Impasse em Genebra sobre poluição plástica preocupa especialistas

Desilusão nas negociações da ONU: sem acordo sobre plásticos, especialistas alertam para os riscos à saúde e ao meio ambiente.

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Na última sexta-feira, 15 de agosto, as discussões entre representantes de diversos países em Genebra não resultaram em um acordo que pudesse estabelecer limites à produção de plásticos. Essa foi a sexta rodada de negociações promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) que terminou sem consenso, sem previsão de novas reuniões.

Em meio a esse cenário, a médica Thais Mauad, especialista na pesquisa sobre microplásticos no organismo humano, expressou sua frustração com o insucesso das tratativas para um tratado global voltado ao combate da poluição plástica. “Para a saúde pública, essa situação é alarmante. Vivemos um dia de desilusão diante da humanidade. Estamos cercados por uma imensa quantidade de plástico e os interesses econômicos parecem sempre se sobrepor às necessidades urgentes”, declarou a professora da Universidade de São Paulo (USP).

Mauad ressaltou a gravidade da ausência de um tratado que inicie ações concretas para restringir a produção de plásticos não essenciais. Segundo ela, a população já enfrenta uma exposição significativa a esse material, com evidências de contaminação em todos os órgãos humanos e biomas ao redor do mundo. “Sem medidas drásticas, essa situação só tende a se agravar”, alertou.

A especialista criticou ainda a falta de consideração dos negociadores da ONU com relação aos impactos do plástico na saúde humana e no meio ambiente. “A ciência tem sido ignorada. Apesar do volume crescente de pesquisas evidenciando os malefícios, pouco ou nada é levado em conta nas decisões”, afirmou.

Estudos indicam que a presença de plásticos no corpo humano pode estar ligada a diversas doenças, incluindo problemas cardiovasculares e disfunções hormonais. Mauad lamenta que interesses econômicos de nações ricas em petróleo consigam bloquear o desejo coletivo por mudanças significativas, fazendo paralelos com as discussões climáticas na COP, onde também se observa uma ausência de voz para a ciência e para o povo.

O grupo dos países produtores de petróleo tem exercido influência significativa nas discussões sobre a produção do plástico, incluindo nações como Rússia, Índia, China, Irã e Arábia Saudita. Em contraste, uma coalizão formada por 66 países, liderada pela União Europeia e composta por várias nações da África e Oceania afetadas pela poluição plástica, busca debater o ciclo completo do plástico — desde sua produção até seu reaproveitamento e reciclagem.

Mauad previu que eventuais avanços nas próximas rodadas de negociações serão limitados devido à forte presença de lobistas da indústria petrolífera nas reuniões da ONU. Ela acompanhou a última rodada em Busan, na Coreia do Sul, e notou que esses interesses estavam infiltrados nas delegações de diversos países.

O uso global de plástico cresceu quatro vezes nos últimos trinta anos e pode dobrar novamente até 2060. Desde 1950, estima-se que a humanidade tenha produzido cerca de 9,2 bilhões de toneladas desse material, das quais aproximadamente 7 bilhões se transformaram em resíduos.

“O futuro se apresenta sombrio nesse aspecto. A poluição continuará e países em desenvolvimento como o Brasil se tornarão cada vez mais receptores do lixo plástico gerado globalmente”, finalizou Mauad. Ela enfatizou que as oportunidades para avançar nessa questão estão diminuindo e que as consequências científicas tendem a piorar cada vez mais.

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  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 16/08/2025
  • Fonte: Fever