Grampos mostram braço direito de Richa coordenando campanha de forma oculta

Ex-chefe de gabinete Deonilson Roldo e ex-governador do Paraná, presos nesta terça-feira, são alvos também da Operação Piloto, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal

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O Ministério Público Federal informou nesta terça-feira, 11, que grampos telefônicos apontaram que o ex-chefe de gabinete Deonilson Roldo, do ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), estaria atualmente coordenando de forma oculta a campanha do tucano.

‘EU TIRO TODOS OS PREFEITOS’, DIZ BETO RICHA NO GRAMPO
O tucano teve sete números telefônicos interceptados pela Polícia Federal entre 24 de julho e 1 de agosto.

Segundo a PF, dois números de Beto Richa estavam ativos. O relatório transcreveu três conversas do ex-governador do Paraná: duas com Ezequias e uma com Deonilson.

No dia 28 de julho, Richa e Deonilson conversaram sobre um evento digital em Curitiba. O braço direito perguntou ao ex-governador se ele passaria no Curitiba Social Mix.

Você acha que é bom mesmo é?”, quis saber Beto Richa.
“Eu acho, dá uma foto, modernidade, antenado com essa gente das redes sociais”, afirmou o ex-chefe de gabinete.
“O que que é? Ficam lá na frente, na calçada, ficam onde?”, perguntou o candidato do PSDB.
“Ficam dentro, nas redes sociais lá dentro no canal da música.”
“Lá dentro?”
“É. Estão ligados em computadores né. Estão ligados todos em computadores.”
“Então tá bom. Tem que chamar o Ivo aqui, eu to sozinho”, afirmou Richa.

No dia seguinte, Beto Richa conversou com Ezequias. A ligação de 29 de julho durou cerca de cinco minutos. Naquela ocasião, o tucano tentava manter sob competência da Justiça Eleitoral o inquérito dos repasses milionários da Odebrecht.

Após desejar feliz aniversário ao tucano, Ezequias perguntou. “Parou a crise será?”
“Nada”, respondeu Richa.
“Não?”, quis saber o ex-secretário.
“Um filho da puta muito grande”, seguiu o ex-governador.
“Não, cuidado com palavra aqui. Essas porra tão… Eu falei com, liguei inclusive pra governadora, entendeu?”, recomendou Ezequias.

Em outro trecho, Ezequias diz a Richa que havia falado com ‘Glauco’. “Falei: gente, vocês estão maluco, a perda maior é de vocês, porra.”
O tucano concordou. “Claro que é. Eu tiro todos os prefeitos. Vou fazer um artigo dizendo, a manchete é ‘Fui traído’.”
“Não, mas vocês, fizeram certo ontem. Colocaram teu nome na ata ontem né. Isso é importante”, afirmou Ezequias.
“Não, diz que não”, disse Beto Richa.
“Não?”, perguntou Ezequias.
“Não sei. Que horas que você soube disso?”, quis saber o candidato.
“Não. Eu falei pra você que era pra colocar. Mas o Rafael também vai entrar nessa?”, perguntou Ezequias.
“Ele não é da executiva”, explicou Beto Richa.

Beto Richa e seu aliado são alvos de duas operações: uma do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Paraná, e outra da Operação Lava Jato, do Ministério Público Federal.

Beto Richa e Deonilson Roldo foram presos pelo Gaeco. O ex-governador foi alvo de mandado de busca e apreensão da Lava Jato.

Segundo a Lava Jato, o empresário Jorge Atherino usa suas empresas “para movimentação expressiva de valores sem origem identificada”. Além disso, constatou-se o emprego de sofisticados métodos de lavagem de dinheiro, envolvendo contas no Brasil e no exterior. Portanto, a liberdade dos réus coloca em risco a ordem pública.

A Lava Jato afirma que apura o envolvimento do ex-governador do Paraná Beto Richa nos fatos, mormente em relação à utilização de empresas em nome de familiares para movimentação de valores cuja origem se intenta apurar.

