In Fux We Trust: o voto em cena no roteiro do STF

Ministro adota posição divergente no julgamento de Bolsonaro, reacende narrativas políticas e provoca tensão dentro e fora do Supremo

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Logo cedo, o clima já estava amargo no Supremo. Havia divergência até sobre o horário do almoço — um detalhe banal que virou sintoma da tensão crescente. Moraes perdeu a queda de braço, reforçando que o ambiente não seria leve. Quando os ministros retornaram, o plenário já tinha outro peso: o ar estava denso, o silêncio estratégico e todos os olhares estavam em Luiz Fux.

Fux reapareceu como quem atravessa um portal narrativo: Oz estava de volta, e com ele um roteiro próprio, quase mágico, onde a trama golpista ganha tons de fantasia.

O voto de Fux e o roteiro paralelo

Antes de defender a nulidade da ação penal por falta de competência do STF, Luiz Fux já havia votado para manter os processos dos réus do 8 de janeiro na Corte em mais de 1,6 mil casos analisados. Agora, virou o leme e disse que tudo deveria tramitar na primeira instância. No enredo político, soa menos como evolução jurídica e mais como um portal aberto sob medida.

E ainda teve o surrealismo: Fux argumentou que “não houve arma de fogo” — isso mesmo, enquanto o mundo inteiro assistia, em HD, aos estouros, invasões e depredações do 8 de janeiro.

“Prefiro não citar meus colegas para não criar um clima desagradável ao expor elementos por eles sustentados”, disse, com tom polido — mas soando como quem acende um pavio e, logo em seguida, finge espantar a fumaça com um sorriso de diplomata. No plenário, o silêncio se adensou. Moraes ergueu os olhos, encontrou o de Luiz Fux, e por um instante os dois se encararam com uma seriedade que dispensava palavras. Era o tipo de troca muda que diz mais do que qualquer voto lido.

Luiz Fux
Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Enquanto isso, fora do Supremo, a reação explodiu. Michelle Bolsonaro publicou versículos bíblicos, embalando o voto como revelação divina. Mourão comemorou abertamente nas redes, erguendo um brinde virtual à “justiça feita”. Do outro lado, o perfil oficial do PT detonou o ministro, chamando-o de “contraditório” e acusando-o de trabalhar pela “impunidade dos réus” e de “livrar Bolsonaro, políticos e militares” envolvidos na trama golpista.

E, como se faltasse uma cereja para esse bolo invertido, Deltan Dallagnol ressuscitou fantasmas: publicou no X o velho bordão da Lava Jato “In Fux we trust” — frase dita por Sérgio Moro em conversas vazadas. O multiverso político oficializou o crossover: quem ontem apontava o dedo, hoje ergue o cartaz.

E não para por aí: ao alegar “cerceamento de defesa” e questionar a competência do STF, Fux entregou munição internacional. Criou-se uma brecha para que as defesas tentem internacionalizar o julgamento, invocando o estatuto dos direitos humanos — e sim, você não leu errado. Quem te viu e quem te vê: vivemos para ver o dia em que a defesa de Bolsonaro and friends peça arrego alegando “direitos humanos”.

E nas redes, Paulo Figueiredo cravou: “Fux não será punido pela performance — no Brasil, até delírio tem foro privilegiado.” A frase viralizou e passou a resumir o clima do dia: um voto que virou espetáculo, um ministro que transformou o plenário em palco e um roteiro que parece escrito para desafiar a realidade.

Um enredo de cinema no STF

Julgamento do Bolsonaro no STF - Alexandre de Moraes - Luiz Fux
Gustavo Moreno/STF

O roteiro de Oz também gira rápido. A política tem dessas voltas absurdas: Fux, indicado por Dilma Rousseff ao STF, agora assina um voto que absolve organização criminosa, anula processos e ainda acena para teses internacionais. Não é só uma divergência — é uma travessia. Com esse passo, Luiz Fux deixa o terreno firme do colegiado e se aventura em areia movediça. É como se, ao puxar a cortina, tivesse aberto um portal para um universo onde o chão se desloca sob os pés — um enredo que mistura fantasia e realidade, abrindo espaço para um novo campo de disputa em cortes internacionais, no qual ninguém sabe ao certo onde termina a estrada de tijolos amarelos.

O impacto foi imediato: hashtags bolsonaristas dominaram o trending, advogados já rascunham novos recursos e, no plenário, o clima azedou. Fux, olhando diretamente para Alexandre de Moraes, deixou o colega incrédulo.

Desta vez, Fux foi longe demais. O voto não é só uma divergência jurídica; é uma ruptura silenciosa. Ele se isolou dos colegas, mexeu na narrativa e empurrou o Supremo para um território onde o consenso se fragmenta. Não há retorno fácil: o voto de Fux abriu um flanco que vai ecoar dentro e fora da Corte, como um rasgo temporal no multiverso jurídico.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 10/09/2025
  • Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA