iFood trava batalha judicial para manter benefícios fiscais do Perse

Empresa alega direito adquirido com base em liminar de 2023

iFood trava batalha judicial para manter benefícios fiscais do Perse

Crédito: Sérgio Lima

O iFood está envolvido em uma disputa judicial com o governo federal para manter os benefícios fiscais concedidos pelo Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), mesmo após o encerramento oficial da iniciativa.

A ação tem como base uma liminar obtida em agosto de 2023, que questiona a exclusão do código CNAE da empresa da lista de atividades aptas ao programa — uma mudança implementada no início do atual governo.

Durante o funcionamento do Perse, o iFood foi o maior beneficiário individual, recebendo cerca de R$ 543 milhões em isenções. O governo, entretanto, encerrou o programa após atingir o teto de R$ 15 bilhões previsto pela Receita Federal, suspendendo os incentivos a partir de abril de 2024.

Em petição protocolada em 1º de abril, o iFood sustenta que a liminar restaura as condições originais do programa, o que, segundo a empresa, excluiria a aplicação de qualquer limite financeiro. Na avaliação do aplicativo, os tributos não recolhidos não deveriam ser contabilizados dentro do teto previsto pela lei.

iFood diz seguir decisão judicial e contesta nova legislação

Em nota à imprensa, a empresa declarou que segue pagando os tributos conforme estabelecido pela Justiça e que seu enquadramento no Perse atendeu todos os critérios legais.

O iFood afirma ainda que a liminar obtida também anula os efeitos da nova Lei nº 14.859, sancionada em 2024, que redefiniu os critérios de participação no programa.

Segundo o argumento da empresa, a manutenção dos benefícios não impede que outras companhias também ingressem no Perse. A empresa reforça que sua atuação durante a pandemia se deu dentro da legalidade e que sua participação no programa foi validada judicialmente em primeira instância.

Entidades do setor reagem: “inaceitável e imoral”

A posição do iFood tem sido alvo de críticas, especialmente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Para a entidade, é “inaceitável e imoral” que uma companhia que cresceu durante a pandemia continue se beneficiando de incentivos voltados a setores que enfrentaram sérias dificuldades financeiras.

Ainda assim, a própria Abrasel tem recorrido à Justiça para tentar manter os benefícios para suas associadas. Em algumas regiões, como Distrito Federal, Goiás e Rio de Janeiro, filiais da entidade conseguiram liminares para assegurar isenções. No entanto, a decisão favorável no DF acabou sendo revertida em instância superior.

De acordo com dados da Receita Federal, a maioria das ações judiciais movidas por empresas para permanecer no Perse tem sido rejeitada. Entre os 715 processos analisados até agora, apenas 15,8% obtiveram decisões positivas.

Enquanto bares fechavam, entregas disparavam

Criado para socorrer empresas afetadas pelas restrições da pandemia, o Perse zerou alíquotas de tributos como IRPJ, CSLL e PIS/Cofins para o setor de eventos, bares e restaurantes. Durante esse mesmo período, o iFood registrou um crescimento expressivo, impulsionado pela alta demanda por serviços de entrega.

Segundo relatório de sustentabilidade publicado pela própria empresa em 2023, a pandemia acelerou a expansão do iFood Mercados e elevou o número de pedidos mensais de 20 milhões em 2019 para 60 milhões em 2021. Em 2023, o volume já alcançava a marca de 75 milhões de entregas por mês.

A continuidade dos benefícios ao iFood, mesmo após o fim oficial do Perse, permanece agora sob análise da Justiça, enquanto o debate sobre o uso de recursos públicos em setores que prosperaram durante a crise sanitária continua acalorado.

  • Publicado: 18/04/2025 23:16
  • Alterado: 18/04/2025 23:17
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: FolhaPress