O Gaeco investiga irregularidades no programa Patrulha do Campo, que faz manutenção em estradas rurais. Já a Lava Jato mira em crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e fraude à licitação referentes à duplicação da PR-323, favorecendo a empresa Odebrecht.

São alvos da Lava Jato, além de Beto Richa, Jorge Theodócio Atherino, empresário apontado como operador financeiro do ex-governador, e Tiago Correia Adriano Rocha, indicado como braço direito de Jorge e responsável por diversas transações financeiras dos empreendimentos do executivo.

Em nota, a Lava Jato informou que empresários do grupo Odebrecht realizaram, no primeiro semestre de 2014, um acerto de subornos com Deonilson Roldo, para que ele limitasse a concorrência da licitação para duplicação da PR-323, entre os municípios de Francisco Alves e Maringá. Em contrapartida, a Odebrecht pagaria R$ 4 milhões a Roldo e ao seu grupo.

Segundo a Lava Jato, a corrupção foi ajustada em três reuniões entre Roldo e representantes da empreiteira. As evidências mostraram que, no final de janeiro de 2014, executivos da Odebrecht procuraram o então chefe de gabinete do governador e solicitaram apoio para afastar eventuais concorrentes interessados na licitação da parceria público-privada (PPP) para exploração e duplicação da PR-323.

“As provas indicaram ainda que, após uma primeira reunião, Roldo voltou a se encontrar com executivos da empresa, informando que a ajudaria ilegalmente na licitação, mas para isso contava com o auxílio da empresa na campanha do governador daquele ano de 2014. Desta maneira, segundo as evidências, ele solicitou propinas para vender atos praticados no exercício de sua função pública, com o pretexto de que supostamente elas seriam usadas em campanha”, afirma a Lava Jato.

A DENÚNCIA
A força-tarefa Lava Jato apresentou em 5 de setembro uma denúncia sobre parte dos fatos e agentes investigados pela operação deflagrada nesta terça-feira. Onze investigados foram acusados dos crimes de corrupção (ativa e passiva) e lavagem de dinheiro.

A denúncia foi aceita pela 13ª Vara Federal Criminal e viraram réus o empresário Jorge Theodócio Atherino, apontado como “operador” (intermediário que gerenciava as propinas) do ex-governador Carlos Alberto Richa (Beto Richa); o ex-chefe de gabinete deste último, Deonilson Roldo; Adolpho Julio da Silva Mello Neto; Benedicto Barbosa da Silva Junior; Fernando Migliacchio da Silva; Luciano Riberiro Pizzatto; Luiz Antônio Bueno Junior; Luiz Eduardo Soares; Maria Lucia Tavares; Olívio Rodrigues Junior e Álvaro José Galliez Novis.

As investigações e a denúncia são também frutos da colaboração da empresa Odebrecht e de seus executivos e colaboradores. Informações e provas sobre crimes praticados por todo o País foram distribuídas pelo STF para diferentes jurisdições, mantendo-se naquela Corte e no Superior Tribunal de Justiça os fatos relacionados a pessoas que gozam de foro privilegiado.

DEFESAS
A defesa do ex-governador Beto Richa afirma que “até agora não sabe qual a razão das ordens judiciais proferidas”. A defesa diz que “ainda não teve acesso à investigação”.

O governo do Estado do Paraná disse, em nota, que “está colaborando com todas as investigações em curso. A governadora Cida Borghetti ressalta que não aceita nenhum tipo de desvio de conduta dos seus funcionários e que criou a Divisão de Combate à Corrupção para reforçar o combate à esse tipo de crime. Hoje a divisão está fazendo buscas e apreensão em uma operação que combate fraudes a licitação. O Governo do Estado vai aguardar a divulgação de mais informações a respeito dessa fase da Operação Lava Jato para tomar outras providências”.

O advogado Roberto Brzezinski Neto, que defende Deonilson Roldo, afirmou que está analisando os autos e vai se pronunciar.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 11/09/2018
  • Fonte: FERVER