Influenciador favorito não é seu amigo, acredite

Minha experiência com influenciador é clara: não confie em tudo o que é divulgado. Procure mais informação além das redes sociais.

Crédito: ChatGPT Image

Dizem que primeiro a gente come com os olhos, depois com o garfo. No mundo hiperconectado de hoje, essa degustação inicial acontece no feed do Instagram, entre um filtro de saturação alta e uma trilha sonora animada. 

Recentemente, deixei de lado o meu ceticismo profissional e me permiti ser guiado por um desses gurus da gastronomia local. Acessei uma página de “dicas” gastronômicas aqui da minha região e procurei por algo que chamasse minha atenção.

Encontrei. O vídeo era impecável: carnes suculentas, cores vibrantes e um veredito entusiasmado que prometia uma experiência transcendental. Fui até o local. O que encontrei, porém, foi o oposto do espetáculo digital.

O rodízio, vendido como inovador, era uma engrenagem mal lubrificada. A comida chegou à mesa com a temperatura de um entusiasmo que já esfriou há muito tempo. “Mas e a qualidade das carnes?”, você poderia me perguntar. Respondo: uma pálida e fibrosa sombra daquela exibida na tela do celular. 

Naquele momento, entre um prato morno e outro, o sabor que prevaleceu foi o da enganação.

A maquiagem do conteúdo do influenciador

Influenciadores
Imagem gerada por inteligência artificial

Poderia ser um azar isolado, mas a repetição do cenário em uma segunda tentativa acendeu o alerta definitivo. O problema não era o restaurante — ou não apenas ele. O problema era a fonte da recomendação.

Aqui, eu preciso dar o nome correto às coisas: influenciador não é jornalista. Enquanto o jornalismo especializado exige o distanciamento crítico, a checagem e, acima de tudo, a isenção, o influenciador muitas vezes opera sob a lógica do “quem paga mais, brilha mais”. O compromisso ali não é com o paladar do seguidor, mas com o fechamento do contrato.

Ora, não é difícil compreender essa lição: O jornalista busca a verdade técnica, aponta falhas e protege o bolso do consumidor. O Influenciador busca o ângulo perfeito, a luz ideal e o engajamento que sustenta seu próprio bolso.

Essa é a lógica das redes sociais. A estética substituiu a ética. Aquela montagem dinâmica e os elogios hiperbólicos são apenas uma forma moderna de publicidade disfarçada de conselho amigável. É uma maquiagem cara aplicada sobre um produto, muitas vezes, medíocre, que sequer deveria ser vendido.

Como profissional da comunicação, sinto o dever de dizer: desconfie da perfeição. Se cada prato parece uma obra de arte e cada crítica é um elogio sem ressalvas, você não está assistindo a uma dica; você está assistindo a um comercial de alguns segundos.

Eu decidi não cair mais nas apresentações dos “diqueiros influenciadores”. Posso até me deixar ver um vídeo ou outro, mas ao decidir-me por um restaurante, volto a fazer o que eu fazia antes: pesquiso sobre o local, busco informações confiáveis, analiso as avaliações do Google comparando os elogios e as críticas, vejo o que as pessoas estão comentando nas redes sociais e procuro alguém do meu ciclo de amizades que já tenha ido ao local. Só então eu decido ir ou não ir. Com isso, diminui as chances de cair no golpe de influenciadores.

Se você quer comer bem, volte a ouvir quem tem responsabilidade com a assinatura que carrega. O jornalista especializado pode não ter a transição de vídeo mais criativa, mas ele não terá medo de dizer que a carne está dura — simplesmente porque ele não deve nada ao dono da churrascaria.

O Brazil Journal publicou recentemente um artigo sobre como as novas tecnologias estão perdendo credibilidade e favorecendo a volta do jornalismo. Você pode ler o artigo aqui. Acho que o assunto tem tudo a ver em como a comparação entre a qualidade da recomendação do influenciador e a do jornalista.

A vacina do ABCdoABC

Aproveito esse texto para revelar um bastidor aqui do portal ABCdoABC. Estamos criando uma curadoria dos melhores restaurantes, bares e baladas do ABC e da Região Metropolitana de São Paulo. Esse é um projeto de longo prazo, em que indicaremos o que realmente há de melhor para se comer, beber e se divertir em cada cidade após avaliarmos uma série de critérios. Criamos uma página chamada Sair e Curtir, onde reuniremos as “dicas” seguras e apuradas, para que você não caia no golpe da propaganda de influenciadores sem compromisso com a verdade.

Encerro com o alerta do título desse texto: influenciador não é seu amigo. Ele está mais para o vendedor picareta que quer te empurrar serviços e garantias que você nunca vai usar, do que de fato pensando em você e em te indicar uma boa experiência. Não caia em golpes.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 30/01/2026
  • Fonte: FERVER