Inclusão e periferia guiam projetos da SPCine em 2026

Em entrevista exclusiva, diretor de inovação da SPCine, Emiliano Zapata detalha projetos voltados ao acesso ao cinema, sessões inclusivas e formação de jovens no mercado de games em São Paulo

Crédito: Suzana Rezende / ABCdoABC

A democratização do acesso ao audiovisual, a criação de políticas públicas voltadas à inclusão e a aproximação entre cultura e periferia estão no centro das iniciativas desenvolvidas pela SPCine. Em entrevista exclusiva, o diretor de inovação e políticas do audiovisual da empresa, Emiliano Zapata, falou sobre os desafios de ampliar o alcance das salas públicas de cinema, os projetos voltados para pessoas autistas e os planos para inserir jovens periféricos no mercado de games.

Segundo Zapata, uma das principais preocupações da gestão atual é romper a percepção de que o cinema e o audiovisual ainda pertencem a uma parcela restrita da população. Para ele, a política pública precisa considerar as demandas reais dos territórios e criar mecanismos para formar novos públicos.

“A gente precisava entender as demandas desse território, das pessoas daqui”, afirmou.

Circuito público busca ampliar acesso ao cinema

De acordo com o diretor, a SPCine mantém atualmente o maior circuito de salas públicas do mundo. O modelo funciona em equipamentos públicos espalhados pela cidade, especialmente em regiões periféricas, onde grandes redes comerciais de cinema não possuem atuação.

As salas estão instaladas em unidades dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), em bairros como Cidade Tiradentes, Taipas e São Miguel Paulista. A proposta, segundo Zapata, é fazer com que os espaços tenham ligação direta com o território onde estão inseridos.

“Essas salas públicas chegam com essa missão de pertencer a esse território”, disse. “E se elas pertencem ao território, esse território precisa falar o que eles querem ver.”

O diretor relata que, ao assumir a área de inovação da SPCine, percebeu que a programação das salas estava concentrada em filmes premiados e produções voltadas a um público já habituado ao circuito cultural. A partir disso, a gestão passou a discutir formas de ampliar o repertório exibido e aproximar o audiovisual da realidade cotidiana das comunidades atendidas.

A gente entendeu que tinha esse recorte dentro das programações, muito daquilo que ganhava prêmios internacionais”, afirmou. “Mas existem alguns passos até você chegar num filme mais cult.

Segundo ele, a formação de público se tornou uma prioridade após o impacto da pandemia no setor audiovisual. Zapata avalia que apenas investir em grandes produções não garante o fortalecimento do cinema nacional sem a presença de audiência.

“O cinema atual, a gente precisa formar público”, afirmou. “Não adianta você ter editais caríssimos, de milhões, fazer filmes com receitas enormes, se você não tem público.”

Inclusão motivou criação da Sessão Azul

Emiliano zapata spcine projetos 2026 inclusão
Suzana Rezende / ABCdoABC

Uma das iniciativas citadas pelo diretor foi a criação da chamada “Sessão Azul”, voltada para crianças autistas e suas famílias. O projeto surgiu após uma visita de Zapata e do superintendente da área às salas públicas administradas pela SPCine.

Durante uma das sessões, duas crianças autistas foram impedidas de entrar na exibição. O episódio motivou a criação de um modelo adaptado de sessão de cinema.

Eu senti aquela violência ali naquele momento”, relatou Zapata. “Aquela criança não estava sendo inclusa.

A partir disso, a SPCine desenvolveu um formato específico para atender pessoas do espectro autista. As sessões passaram a contar com iluminação reduzida, mas não totalmente apagada, volume de som mais baixo, colchonetes, espaço de acolhimento e liberdade de circulação dentro da sala.

“A gente pensou em toda uma sessão, toda uma experiência”, explicou. “Onde a luz fica mais clara, onde eles podem se movimentar, onde tem os colchonetes, onde tem o cantinho do acolhimento.”

Para estruturar o projeto, a SPCine contratou o Instituto Cora, especializado na pauta do autismo. O trabalho incluiu reuniões técnicas e adaptações físicas nas salas públicas já existentes.

Segundo Zapata, havia resistência inicial sobre a viabilidade do projeto e dúvidas sobre a existência de demanda. Ainda assim, a primeira experiência foi implementada no CEU Butantã.

“Aumentaram 200%”, disse o diretor ao comentar os dados de crescimento das sessões entre 2022 e 2024. “Demanda falta, às vezes a gente tem aquilo que não quer achar.”

