Morre o compositor Ideval Anselmo, ícone do samba paulistano
Autor de "Narainã" e referência para gerações, Ideval Anselmo dedicou 50 anos ao carnaval e faleceu aos 85 anos
- Publicado: 19/01/2026
- Alterado: 19/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
O carnaval de São Paulo perdeu uma de suas vozes mais fundamentais com a partida de Ideval Anselmo, ocorrida aos 85 anos nesta quarta-feira (18). Em uma coincidência carregada de simbolismo para quem dedicou mais de cinco décadas à folia, o compositor faleceu em plena Quarta-feira de Cinzas. Referência máxima do samba-enredo paulistano, Ideval deixou como maior legado a composição de “Narainã, a Alvorada dos Pássaros”, hino da Camisa Verde e Branco em 1977 que foi laureado como o “samba do século” e é amplamente reverenciado como a obra máxima da história do carnaval da capital.
De torneiro mecânico a mestre do samba: a trajetória inesquecível de Ideval Anselmo
A jornada musical de Ideval Anselmo começou muito antes das avenidas, no interior paulista. Nascido em Catanduva em 1940 e criado em Votuporanga, ele cresceu em um ambiente familiar onde o acordeão do avô e o cavaquinho do pai moldaram sua sensibilidade. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras, persistiu no aprendizado do trompete na escola de música municipal, superando as limitações de um instrumento de difícil afinação. Anos mais tarde, já na capital e trabalhando como torneiro mecânico, Ideval encontrou inspiração na própria rotina industrial: o ritmo repetitivo das máquinas de torno e fresa servia como métrica para seus primeiros versos, revelando um talento raro para transformar o cotidiano em poesia popular.
Sua entrada definitiva no universo das escolas de samba ocorreu em 1971, ao ingressar na Camisa Verde e Branco. O impacto foi imediato e, logo no ano seguinte, ele venceu sua primeira disputa com “Literatura de Cordel”. A partir dali, ao lado de parceiros como Zelão e Miro, Ideval Anselmo formou uma tríade criativa que ajudou a consolidar a escola como uma potência do carnaval. Sua habilidade era única, variando de títulos memoráveis como “Nega Fulô” a composições escritas de forma espontânea em papéis de pão, como o clássico “Almôndegas de Ouro”, vencedor do carnaval de 1979.
Na década de 1980, Ideval Anselmo expandiu sua arte para outras agremiações, colaborando com a fundação da Tom Maior, vencendo campeonatos na Rosas de Ouro e criando hinos profundos na Unidos do Peruche, onde exaltou a religiosidade africana em obras como “Os Sete Tronos dos Divinos Orixás”. Sua obra atravessou gerações e foi imortalizada nas vozes de ícones como Jamelão, Fabiana Cozza e Thobias da Vai-Vai.
Reconhecido como um “Griô”, termo que designa os guardiões da memória oral, ele permaneceu ativo na Embaixada do Samba Paulistano, sempre defendendo um carnaval que priorizasse as raízes comunitárias e a irreverência popular. O velório do mestre acontece nesta quinta-feira (19), no Cemitério Vila Nova Cachoeirinha, encerrando o ciclo terreno de um artista que fez da batida das fábricas o coração do samba.