IA na medicina: os limites e o papel dos algoritmos
Em entrevista, o médico Marcio Biczyk discute livro pioneiro e explica como a IA atua como ferramenta de apoio sem anular o papel do especialista
- Publicado: 08/07/2026 16:49
- Alterado: 08/07/2026 16:49
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
A inteligência artificial (IA) vem ganhando espaço na medicina e é o tema do livro IA em Medicina, do médico e diretor técnico do INLAB (Laboratório de Inteligência Artificial do Hospital das Clínicas da FMUSP), Dr. Marcio Biczyk. Em entrevista exclusiva ao ABC do ABC, o especialista explica como a tecnologia pode auxiliar médicos, quais são seus limites e por que ela não substitui a decisão clínica.

ABC do ABC – Em quais situações o uso da IA pode ser positivo na medicina? E em quais situações o uso da IA não é recomendado?
Marcio: A inteligência artificial pode ser positiva na medicina especialmente como ferramenta de apoio ao raciocínio clínico e à tomada de decisão. Ela pode auxiliar o médico na análise de casos complexos, no levantamento de hipóteses diagnósticas, na indicação de diagnósticos diferenciais e na escolha de exames mais adequados para cada situação.
Por outro lado, o uso da IA não é recomendado em situações essencialmente práticas, operacionais ou que não envolvam decisões clínicas complexas. Atividades como administrar uma medicação, realizar uma punção venosa ou conduzir atendimentos muito dinâmicos no pronto-socorro dependem mais da técnica, da experiência e da ação direta do profissional.
ABC do ABC – Existe o risco de médicos passarem a confiar excessivamente nas recomendações dos algoritmos?
Marcio: Sim, esse risco pode existir, mas a inteligência artificial deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio à decisão, e não como substituta do médico. No fim, quem assina a prescrição, o diagnóstico e a conduta é o profissional responsável, com CRM, e a responsabilidade legal permanece sendo dele.
A IA pode reunir um volume muito amplo de informações e contribuir para o raciocínio clínico, mas a decisão final precisa passar pela avaliação médica. A confiança excessiva no algoritmo pode ocorrer, especialmente quando o profissional se sente inseguro diante de determinado caso, mas o uso adequado da tecnologia exige senso crítico, experiência e responsabilidade. Assim como em outras áreas, a ferramenta auxilia o processo, mas não assume o lugar de quem responde pela decisão.

ABC do ABC – O compartilhamento de dados entre instituições pode acelerar o desenvolvimento da IA sem comprometer a confidencialidade dos pacientes?
Marcio: Sim, o compartilhamento de dados pode contribuir, especialmente quando associado à interoperabilidade entre sistemas, mas esse não é necessariamente o principal campo de atuação da inteligência artificial na medicina. Em geral, a IA tende a apoiar mais diretamente o profissional de saúde, oferecendo suporte à análise e à tomada de decisão.
No sistema privado, o compartilhamento costuma ser menos frequente, já que o paciente geralmente mantém vínculo com um médico, um hospital e um plano de saúde. No SUS, por outro lado, a integração de dados pode ter um papel mais relevante, porque o paciente pode passar por diferentes UBSs, serviços e hospitais.
ABC do ABC – O que motivou o senhor a escrever IA em Medicina neste momento?
Marcio: A motivação foi a percepção de que ainda não havia, no Brasil, uma obra abrangente sobre inteligência artificial aplicada à medicina escrita por um autor brasileiro. O livro nasce, portanto, com uma proposta pioneira: reunir em uma publicação ampla, com cerca de 330 páginas, parte importante do conhecimento sobre o tema e suas aplicações na prática médica.
A ideia é contribuir para a formação de profissionais e interessados em saúde em um momento em que a IA passa a ocupar um espaço cada vez maior na medicina. Como essa tecnologia tende a ser cada vez mais utilizada na rotina médica, a obra busca oferecer uma base de conhecimento para apoiar essa transformação.
ABC do ABC – Usar a IA para encontrar diagnósticos não é algo recomendado para a população em geral. Qual é a principal diferença no uso da IA entre um especialista e uma pessoa comum?
Marcio: A principal diferença está no repertório técnico para interpretar as informações. Para a população em geral, o uso da IA para buscar diagnósticos pode repetir um problema já visto com o “Dr. Google”: o paciente chega ao consultório com uma hipótese pronta, muitas vezes sem contexto clínico, acreditando saber qual é o diagnóstico ou quais exames precisa fazer.
No caso do médico especialista, a IA é usada de outra forma: como ferramenta de apoio ao raciocínio clínico, e não como fonte isolada de diagnóstico. O profissional tem formação para avaliar sintomas, histórico, exames, riscos e contexto do paciente, além de saber questionar e validar as respostas da tecnologia. Por isso, a proposta da inteligência artificial em medicina é apoiar principalmente os médicos, e não substituir a avaliação profissional por uma busca feita diretamente pelo paciente.