no aumento da insegurança alimentar. Políticas públicas voltadas para segurança alimentar foram descontinuadas nos últimos governos, contribuindo para agravar a situação.
A pesquisadora Sílvia Helena de Miranda destacou que mesmo com a redução do desemprego desde 2021, os aumentos salariais não têm acompanhado a inflação crescente. Entre 2014 e 2024, os salários tiveram um aumento real de apenas 5%, enquanto a inflação afetou as camadas mais pobres em uma escala muito maior.
Além disso, o modelo agrícola brasileiro tem focado fortemente na produção de grãos destinados à exportação, como soja e milho. Em contrapartida, houve diminuição na área plantada com arroz e feijão. Essa mudança se deve a fatores econômicos que favorecem as commodities em detrimento das culturas básicas necessárias para o consumo interno.
A presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recine, defendeu uma revisão dessa estratégia produtiva. Segundo ela, é fundamental aumentar a produção de alimentos básicos destinados ao mercado interno para garantir uma dieta saudável aos brasileiros.
Os dados apontam que cerca de 25 milhões de brasileiros residem em regiões com baixa oferta de alimentos frescos. O governo federal busca implementar políticas públicas efetivas para melhorar essa situação. A meta é reduzir drasticamente os índices de insegurança alimentar até 2026.
A redução significativa da insegurança alimentar observada nos últimos anos pode ser atribuída ao relançamento do Bolsa Família e outras iniciativas sociais voltadas para atender as populações mais vulneráveis. No entanto, ainda há desafios a serem enfrentados para incluir todas as famílias necessitadas nos programas assistenciais disponíveis.