A sessão inaugural utilizou o filme “Encanto” e, de acordo com o diretor, teve forte adesão das famílias.

“O mais interessante é como as mães estavam felizes e emocionadas”, afirmou.

SPCine prepara sessões com Libras e audiodescrição

Além das ações voltadas ao público autista, a SPCine também prepara novas iniciativas ligadas à acessibilidade para pessoas cegas e surdas.

Segundo Zapata, a empresa iniciou uma parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência para desenvolver sessões com audiodescrição e interpretação em Libras.

“O nosso próximo desafio é fazer uma sessão com audiodescrição e uma sessão em Libras”, afirmou.

O diretor afirmou que a intenção é desenvolver um formato de interpretação que vá além da tradução convencional, incorporando elementos sonoros e emocionais das produções exibidas.

A proposta faz parte da estratégia da diretoria de inovação da SPCine de ampliar os formatos de inclusão dentro do audiovisual.

“É difícil você ver ações assim dentro do recorte do audiovisual”, declarou.

Estratégia aproximou público periférico do cinema nacional

Emiliano zapata spcine projetos 2026 inclusão
Suzana Rezende / ABCdoABC

Outro ponto destacado pelo diretor foi a tentativa de aproximar moradores da periferia de produções nacionais que ganharam repercussão fora desses territórios.

Zapata citou o caso do filme “Ainda Estou Aqui” e relatou que, durante visitas aos CEUs, muitas pessoas desconheciam a obra e sua repercussão.

“Eu chegava no CEU de José Bonifácio e perguntava: ‘Você já viu esse filme?’ E a pessoa falava: ‘Não sei’”, contou.

Segundo ele, a equipe percebeu que a comunicação sobre o cinema nacional estava concentrada em redes sociais e ambientes culturais específicos, sem alcançar parte significativa da população.

A solução encontrada foi relacionar o elenco do filme com referências mais populares da televisão aberta, especialmente novelas e séries conhecidas do público.

“A gente conseguiu criar uma estratégia de conectar Central do Brasil, conectar a Fernanda Montenegro, conectar a filha”, explicou.

A partir dessa abordagem, a SPCine passou a investir em curadorias que conciliam filmes nacionais, produções populares e grandes franquias internacionais.

“Quem está na periferia quer ver ‘Ainda Estou Aqui’, mas também quer ver o filme da Marvel”, afirmou.

Projeto Futuro Gamer quer aproximar jovens do mercado

Além do cinema, a SPCine também prepara um projeto voltado ao universo dos games. Batizada de “Futuro Gamer”, a iniciativa pretende levar atividades formativas para jovens de periferia por meio de um caminhão itinerante adaptado.

Segundo Zapata, a ideia surgiu após a participação da equipe na Gamescom, na Alemanha, onde houve interesse internacional em produções brasileiras ligadas à cultura nacional.

“A gente queria fazer de um jeito que tivesse sentido e que estivesse dentro do nosso DNA”, afirmou.

O projeto pretende oferecer oficinas, game jams, batalhas e atividades de introdução ao desenvolvimento de jogos. A proposta será implementada inicialmente em cinco CEUs da capital paulista.

“Vai ter aula, game jam, batalhas”, explicou o diretor.

O primeiro local a receber a ação será o CEU São Miguel, na zona leste da capital. Segundo Zapata, o espaço permanecerá cerca de 30 dias em cada unidade.

A faixa etária prevista para participação nos cursos é de 14 a 30 anos. Ainda assim, atividades abertas também poderão receber públicos mais jovens.

“A questão é levar essa visão dos games, essa visão de futuro, de mercado”, afirmou.

O diretor destacou que a iniciativa busca combater a percepção limitada sobre possibilidades profissionais para jovens periféricos.

Existe uma visão muito preconceituosa”, disse. “Acham que todo menino da periferia quer ser jogador de futebol.”

Para ele, o crescimento das ferramentas digitais e da inteligência artificial abriu novas oportunidades profissionais ligadas ao audiovisual e ao desenvolvimento de jogos.

“Ele pode ser um grande programador, um grande game designer, um grande roteirista”, afirmou.

Segundo Zapata, o objetivo principal é criar um sentimento de pertencimento e mostrar que o mercado de games também pode ser acessado por jovens das periferias.

“A gente quer permitir as pessoas sonharem”, declarou.

  • Publicado: 11/05/2026 17:18
  • Alterado: 11/05/2026 17:18
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: ABCdoABC