Os impactos negativos no simples ato de levar as crianças à escola
O uso do carro para levar crianças à escola traz impactos no trânsito, na saúde, na autonomia e até no aprendizado
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 19/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A última Pesquisa Origem-Destino do Metrô da Região Metropolitana de São Paulo revelou um marco histórico: o transporte individual motorizado superou o ônibus como principal modo de deslocamento. Um detalhe, porém, chama ainda mais a atenção: uma parcela significativa desses trajetos de carro se destina a levar ou buscar crianças na escola.
Essa prática cotidiana, aparentemente inofensiva, gera efeitos muito além do trânsito local. Filas longas e confusas em frente às escolas não apenas atrapalham a fluidez viária, como também reduzem as oportunidades de que crianças e adolescentes caminhem ou pedalem até a escola, reforçando a dependência do automóvel e o controle constante dos pais.
Autonomia, desenvolvimento e aprendizado das Crianças
Um artigo de opinião recente do The New York Times (Darby Saxbe) defende a importância de “baixar a guarda” para estimular autonomia e habilidades socioemocionais das crianças. Essa perspectiva, aplicada à mobilidade urbana, revela os riscos do “protecionismo”: reduzir experiências que ajudam na independência, na autorregulação e na capacidade de tomar pequenas decisões cotidianas, como atravessar ruas conhecidas ou combinar encontros com amigos.

É verdade que a insegurança pública alimenta a prática de manter os filhos sempre sob supervisão. Entretanto, essa escolha traz consequências: menos atividade física, menor convivência nos espaços públicos e até prejuízos cognitivos. Pesquisas associam o deslocamento ativo — caminhar ou pedalar até a escola — a ganhos de atenção e desempenho acadêmico. Além disso, deslocamentos longos em veículos estão relacionados a pior rendimento escolar e a indicadores negativos de saúde mental, assim como ocorre com adultos que enfrentam longos trajetos até o trabalho.
O custo invisível das filas motorizadas nas Escolas
A concentração de carros em frente às escolas gera poluição do ar em áreas sensíveis, justamente onde crianças permanecem diariamente. Motores em marcha lenta aumentam a exposição a poluentes, além de ruído e estresse. A imagem de crianças entrando em fila em automóveis transforma a escola em um espaço de embarque e desembarque, empobrecendo sua função como lugar de acolhimento e integração comunitária.

Implicações educacionais e sociais
O arranjo centrado no carro limita a aprendizagem pela experiência. Caminhar pelo bairro, enfrentar pequenos riscos cotidianos e assumir responsabilidades simples fortalecem funções executivas e o senso de pertencimento. Quando tudo é mediado pelo automóvel, perde-se a oportunidade de construir vínculos com o território e de estimular a convivência entre pares no trajeto.
Caminhos práticos
Existem alternativas que conciliam segurança com autonomia:
Projetos pedagógicos de independência gradual, em que escolas e comunidades estimulam crianças a realizar pequenas tarefas sozinhas — inclusive ir e voltar a pé com amigos, quando seguro.
Gestão das filas e redesenho do entorno escolar, com vias que priorizem pedestres e ciclistas. Experiências como Projeto Carona a Pé, grupos organizados de caminhada até a escola e programas de ruas escolares já se mostraram eficazes em diversas cidades.
Mudança de hábitos familiares, como estacionar a um quarteirão da escola para que os filhos façam parte do caminho sozinhos, fortalecendo a confiança e a responsabilidade.
Reflexões
Levar os filhos de carro pode parecer a solução mais rápida para a logística do dia a dia, mas seus efeitos cumulativos são negativos: menor autonomia, menos atividade física, maior poluição e impactos no aprendizado. Ao invés disso, precisamos de uma cultura de mobilidade ativa, que permita às crianças conquistar independência de forma gradual e segura.
Pais, escolas e gestores têm papel central nesse processo. Compartilhar trajetos, transformar o entorno escolar em espaço de convivência e resgatar a confiança nas ruas públicas são passos fundamentais para formar uma geração mais saudável, autônoma e conectada à cidade.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.