Grande ABC ganha 370 mil veículos em dez anos e desafia mobilidade

Expansão de 21,9% da frota supera o avanço do transporte de alta capacidade e reforça a dependência do carro e da motocicleta na região

Crédito: (Divulgação/Ecovias)

O Grande ABC continua sendo uma das regiões mais motorizadas do Brasil. Entretanto, os números mostram que a expansão da frota de veículos ocorreu em ritmo significativamente superior à ampliação da infraestrutura de transporte de alta capacidade, aprofundando a dependência do transporte individual.

Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que a frota dos sete municípios passou de 1.684.446 veículos em dezembro de 2015 para 2.053.808 em dezembro de 2025, um acréscimo de 369.362 veículos, equivalente a um crescimento de 21,9% em apenas uma década.

O boom das motocicletas no Grande ABC

Motos - Motociclistas - Corredor de Motos
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Embora os automóveis continuem representando a maior parcela da frota regional, o crescimento mais expressivo ocorreu entre os veículos de duas rodas. Enquanto a quantidade de automóveis aumentou 13,4%, as motocicletas cresceram 38,1%, e as motonetas apresentaram expansão superior a 113%.

Esse comportamento reflete uma mudança estrutural na mobilidade urbana, impulsionada pela expansão dos serviços de entrega, do transporte por aplicativos e pelo menor custo operacional das motocicletas em comparação com o automóvel.

Comportamentos distintos nos municípios

A análise municipal revela comportamentos distintos. Em números absolutos, Santo André apresentou o maior aumento da frota, incorporando aproximadamente 109 mil veículos em dez anos, seguido por São Bernardo do Campo, com cerca de 96 mil novos veículos. Esses dois municípios concentram a maior parte da atividade econômica e dos deslocamentos pendulares da região, o que explica a contínua expansão da frota.

Sob a ótica percentual, entretanto, o cenário é diferente. Rio Grande da Serra registrou o maior crescimento relativo (37,1%), seguido por Mauá (33,7%) e Diadema (31,8%). Esses resultados indicam que municípios tradicionalmente menos motorizados passaram por um processo acelerado de incorporação de veículos, aproximando-se do padrão observado nas cidades de maior porte.

O comportamento das motocicletas merece atenção especial. Mauá apresentou o maior crescimento percentual da região (45,7%), seguida de Rio Grande da Serra (45,2%), Diadema (39,4%), Santo André (37,9%) e São Bernardo do Campo (36,9%). Esse crescimento supera, em praticamente todos os municípios, a expansão dos automóveis, evidenciando que as duas rodas se consolidaram como uma alternativa econômica para o deslocamento diário e para atividades profissionais.

Por outro lado, São Caetano do Sul apresentou comportamento diferente dos demais. O número de automóveis permaneceu praticamente estável durante a década, com crescimento inferior a 1%, indicando que o município atingiu um elevado nível de motorização, com pouca margem para expansão da frota.

Ainda assim, o número de motocicletas aumentou mais de 21%, mostrando que a diversificação dos modos individuais também ocorre em municípios com maior renda e que oferecem tarifa zero no transporte público desde 2023.

Consequências do crescimento

As consequências desse crescimento são perceptíveis na rotina da população. Mais veículos significam maior demanda por espaço viário, aumento dos congestionamentos, maior consumo de combustível, crescimento das emissões de poluentes e gases do efeito estufa, assim como a ampliação da exposição aos sinistros de trânsito. No caso das motocicletas, há ainda um desafio adicional relacionado à segurança viária, uma vez que motociclistas permanecem entre as pessoas mais vulneráveis das vias urbanas.

E o transporte público?

Nesse contexto, torna-se inevitável discutir o papel do transporte coletivo estruturante. O Grande ABC aguarda há décadas a chegada do metrô. A expansão da Linha 20 – Rosa representa atualmente o principal projeto para integrar a região à rede metroferroviária da capital. Entretanto, apesar da evolução dos estudos e do desenvolvimento do projeto, a operação do primeiro trecho ainda deverá ocorrer apenas na próxima década, caso o cronograma seja cumprido.

Até que essa infraestrutura seja efetivamente implantada, a tendência é que a dependência do transporte individual permaneça elevada. Isso significa que corredores de ônibus, integração tarifária, melhoria da rede cicloviária, qualificação das calçadas, políticas de desenvolvimento urbano orientadas ao transporte coletivo e incentivo à micromobilidade precisarão desempenhar papel fundamental para reduzir a pressão sobre o sistema viário.

Dinamismo econômico no Grande ABC muda o panorama da mobilidade

Trânsito no Grande ABC
(Divulgação/Ecovias)

Os dados da Senatran deixam uma mensagem inequívoca: o Grande ABC ganhou quase 370 mil veículos em dez anos, mas esse crescimento ocorreu principalmente sobre duas rodas. A expansão da frota demonstra dinamismo econômico e mudanças no mercado de trabalho, mas também evidencia que a oferta de transporte coletivo de alta capacidade ainda não evoluiu na mesma velocidade que a demanda.

O desafio para a próxima década não será apenas administrar uma frota maior, mas oferecer alternativas de mobilidade que permitam às pessoas escolher deixar o veículo em casa sem perder eficiência, tempo ou qualidade de vida.

Fonte dos dados: Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
Frota de Veículos por Município e Tipo – dezembro de 2015 e dezembro de 2025.
Dados consolidados para os sete municípios do Grande ABC a partir das bases oficiais.

MunicípioFrota Total (2015)Frota total (2025)CrescimentoAutomóveis (2015→2025)Motocicletas (2015→2025)
São Bernardo do Campo567.178663.22716,9%8,5%36,9%
Santo André500.585609.40521,7%13,1%37,9%
Mauá202.327270.48233,7%25,9%45,7%
Diadema193.533254.98031,8%20,1%39,4%
São Caetano do Sul139.063151.5799,0%40,0%21,4%
Ribeirão Pires64.51480.48624,8%22,5%33,2%
Rio Grande da Serra17.24623.64937,1%36,9%45,2%
Grande ABC1.684.4462.053.80821,9%13,4%38,1%

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 03/07/2026 16:45
  • Alterado: 03/07/2026 16:45
  • Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
  • Fonte: ABCdoABC

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