Insegurança alimentar atinge 3 em cada 10 entregadores por app em SP e RJ
Trabalhadores enfrentam fome, longas jornadas e ausência de direitos trabalhistas em meio à falta de regulação do setor
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 06/04/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
Um estudo conduzido pela ONG Ação da Cidadania, em parceria com instituições acadêmicas, revelou que aproximadamente 32% dos entregadores por aplicativo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro enfrentam algum grau de insegurança alimentar.
A pesquisa, realizada com 1.700 trabalhadores, mostra que esses profissionais vivem em condições muito mais vulneráveis do que a média da população ocupada no Brasil, cuja taxa é de 9,4%.
O levantamento classifica a insegurança alimentar em três níveis — leve, moderada e grave —, sendo que os casos mais críticos correspondem àqueles em que os trabalhadores precisam pular refeições, não consomem proteínas ou deixam de se alimentar para priorizar os filhos.
“Esses números indicam um padrão de privação alimentar grave, incompatível com a relevância do serviço prestado por esses profissionais”, afirmou Rodrigo Afonso, diretor executivo da ONG.
Jornada exaustiva e ausência de proteção social
A pesquisa também apontou que a maioria dos entregadores atua diariamente, por cerca de dez horas, sem qualquer vínculo formal de trabalho ou acesso a benefícios como seguro de saúde, plano de aposentadoria ou licença médica.
De acordo com os dados, 41% já sofreram acidentes durante o exercício da atividade, e 16% precisaram se afastar por esse motivo. Ainda assim, 90% dos entrevistados não têm plano de saúde ou seguro de vida, e quase 70% não possuem seguro para seus veículos.
Outro dado preocupante é que 72% dos trabalhadores não contribuem com a Previdência Social, o que compromete o acesso à aposentadoria e a benefícios básicos. Considerando que dois terços são chefes de família, a ausência de proteção previdenciária representa uma ameaça à subsistência futura.
Categoria se mobiliza por melhores condições
Em resposta a esse cenário de precarização, entregadores têm promovido paralisações e protestos em diversas cidades do país. A mobilização nacional, iniciada no final de março, tem como pauta central o reajuste da taxa mínima por entrega (de R$ 6,50 para R$ 10), o aumento do valor por quilômetro rodado (de R$ 1,50 para R$ 2,50), além de restrições ao uso de bicicletas em rotas superiores a três quilômetros e o pagamento integral por cada entrega realizada, mesmo quando há múltiplos pedidos no mesmo trajeto.
As reivindicações serão encaminhadas a instâncias do Governo Federal, do Congresso Nacional e de órgãos de debate sobre políticas públicas.
Para a Ação da Cidadania, é urgente a criação de um marco regulatório que assegure contribuições proporcionais ao tempo trabalhado e garanta direitos mínimos. “Não é uma questão de inviabilidade econômica. As plataformas continuam crescendo e lucrando. O que falta é vontade política e prioridade na pauta”, concluiu Rodrigo Afonso.
Representantes das empresas afirmam estar abertas ao diálogo e à regulação do setor. A Amobitec, que reúne algumas das principais plataformas de entrega do país, declarou que busca conciliar os interesses dos entregadores com a realidade dos usuários. Já o iFood informou que avalia a revisão dos valores repassados e oferece, atualmente, seguro pessoal, assistência jurídica e plano de saúde a seus entregadores cadastrados.